Wladimir Crippa: Contra o vigilantismo na internet, o Partido Pirata

por Conceição Lemes
 

por Wladimir Crippa, via e-mail

Um espectro ronda a internet: o espectro do vigilantismo. Hollywood e governos; a indústria de games e a da música; FBI e CIA; empresas de telecomunicações e meios tradicionais de mídia; todos se unem para pensar e implementar formas de vigiar, controlar, moldar a internet, esta grande rede de pessoas. Controlar eu e você.

São as forças da reação, no sentido literal da palavra, que buscam reagir e tentar impedir estas transformações trazidas pela revolução digital. Esta revolução silenciosa que está mudando as formas de trabalhar, de produzir, de se comunicar e relacionar socialmente. Este processo que possibilitou que nos tornássemos muito mais do que apenas consumidores de informações: tornou-nos também produtores.

A revolução digital está realizando um empoderamento como nunca visto na história da humanidade. Não apenas nos comunicamos, mas também podemos criar, recriar, transformar, inventar, inverter! O bombardeio de informações a que estamos todos submetidos tem levado muitos a questionar também coisas que não eram questionadas. Pessoas que eram completamente alheias ao que ocorre no mundo e no Brasil, na sua cidade, e que agora questionam e se perguntam se as coisas não poderiam ser de outra forma.

Estas forças da reação, percebendo que isto está acontecendo sem que elas possam ter o controle, apresentam-se como defensoras da propriedade intelectual, do direito autoral, da guerra contra a pirataria, da luta contra o terrorismo etc e, usando este discurso, apresentam suas soluções: vigilância, controle do que os usuários acessam, restrições a conteúdos.

Ocorre que esta revolução digital, que gerou o livre compartilhamento de arquivos em escala de massas, a impressão em 3D, o software livre, o hacktivismo, o bitcoin, criou também as condições para a criação dos partidos piratas, que surgem questionando a propriedade intelectual e os direitos autorais, mas também questionando o sistema baseado na democracia representativa, a falta de transparência nos governos (quando a tecnologia pra tornar a atividade administrativa totalmente transparente está aí), propondo o debate da democracia direta, da democracia líquida e, o mais importante: um posicionamento firme em defesa dos direitos civis e das liberdades individuais.

Para os piratas, está bem claro o que está em jogo: a defesa da propriedade intelectual e do direito autoral só é possível com a violação da privacidade individual, com o estabelecimento de um sistema gigante e complexo de vigilância da atividade dos usuários na internet. Não há outra forma!

Nos seus 7 anos de existência, o movimento de partidos piratas chegou a cerca de 80 países, e, onde já se legalizou, vem sendo bem sucedido eleitoralmente. Na Alemanha já são 43 deputados; no Parlamento Europeu, um deputado e uma deputada, eleitos pelo Partido Pirata da Suécia, o primeiro a ser fundado no mundo; na República Tcheca, um senador; na Suíça, um prefeito; cerca de uma centena de vereadores espalhados pela Europa; nas eleições para o parlamento da Islândia, daqui a duas semanas, os piratas aparecem com 8% de intenção de votos. Aqui, as velas também foram içadas e o Partido Pirata do Brasil está em processo de legalização, após ter feito sua primeira convenção nacional ano passado. Todos e todas estão convidados a subir à bordo desta experiência colaborativa na política.

Wladimir Crippa, tesoureiro geral do Partido Pirata do Brasil – PIRATAS

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7 horas atrás

Heitor Costa: O modo socialista de governar Pernambuco

por Luiz Carlos Azenha
 

O modo socialista de governar: caso de Pernambuco (I)

por Heitor Scalambrini Costa*

Pernambuco, estado de grandes tradições libertárias, encontra-se hoje governado pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Nascido há 65 anos, teve sua existência interrompida pela ditadura militar por 20 anos (1965-1985), retomando suas atividades em 1985.

