Nicolás Maduro eleito presidente da Venezuela com vantagem de apenas 1,5% dos votos por Luiz Carlos Azenha Ilustração publicada por Augusto Ferreira no Facebook por Luiz Carlos Azenha O ex-chanceler da Venezuela e presidente-em-exercício, Nicolás Maduro, foi eleito neste domingo presidente da Venezuela, com 50,66% dos votos. O candidato oposicionista Henrique Capriles Radonski obteve 49,07%. Segundo o Conselho Nacional Eleitoral, Maduro teve 7.505.338 votos contra 7.270.403 votos de Capriles. A participação foi de 78,71%. Em 2012, Capriles obteve 44,55% dos votos ante 54,84% de Hugo Chávez, que teve seu quarto mandato interrompido em 5 de março de 2013 pela morte causada por um câncer. Foi a décima oitava eleição em 14 anos na Venezuela. Aconteceu onze anos depois de parte da mídia brasileira ter celebrado um golpe cívico-militar contra o presidente Hugo Chávez, retratado aqui. Horas antes do fechamento das urnas, um cracker invadiu as contas do twitter do candidato e presidente-em-exercício Nicolas Maduro e de outras personalidades e instituições ligadas ao chavismo, deixando mensagens como a que aparece abaixo. Oficialistas denunciaram que o cracker atuava a partir de Bogotá, na Colômbia. O fotógrafo Joka Madruga está em Caracas (aqui, um álbum com as imagens dele no Flickr): O post Nicolás Maduro eleito presidente da Venezuela com vantagem de apenas 1,5% dos votos apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir 6 horas atrás “Falido” aos 72, Requião diz que humor na blogosfera é essencial por Luiz Carlos Azenha por Luiz Carlos Azenha O senador Roberto Requião (PMDB-PR) sugeriu, durante o Segundo Encontro de Blogueiros, Redes Sociais e Cultura Digital do Paraná, que ativistas digitais e militantes políticos usem o humor, a ironia e o sarcasmo em seus espaços para desconstruir a mensagem da direita e enfrentar o pensamento único da grande mídia. Segundo Requião, blogs muito intelectualizados correm o risco de afastar novos leitores ou de falar apenas para os mesmos. A observação veio num dia em que vários participantes falaram sobre o risco de a blogosfera se tornar uma “igrejinha”. A blogueira Maria Frô, por exemplo, saudou a presença de militantes que vão organizar um encontro apenas entre blogueiros de saúde, em São Paulo, uma novidade que demonstra que mais e mais gente se apropria das ferramentas disponíveis no espaço digital para se organizar e reivindicar. Antes, o blogueiro Eduardo Guimarães demonstrou preocupação com o tema, lembrando que milhões de brasileiros já se informam prioritariamente pelas redes sociais e que o número de internautas cresce diária e velozmente. As mesas do encontro foram marcadas por outra constatação: a de que o poder da Globo e seus veículos associados vem crescendo no Brasil, ainda que o principal veículo das Organizações enfrente perda de audiência. É que, como lembraram Eduardo Guimarães e este que vos escreve, a Globo hoje se utiliza — com sua tradicional competência organizativa — de todas as plataformas de informação disponíveis para chegar ao público. Como exemplo, lembrei a notícia segundo a qual a emissora contratou mil artistas para participar das Fun Fest da Copa do Mundo, as festas que acompanharão os jogos nas cidades-sede em 2014. As Organizações montaram uma empresa de eventos exclusivamente para isso. Ou seja, a Globo ganha dinheiro com a transmissão da Copa, com os patrocinadores da Copa, com os jogadores da Copa, com a abertura da Copa, com os torcedores da Copa… Requião disse aos participantes que não acredita que o problema da imensa concentração midiática no Brasil — com certeza, uma das maiores do mundo — será enfrentado pelo governo Dilma, mesmo num eventual segundo mandato. O senador sugeriu que se faça uma tranfusão de 10% do sangue da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, para sua colega brasileira Dilma Rousseff. Na Argentina, Kirchner conseguiu aprovar uma Ley de Medios que barra o avanço do grupo monopolista local, o Clarín, equivalente argentina das Organizações Globo. [Leia aqui sobre as leis de mídia na América Latina] Requião, o tuiteiro mais influente do Senado brasileiro, disse aos presentes que cuida pessoalmente de sua conta no Twitter, mas que seu perfil no Facebook é administrado por assessores. Ele foi instado pela blogueira Maria Frô a investir mais no Face. O senador foi definido como um “meme vivo”. Memes