De gênio a tarado misógino

por Luiz Biajoni
 

O crítico do Estadão, Luiz Zanin Oricchio, inicia assim seu artigo sobre a adaptação para o cinema do livro de Stephen Rebello sobre a criação de Psicose:

Há uma diferença que salta à vista entre o filme de Sacha Gervasi e o livro em que se inspira. No livro de Stephen Rebello (Hitchcock – os Bastidores da Filmagem de Psicose), a mulher de Hitchcock, Alma, é mencionada uma ou duas vezes, e de maneira superficial. No filme, ela ganha dimensão de coautora do trabalho do marido. Interpretada por Helen Mirren, Alma Reville é muito superior àquele clichê segundo o qual por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Ela, sempre segundo a versão cinematográfica, está ao lado do genial marido e, pelo menos em algumas ocasiões, à sua frente. Claro, este é um filme de corte feminista, bastante adequado ao momento presente.

Janet Leigh em Psicose

É isso: no ótimo livro de Rebello quase não há Alma. Como pode então um filme que teria sido adaptado do livro dar tanto destaque assim a ela?

Hitch dizia que o cinema, assim como a vida, é uma arte colaborativa. Alma era sua colaboradora na vida e em todos os seus filmes e teve papel importante em todos eles, mas defender que foi ela quem salvou Psicose apenas aumenta sua importância, diminuindo o cineasta.

De quem é o roteiro de Psicose? Dizer que é de Joseph Stefano é valorizar demais o iniciante roteirista que não fez nada ligeiramente próximo do trabalho com Psicoseantes ou depois. O roteiro foi discutido e escrito ao longo de cinco meses em sessões quase diárias com Hitchcock, e ainda assim o cineasta não reclamou para si a divisão dos créditos. Quem é o autor da cena do chuveiro ou da morte de Arbogast na escada? Saul Bass colaborou com os desenhos das cenas, mas tem apenas o registro dos créditos de abertura e um agradecimento ao final – mas pode reclamar para si a autoria das cenas?

Hitchcock pensou em uma trilha de jazz para o filme – possivelmente inspirado pela trilha de Duke Ellington para Anatomia de um Crime, de Otto Preminger -, e a cena do chuveiro sem som algum, para aumentar o impacto das imagens. A montagem sem o som não funcionou, mas com a música de Bernard Herrmann tornou a sequência clássica e de impacto sem igual – e teria sido sugestão de Alma. Mas foi Hitchcock quem aprovou, quem soube que o resultado funcionava. Dizer que as cenas não são dele é como dizer que Alma ou Saul Bass teriam construído a cena sozinhos, caso Hitchcock não existisse.

No livro de Rebello, a grande contribuição de Alma para Psicose é a sua percepção de uma piscada de olhos da personagem de Janet Leigh já morta na cena do banheiro (página 135). Quase mais nada. Como pode o personagem ter crescido tanto no filme se não for pelo que Oricchio chama de “corte feminista, bastante adequado ao momento presente”?

Logo no início de Hitchcock, o filme, na cena da saída da exibição de Intriga Internacional, o cineasta encontra vários repórteres e, entre eles, uma loira, a quem ele pergunta se ela tem algum questionamento sobre o filme. Ela diz que não, que quer apenas um autógrafo. Ele diz: “Que pena!”. Alma está logo atrás, tentando sorrir. Está formada a imagem de monstro tarado, que não se encontra no livro de Rebello e que o filme vai explorar, dentro do tal “corte feminista”.

Mesmo corte, aliás, contido no telefilme da HBO The Girl, que explora os bastidores de Os Pássaros e mostra um Hitchcock misógino, quase molestando Tippi Hedren. É sabido que Hitch não superou ter sido trocado por um príncipe por Grace Kelly e que buscava uma nova loira há tempos. Sabe-se também que ele não gostava muito de atores, achava-os caros e preguiçosos. Mas o que se vê na tela em The Girl é quase uma demonização do diretor, embora seja mais fiel aoslivros de Donad Spoto – que serviram de base para o filme.

Sim, Hitch teria ficado obcecado por Tippi, teria usado de jogos psicológicos e até físicos para extrair a atuação que queria de Hedren. Mas a figura de Hitch que fica em The Girl pode fixar uma imagem muito negativa do diretor nos novos espectadores desavisados, que não sabem que Os Pássaros é o penúltimo grande filme de um diretor de grandes filmes e atores.

Hitchcock era um animal de cinema, um gênio como poucos. Os últimos filmes que tentam explorar a gênese de alguns de seus filmes mais importantes, porém, parecem querer diminuir sua importância enquanto diretor original e peculiar.

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