Teve como presidente, a partir de 1993, Miguel Arraes de Alencar, e desde 2008 até hoje quem o preside é seu neto, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

Em sua página na internet, o manifesto do PSB tem como lema “Socialismo e Liberdade”, e apresenta 11 princípios que o orientam. Cabe mencionar o item VII, que afirma que “o objetivo do Partido, no terreno econômico é a transformação da estrutura da sociedade, incluída a gradual e progressiva socialização dos meios de produção, que procurará realizar na medida em que as condições do País a exigirem”.

Verifica-se neste ponto, a maior contradição entre o que está escrito e o que se pratica (dizer e fazer).

Nunca é tarde para lembrar que uma das diferenças fundamentais entre o capitalismo e o socialismo, é que este propõe a socialização de todas as formas produtivas, como indústrias, fazendas, etc, que passam a pertencer à sociedade e são controladas pelo Estado, não concentrando a riqueza nas mãos de alguns.

Portanto, socialismo é sinônimo de uma sociedade que aboliu a propriedade privada capitalista dos meios de produção, os quais passam a serem propriedades cooperativas ou coletivas dos criadores das riquezas, os trabalhadores.

Bem, vejamos o caso de Pernambuco, cujo governador socialista é o presidente do PSB.

Eleito em 2005 e reeleito em 2010, possui hoje um dos maiores índices (senão o maior) de aceitação popular entre os governadores da República. Seu governo é mostrado ao país e exterior como gestão eficiente, moderna, democrática e transparente.

Uma atuação midiática (ai sim, eficiente) pulverizada pelo Brasil, sem contenção de recursos financeiros, mostra dia após dia uma agenda positiva, de grande gestor, jovem, dinâmico, competente, atraindo empresas para Pernambuco, em particular para o Complexo Industrial Portuário de Suape. Além do amplo respaldo da grande mídia estadual com histórica tradição adesista (não importa qual governo).

Conta com interlocutores no grande empresariado nacional, na siderurgia (em particular), energia, banqueiros, no setor industrial em geral e no comércio. Permitindo assim que circule e seja bem aceito no universo das grandes corporações.

Portanto, aceito pelo povo e pelos empresários, este seria o homem certo para governar o País?

Vejamos como pensa e age este político de berço, conforme seus interesses que hoje se concentram em viabilizar sua candidatura à presidência da República.

De inicio, o fato de falar em nome de um Partido Socialista que propõe a transformação estrutural da sociedade com a socialização dos meios de produção, e sua ação à frente do Executivo pernambucano, demonstra o quanto há de propaganda enganosa, em sua gestão e no partido que comanda.

Como ex-integrante do governo Lula, foi ministro de Ciência e Tecnologia (MCT) de janeiro de 2004 a julho de 2005, em substituição ao ministro Roberto Amaral (também do PSB, o mesmo que publicamente declarou que o Brasil deveria construir sua bomba atômica).

Na sua curta passagem pelo MCT defendeu a ampliação das atividades nucleares no País, realizando a revisão e o soerguimento do Programa Nuclear Brasileiro. Apoiou financeiramente a reestruturação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Como governador defende a instalação de uma usina nuclear em Pernambuco.

Além disso, articulou e foi um dos maiores defensores, juntamente com Ministro da Agricultura da época, Roberto Rodrigues, do uso das sementes transgênicas, sem que se levasse em consideração o principio da precaução, da prevenção e dos possíveis riscos desta tecnologia. A votação da lei 11.105/05, que instituiu a Política Nacional de Biossegurança, chegou ao seu desenlace de forma revoltante para os movimentos ambientalistas e sociais, e para muitos cientistas.

Na verdade foi uma traição (mais uma) do governo Lula ao seu programa eleitoral, onde uma visão de prudência sobre a transgenia aparecia em 3 capítulos: o do meio ambiente, o da saúde e o do Fome Zero.

