Chavez deixa uma Venezuela dividida ao meio

por rkotscho
 

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A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas (…)

Apostar em boas pautas _ não muitas, mas relevantes _ é outra saída. É melhor cobrir magnificamente alguns temas do que atirar em todas as direções. O leitor pede reportagem. Quando jornalistas, entrincheirados e hipnotizados pelas telas dos computadores não saem à luta, as redações se convertem em centros de informação pasteurizada. O lugar do repórter é na rua, garimpando a informação, prestando serviço ao leitor e  contando boas histórias. Elas existem. Estão em cada esquina das nossas cidades. É só procurar.

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A epígrafe acima foi tirada do brilhante artigo “O rapto do jornalismo”, do professor Carlos Alberto Di Franco, publicado nesta segunda-feira no “Estadão”. Di Franco é doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, na Espanha, e quem nos conhece sabe que não somos flores do mesmo jardim do pensamento político e jornalístico.

Seu artigo foi escrito antes da divulgação dos resultados da eleição presidencial de domingo  na Venezuela, mas se presta perfeitamente a explicar porque a nossa grande imprensa nativa foi mais uma vez surpreendida e derrotada, procurando tardiamente explicações para o que aconteceu no país vizinho, com a magra vitória do chavista Nicolás Maduro por menos de 1,6% dos votos de diferença sobre o oposicionista Henrique Capriles, o azarão de uma disputa que era dada como barbada.

Como constata Carlos Alberto Di Franco, faltou reportagem. Aconteceu na Venezuela, mas poderia ter sido em qualquer outro país, mesmo aqui no Brasil, onde os editoriais se confundem com o noticiário feito pelo telefone ou pela internet, em que o jornalismo declaratório cheio de segundas e terceiras intenções para agradar à vontade dos donos, em lugar da boa e velha apuração feita nas ruas, ouvindo e sentindo a alma popular, levam a estas “surpresas” quando os resultados são divulgados.

Se os repórteres sujassem mais os sapatos e não saíssem do conforto das redações só em épocas de eleições, golpes e tragédias, e acompanhassem o cotidiano dos fatos que constroem a história, lá onde o povo vive e eles acontecem, descobririam que a Venezuela não se dividiu ao meio de um dia para outro quando foi chamado a votar, mas já estava rachado com Hugo Chavez ainda vivo em sua longa agonia.

Como outros líderes do gênero, aqueles homens providenciais que de tempos em tempos surgem como os salvadores da pátria, com Chávez também não havia meio termo faz tempo: era tudo na base do ame-o ou deixe-o durante os 14 anos em que exerceu o poder de forma quase absoluta, embora nas últimas eleições seus votos já viessem diminuindo.

Estes homens não costumam deixar herdeiros carismáticos à sua imagem e semelhança, mas apenas sucessores políticos sem brilho próprio, cevados na burocracia_ daí as dificuldades encontradas por Maduro para derrotar um adversário igualmente fraco, já que tanto governo como oposição não souberam formar novos quadros à sombra do todo-poderoso Chávez, como qualquer repórter com mais tempo para viver a realidade venezuelana poderia constatar.

É o que acontece com os repórteres nativos e os correspondentes estrangeiros que querem fazer a cobertura de um país como o Brasil a partir dos gabinetes de São Paulo, Rio e Brasília, ouvindo os mesmos políticos, acadêmicos e especialistas de sempre, e assim vivem sendo surpreendidos com resultados eleitorais, secas, apagões, incêndios, movimentos sociais, novas classes médias, enchentes e todas as conquistas ou tragédias humanas que, de vez em quando, os fazem levantar as bundas das cadeiras giratórias e botar os pés na rua.

Se fosse um deles, o grande José Hamilton Ribeiro, nosso repórter maior, não se arriscaria a ver a Guerra do Vietnã por dentro, e ainda teria as duas pernas intactas para correr de um telefone a outro sem sair da redação, só dando ordens. E a gente não estaria falando dele aqui hoje ao celebrar a importância vital da reportagem para a sobrevivência do jornalismo que corre o risco de ser raptado pela ausência de coragem, compromisso e ousadia, não pela internet.

 

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