Com esta lei, pela primeira vez foi aberta uma exceção para a obrigatoriedade do licenciamento ambiental, que somente será exigido quando a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) assim decidir.

Desde sua criação, em 2005, a CTNBio nunca exigiu licenciamento ambiental para a pesquisa e produção de organismos geneticamente modificados (OGMs).

Em 2012, a produção de soja geneticamente modificada no Brasil (chamada popularmente transgênica), alcançou 89% do total produzido, enquanto que do total de milho a produção transgênica chegou a 85% da área plantada.

Ao se candidatar ao governo de Pernambuco, o discurso de Campos era de lutar contra a guerra fiscal, pois na época afirmava que ela destrói a República, o federalismo. Atualmente, participa ativamente do aprofundamento da guerra fiscal.

Nesta guerra com outros estados pela conquista de empreendimentos, é corriqueiro realizar renúncias tributárias, financeiras e creditícias, sem que a sociedade pernambucana se dê conta do montante do comprometimento das receitas futuras. É comum também oferecer como contrapartida a um empreendimento, a realização das obras de terraplanagem ou de acesso viário.

Para contornar as exigências do serviço público, como a elaboração de projeto básico e executivo e licitações, o Estado acaba financiando a obra, sem a cobrança de juros. A criação do Proinfra em 2011 prevê a concessão de descontos no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e funciona de maneira cumulativa com outros incentivos.

Para o desenvolvimento do estado (talvez para o país?) sua proposta é de crescimento predatório, com completo desrespeito à natureza, ao meio ambiente.

Em Pernambuco nunca se desmatou tanto em tão pouco tempo, como em seu governo. Em 27 de abril de 2010 foi aprovado pela Assembléia Legislativa de Pernambuco o projeto de lei do Executivo número 1.496/2010, que autorizou o desmatamento de 691 hectares (508 de mangue, 166 de restinga e 17 de mata atlântica).

Inicialmente se previa — por pressão popular foi reduzido — desmatar 1.076 hectares (área total equivalente a 1.000 campos de futebol) de vegetação nativa: 893,4 hectares de mangue, 17,03 de mata atlântica e 166,06 de restinga, para a ampliação do Complexo de Suape.

A votação foi simbólica, do tipo em que deputados favoráveis permanecem sentados e os do contra ficam em pé. Com ampla maioria no Legislativo estadual, Campos não teve nenhum problema para aprovar o desmatamento.

Também recentemente a lei número 14.685/2012, de 31 de maio, foi aprovada, prevendo o desmatamento de área correspondente a 1.500 campos de futebol, da caatinga que está na rota da obra de transposição do rio São Francisco.

A justificativa foi de integrar os eixos norte e leste com as bacias hidrográficas de 8 municípios pernambucanos. Trata-se do maior desmatamento de vegetação nativa já legalizada em nível estadual. Neste caso o governo propõe o desmatamento e ele próprio autoriza, visto que a bancada governista na Assembléia Legislativa é majoritária.

Mesmo com as promessas de compensação ambiental (como se fosse possível!!!), e com ampla propaganda enganosa na mídia — de que o meio ambiente está sendo preservado — o que se verifica na realidade é que as exigências feitas pelo Ministério Público Estadual em relação aos Termos de Compromissos assinados entre as partes, para efeitos de compensação e recuperação ambiental, não são cumpridos integralmente em Suape (cumpridos somente na propaganda).

Até hoje o MPE não sabe onde exatamente houve este replantio de mais de 1 milhão de hectares anunciados pela propaganda oficial, com ampla divulgação, em página dupla, nos três jornais de maior circulação no Estado, em 17 de janeiro de 2012.

No que concerne à devastação da caatinga, nem mesmo a compensação ambiental foi anunciada. Verdadeiro crime contra a natureza (e com as pessoas que necessitam dela) está ocorrendo em Pernambuco.

Além da destruição ambiental em Suape e no Sertão, outra violência esta sendo cometida contra os moradores daqueles antigos engenhos onde se localiza o Complexo de Suape. Os direitos de mais de 15.000 famílias estão sendo violados com a omissão dos órgãos que deveriam zelar pelo cumprimento das leis, mas que fazem “vista grossa”.

A retirada do que a Administração de Suape denomina “posseiros” (há controvérsia jurídica a respeito) tem sido através da força e da violência. O que se caracteriza como uma enorme injustiça.

Ao não levar em conta, para efeitos de indenização, o valor da terra, e somente as benfeitorias, os valores pagos resultam irrisórios (em março de 2012 um hectare na região valia em torno de R$ 500.000,00). As indenizações variam de R$ R$ 12.000,00 a R$ R$ 40.000,00 para sítios de 5 a 10 hectares, sendo pagas depois de os moradores serem expulsos dos locais onde praticavam a agricultura familiar ou viviam da pesca artesanal.

Estas denúncias estão devidamente documentadas e já foram entregues ao MPE, ao governo do Estado, à presidência da empresa Suape, entre outros órgãos, sem que os mesmos averiguassem e/ou respondessem aos agredidos. Estas pessoas invisíveis aos olhos da sociedade merecem respeito.

Também se constata uma triste realidade nas cidades que fazem parte do entorno de Suape, nos aspectos de moradia, mobilidade, saúde, educação, lazer, violência urbana…

As denúncias dos moradores estão sendo apresentadas repetidas vezes na mídia estadual, que frente à eminência de convulsão social nestas cidades fica impossibilitada de omitir os descalabros vividos pelos habitantes. No que se refere aos quase 50 mil trabalhadore(a)s vindos de todo o Brasil, as condições de trabalho são deploráveis, conforme denúncias dos sindicatos.

As greves sucessivas por melhores salários e condições de vida mostram como, em pleno século XXI, os operário(a)s são tratados.

Outro grave e recorrente problema, que atinge os 2/3 dos municípios pernambucanos, é a seca. Ano após ano constata-se o abandono de políticas públicas estruturantes que possibilitariam ao conjunto dos agricultores familiares minimizar o sofrimento com a perda da produção e rebanhos dizimados devido à inércia dos governos municipal, estadual e federal, que não atenderam em tempo hábil à demanda destas populações.

Estamos vivenciando a pior seca das últimas décadas no Nordeste. Currais vazios, sítios abandonados, pequenos produtores à beira do desespero na bacia leiteira pernambucana. Mas a propaganda exacerbada na grande mídia mostra o crescimento econômico de Pernambuco para alguns, com um conceito já vivido na década de 70, em plena ditadura militar, de “que é necessário o bolo crescer, para depois dividí-lo”. Este modelo se reproduz em Pernambuco.

O Estado tem hoje mais de 120 municípios em situação de emergência e 1,1 milhão de pessoas sofrendo os efeitos da seca. A situação é muito grave. Famílias estão passando por sérias necessidades, porque não conseguem produzir. Falta água, principalmente. Ano a ano se repete a conduta do governo frente à tragédia humana que a seca acarreta.

Há anúncios de carros pipas, de milhares de reais que nunca chegam e acusações de que o governo federal abandona os sertanejos, além do discurso populista ao lado de ex-lideranças da sociedade civil, agora funcionários do governo.

Mas o que contrapõe de forma inequívoca o discurso da modernidade gerencial, da transparência, é o grau de nepotismo que impera no governo estadual. Existe uma ramificação de parentes, contraparentes que estão instalados nos diversos escalões da administração pública.

A semelhança do governo de Pernambuco com as tradicionais oligarquias nordestinas, que sempre confundiram o público e o privado, não é mera coincidência. Ela existe largamente na administração do Estado. É o neo-coronelismo presente.

O próximo artigo vai abordar as políticas públicas estaduais adotadas (saúde, educação, transporte, seca) nestes 6 anos de governo, e os impactos na qualidade de vida dos pernambucanos. Será analisado o porquê de Campos ter uma gestão tão bem avaliada pela população.

*Professor da Universidade Federal de Pernambuco

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8 horas atrás

Breno Altman: Os obstáculos diante do chavismo

por Luiz Carlos Azenha
 

Venezuelanos tem acesso à sua Carta Magna em qualquer lugar do país, até mesmo nas ruas com ambulantes, como mostra o registro do repórter fotográfico Joka Madrugado ComunicaSul.

ELEIÇÃO NA VENEZUELA

15/04/2013 – 11h20 | Breno Altman | Caracas

Vitória de Maduro é incontestável, mas representa novos desafios

Próxima etapa da revolução bolivariana deverá combinar participação estatal com capital privado, nacional ou estrangeiro

por Breno Altman, no Opera Mundi

O resultado eleitoral venezuelano, com o triunfo do candidato chavista, é fato político amparado pela Constituição local. A reduzida vantagem de Nicolás Maduro sobre o direitista Henrique Capriles, inferior a trezentos mil votos (menos de 2% dos apurados), não anula a legitimidade do processo ou do mandato conquistado nas urnas.

Com mais de 50% dos eleitores sufragando o sucessor de Hugo Chávez, a regra democrática está sendo seguida à risca. A maioria, mesmo por escassa margem, tem o direito de decidir o destino nacional.

A oposição conservadora pode estrilar e urrar, o que também está dentro do jogo, desde que não volte a recorrer ao golpismo e à violência. Mas não há qualquer elemento concreto e provado que coloque sob suspeita a peleja institucional deste domingo (14/04).

A história, diga-se, está cheia de situações semelhantes. Na mais célebre entre essas, nos Estados Unidos, John Kennedy (assassinado em 1963) venceu Richard Nixon, em 1960, por apenas 0,1% dos votos. Quem venceu, levou. Quem foi derrotado, voltou para a fila. Ou para o submundo do magnicídio.

Hugo Chávez atravessou cenário parecido quando perdeu, por menos de vinte mil sufrágios, referendo sobre emenda constitucional, em 2007. Apesar de vários assessores tentarem convencê-lo a pedir recontagem, preferiu reconhecer, de pronto, a vitória de seus adversários. A propósito, sua única derrota em dezessete disputas pelo voto popular no período de catorze anos no qual governou.

O respeito à soberania das urnas e sua defesa perante possíveis ataques, porém, não podem eximir os dirigentes bolivarianos de uma análise acurada sobre os motivos que levaram, em apenas seis meses, à redução importante de sua base eleitoral. A revolução amealhou 700 mil votos menos do que em outubro de 2012, enquanto Capriles arrebanhou 570 mil a mais. Parte dos eleitores chavistas não foi votar. Outra fatia, no entanto, trocou de lado.

Sobram razões, como se vê, para que a pulga esteja atrás da orelha.

Claro que, sem o carisma do ex-presidente, a esquerda ficou mais vulnerável à mídia e, sem sua voz, é capaz do discurso de enfrentamento ter soado excessivamente duro para alguns segmentos mais volúveis. Eventuais ações de sabotagem contra o setor elétrico e outras áreas do cotidiano, denunciadas pelos governistas desde o início da campanha, também podem ter auxiliado nesta sangria, ao lado de casos crônicos de maus serviços e corrupção. Talvez seja o caso, contudo, de buscar resposta mais estrutural, como assinalou o próprio presidente eleito logo depois da apuração, ao conclamar o país à “renovação da revolução bolivariana”.

Nova etapa da revolução



Há muitos indícios de que o primeiro ciclo deste processo tenha se esgotado. Desde que assumiu a liderança venezuelana, em fevereiro de 1999, Chávez concentrou seus esforços administrativos em transferir a parte mais expressiva dos excedentes petroleiros para programas sociais, universalização de direitos e outras iniciativas de distribuição da renda. Os resultados foram eloquentes. Andando na contramão do receituário neoliberal, a Venezuela passou a ser a nação menos desigual da América do Sul, o analfabetismo foi liquidado e a pobreza drasticamente reduzida.

Uma das consequências deste caminho foi a vasta ampliação do mercado interno, como força propulsora da economia, mas aprofundando o desequilíbrio histórico entre o ritmo de expansão do consumo popular e a velocidade do crescimento da produção agrícola e industrial. O modelo da dependência petroleira, que sempre inibiu o desenvolvimento interno venezuelano, não era o alvo principal nos primeiros dez anos de chavismo, apesar de várias iniciativas importantes terem sido tomadas. A questão estratégica era repartir os frutos da exploração do ouro negro a favor dos mais pobres.

Neste quadro, a aceleração da demanda provocou fortes pressões inflacionárias e sobre a balança comercial, com as importações minguando as reservas cambiais. A esse desarranjo se soma o espetacular subsídio para a compra de gasolina no mercado interno, que alguns cálculos apontam como equivalente a 10% do faturamento da PDVSA, a gigante estatal do petróleo.

No programa eleitoral de 2012, Chávez já tinha deixado claras estas dificuldades e anunciou um ambicioso programa de desenvolvimento produtivo. Não viveu o suficiente para dar cabo desse objetivo, que caberá a Maduro enfrentar. Concluído o ciclo inicial de resgate da dívida social, os capítulos seguintes dependerão fundamentalmente dos músculos da economia não-petroleira, de sua capacidade para gerar oportunidades, empregos e renda. Sem essa plataforma, as reformas distributivistas possivelmente ficariam, doravante, mais expostas a problemas de financiamento.

O novo presidente terá que enfrentar inúmeros e urgentes desafios neste terreno. Com as camadas populares ampliando rapidamente seu poder aquisitivo, passaram a ser usuais crises de escassez, tanto de mercadorias e serviços quanto de energia elétrica e água, amplificadas pela fuga de capitais como mecanismo de chantagem das oligarquias. A conta política pode ter sido apresentada nessas últimas eleições.

Para desatar esses nós, Maduro precisará estabelecer estratégia que combine participação estatal com capital privado, nacional ou estrangeiro, estabelecendo marco regulatório que enfrente os dilemas de infraestrutura e produção. A receita com o petróleo, na ponta do lápis, não permite ao Estado fazer todos os investimentos necessários, no prazo que ruge. Essas preocupações, aliás, foram lançadas pelo ex-sindicalista na noite de sua vitória, em que também destacou a necessidade de uma nova cultura de gestão, contraposta à ineficiência, ao burocratismo e ao desperdício do dinheiro público.

Ampliação do voto chavista

A implementação de programa desta envergadura, por fim, poderia ajudar a formar uma nova maioria, que fosse além dos limites atuais do voto chavista, atraindo inclusive pequenos e médios empresários que se sentiram desatendidos ou até ameaçados pela primeira etapa do processo bolivariano, quando todas as energias se voltaram para transferir renda do petróleo aos setores mais despossuídos. E essa maioria ampliada também seria fundamental para apoiar medidas amargas que venham a ser tomadas na reorganização da economia.

A legítima vitória de Nicolás Maduro, nessas circunstâncias, eventualmente serviu de alerta para os problemas que rondam a revolução que passou a chefiar, a maior parte deles provocada pelo sucesso inequívoco das políticas de Chávez em construir um sistema de mais justiça social.

Breno Altman é jornalista, diretor do site Opera Mundi e da revista Samuel

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8 horas atrás

Sidney Skiante: A História que não pode continuar secreta

por Luiz Carlos Azenha
 

Ontem, hoje e sempre… do lado certo (ilustração inserida pelo Viomundo, quando a Época, revista das Organizações Globo, festejava Demóstenes, o impoluto)

por Sidney Skiante, via Facebook

Conheci um certo professor de História do Ensino médio do Colégio de Aplicação da UFSC. Tem como metodologia de trabalho com seus alunos ler os jornais de circulação na cidade diariamente. Pinça certas manchetes e artigos. Consegue, com certa habilidade, fazer a ponte entre os acontecimentos atuais envolvendo com os acontecimentos de um passado não muito distante.

O povo que não conhece seu passado (principalmente aquele não muito distante) não sabe para onde deseja ir e, aí… qualquer caminho serve. E este qualquer caminho é o que interessa as forças dominantes.

Cabe então a uma outra parcela da sociedade (no qual entendo que a imprensa alternativa tem um papel fundamental) necessariamente tem que “acordar”…

Bom fiz minha introdução, agora gostaria de resgatar um pouco desta nossa história recente. Trata-se da certidão de nascimento da Rede Globo. É estarrecedor compreender este “chão” onde pisamos hoje. Além do livro publicado (A História Secreta da Rede Globo) existe alguma pesquisa sobre a dita CPI? Observem o trecho que peguei:

O diretor dos Diários Associados, deputado federal e presidente da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, João Calmon em 13/94/1966 depondo na CPI que investigou as ligações entre a Globo e o Grupo Time-Life: “E esta é uma guerra — não é uma guerra quente, mas um episódio da guerra fria. Entretanto, se perdemos neste episódio, o Brasil deixará de ser um país independente para virar uma colônia, um protetorado. Muito mais fácil, muito mais cômodo e muito mais barato, não exige derramamento de sangue, controlar a opinião pública através dos seus órgãos de divulgação, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupação”.

Roberto Marinho disse em 20/04/1966, depondo na CPI que investigou as ligações entre a Globo e o Grupo Time-Life: “As empresas jornalísticas sofreram, mais talvez do que quaisquer outras, certas injunções, como depressões políticas, acontecimentos militares. Os prognósticos que estamos fazendo na TV Globo dependem muito da normalidade, da tranqüilidade da vida brasileira. Esses planos podem ser profundamente alterados, se houver um imprevisto qualquer ou advir uma situação que não esteja dentro dos esquemas traçados, como se vê nas operações de guerra”.

Boa parcela da população brasileira não consegue fazer a leitura do dito professor… Quem é a mídia hoje e de onde vem …

Fica meu registro e desabafo! Abraço …

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Requião: José Dirceu achava que a Globo era “dele”

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9 horas atrás

Pensamento único: Dilma e a volta do dragão da inflação

por Luiz Carlos Azenha
 

por Luiz Carlos Azenha

Não entendo de economia, mas de mídia tenho alguns anos de estrada.

Exemplo acabado da manifestação do pensamento único: página 2 da Folha de S. Paulo, 15.04.2013.

Colunista Um da Folha:

De cada 100 brasileiros aptos a comparecer às urnas em outubro do ano que vem, 40 tinham menos de 16 anos ou nem haviam nascido quando o Plano Real liquidou a superinflação. Para essa fatia do eleitorado, é fraca a memória de preços galopantes, corridas aos supermercados no dia do pagamento e estresse cotidiano com o valor do dinheiro no banco.

Aécio Neves, candidato presidencial do PSDB, em sua coluna na mesma página:

O PT sempre foi permissivo com a inflação. Basta lembrar que se posicionou contra o Plano Real, instrumento que derrotou a inflação e fez o país entrar numa era de prosperidade*. Os mais jovens não conheceram os dias difíceis vividos pela geração de seus pais e avós nos anos 80 e 90, quando os preços mudavam todos os dias nos supermercados e alcançavam a estratosfera.

Colunista Dois da Folha, na mesma página:

Trágico, porém, é notar que o governo descobriu, tardiamente, que uma inflação girando na casa de 6% durante tanto tempo criou resistência para sua queda. E gera um risco de reindexação da economia. Parece ter acordado apenas depois que a inflação alta caiu na boca do povo**. Deixou de ser um debate entre economistas e passou a fazer parte do cotidiano dos eleitores. Nada pior às vésperas de uma eleição presidencial.

Aécio Neves, candidato presidencial do PSDB, na mesma página:

A alimentação no domicílio saltou cerca de 14% em 12 meses. O bom humor dos brasileiros fez a disparada do preço do tomate virar piada nacional. Mas podia ser a farinha da mandioca, que teve crescimento de 151% em um ano***. O impacto é maior entre as famílias mais pobres. Elas gastam do seu orçamento com comida e bebida bem mais que as famílias mais ricas.

O que eu, Azenha, quero dizer é óbvio: ninguém iria notar se trocassemos de lugar as colunas da Folha ou alterassemos as assinaturas dos colunistas.

A ideia é a mesma: o PT e Dilma Rousseff vão pagar caro se não combaterem duramente a inflação via aumento dos juros.

Pregam, aparentemente, uma freada de arrumação na economia, faltando pouco mais de um ano para a eleição presidencial.

Falam, como sempre, em nome dos mais pobres, dos mais “sacrificados” pela inflação.

Ninguém se dá ao trabalho, como o bom jornalismo pede, de ao menos se perguntar: Há outra maneira de enfrentar o problema que não com aumento de juros? O que mudou na economia brasileira e, portanto, nas receitas do combate à inflação, desde que o Plano Real foi adotado? Os brasileiros estão dispostos a conviver com uma inflação ao redor dos 6% se isso não prejudicar o crescimento econômico? Pobre prefere perder com a inflação ou com o desemprego?

Eu, que nada entendo de economia, acho fascinante a “coincidência” entre o discurso de um candidato à presidência da República pelo PSDB e dois colunistas da Folha, praticamente no mesmo espaço.

Dias atrás, ouvindo a rádio CBN, testemunhei uma conversa entre Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg na qual ambos falavam sobre… a inevitabilidade de um aumento na taxa de juros para combater a inflação galopante.

Um deles avançou ao ponto de dizer que, a essa altura, um aumento na taxa de juros deixaria claro o fracasso da política econômica do governo Dilma, que em parte se baseou… na queda da taxa de juros, vendida aos eleitores e à população em geral como um estímulo ao bem estar do País.

Ou seja, se os juros subirem e houver uma freada econômica, Dilma será castigada pelo crescimento anêmico; se os juros ficarem na mesma e a inflação idem, será castigada por permitir a volta do dragão, por pisar no tomate e outros males dos quais, como admitiram tanto o colunista da Folha quanto o candidato do PSDB, boa parte dos eleitores nem se lembra mais. Neste caso, podem contar com aquela reportagem clássica do Jornal Nacional trazendo de volta as máquinas de remarcação de preços e os fiscais do Sarney.

O certo é que, quando José Dirceu acreditava ter uma TV “sua”, a Globo, cometeu um erro que hoje pode ser atribuído à esmagadora maioria do PT. A grande mídia aliada dos tucanos e financiada fartamente pelos governos petistas pauta os debates nacionais, empareda o governo, promove ou exagera crises (depois do inevitável apagão, veio a crise do tomate) e deixa os governos trabalhistas eternamente na defensiva.

Promover a diversidade de conteúdos é muito mais que garantir uma eventual vitória eleitoral. É razão de Estado na defesa de uma democracia que vá além do que pregam, em uníssono, colunistas tucanos e tucanos colunistas.

*A prosperidade citada por Aécio foi tanta que FHC, no segundo mandato, entregou o Brasil ao FMI.

**Também, como a inflação não cairia na boca do povo depois daquele show da Ana Maria Braga?

*** Vem aí a crise da tapioca.

Leia também:

Altamiro Borges: Um colar de tomates a serviço da alta dos juros

Jorge Vianna: “Há uma campanha em curso para os juros subirem”

Montagem do Bastidores da Mídia, no Facebook:

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