são mensagens básicas, equivalentes a manchetes de jornais, que pela facilidade de compreensão e poder de fogo recebem grande número de compartilhamentos. O senador paranaense é reconhecido pelo estilo direto no Twitter: Requião descreveu sua tentativa de aprovar no Senado uma lei que garanta o direito de resposta, que está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado. Depois de receber apoio praticamente unânime, o projeto passou a enfrentar dificuldades, com o acréscimo de emendas que poderiam descaracterizá-lo. Algumas emendas vieram de senadores que anteriormente haviam dado apoio completo à ideia. O projeto deverá ser analisado na sessão da próxima quarta-feira, mas sem a presença de Requião, que estará no Paraguai como observador de eleições locais. Requião não especulou sobre se os senadores foram vítimas da chamada “síndrome de abstinência do Jornal Nacional”. Ao falar das dificuldades enfrentadas pela blogosfera, especialmente o cerco judicial — ele dividiu a mesa com o autor do blog do Tarso, multado em 106 mil reais pelo TRE-PR, a pedido do candidato Luciano Ducci, por colocar no blog uma enquete eleitoral –, Roberto Requião disse que chega aos 72 anos de idade “falido”, depois de ter gasto 800 mil reais com a Justiça. “Sou o político mais processado do Brasil”, afirmou, “mas nunca por corrupção”. Um dos processos, segundo o senador, foi movido por um político a quem denunciou por corrupção, que alegou que a sentença de condenação por falcatruas ainda não havia transitado em julgado. Outra ação, movida pelo Ministério Público Federal, diz respeito à TV Educativa do Paraná. Durante o governo estadual de Requião, a emissora transmitia a chamada Escola de Governo, na qual integrantes do Executivo estadual debatiam e prestavam contas sobre ações de governo. Em caso de condenação, Requião disse que teria de ressarcir aos cofres públicos — pelo tempo usado na TV Educativa — valores que ultrapassam “em mais de dez vezes” todo o seu patrimônio. Requião disse que, na época, entusiasmado com o programa Brasil Nação, que debatia temas nacionais na TV Educativa, chegou a procurar o ex-presidente Lula para sugerir que se fizesse o mesmo em nível nacional. O então presidente pediu que o então governador do Paraná fosse ao ministro da Casa Civil, José Dirceu. Procurado, Dirceu afirmou que o governo já tinha “sua TV”. Dirceu disse a Requião, segundo este, que era “a Globo”. No encontro de blogueiros, o senador paranaense também se disse descrente dos partidos políticos brasileiros e criticou o governo Dilma. Segundo ele, a presidente está fazendo o que nem mesmo o tucano Fernando Henrique Cardoso fez em seus dois mandatos. Em caso de aprovação da MP dos Portos, que tramita no Congresso, o BNDES será autorizado a financiar a privatização (aqui, um discurso do senador a respeito do tema). Requião afirmou que Dilma só pensa na reeleição, não tem um projeto de desenvolvimento nacional coerente e apela às concessões à iniciativa privada numa tentativa de bombar o PIB. Questionado pela plateia, disse que não se trata de “correlação de forças”, nem de uma suposta aliança conservadora das bancadas ruralista e evangélica, nem do fato de que o PT não tem maioria no Congresso, ao contrário de forças políticas que sustentam ou sustentavam Hugo Chávez, Evo Morales, Cristina Kirchner ou Rafael Correa. As medidas conservadoras de Dilma, segundo Requião, são formuladas “na cúpula do governo”. Requião falou sobre a importância da coragem na política. Citou um exemplo caseiro. Foi quando, durante uma campanha eleitoral no interior do Paraná, criticou o projeto de uma estrada que destruia o meio ambiente e foi vaiado por eleitores (mais tarde, descobriu, obteve 72% dos votos na região). Apesar das críticas, Requião diz que se considera da base do governo e não vê opção para 2014. Sobre o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a quem chamou de Dudu Beleza, o senador disse que “Eduardo está muito à direita, muito à direita” de Dilma. Sem entrar em detalhes, afirmou que um dos motivos para não apoiar o líder do PSB vem do fato de que ele, Requião, foi relator da CPI dos Títulos Públicos, popularmente conhecida como CPI dos Precatórios. Abaixo, uma entrevista em áudio com o senador e o registro, em vídeo, da mesa de sábado à noite do BlogProg do Paraná: 0314_162638 1 O post “Falido” aos 72, Requião diz que humor na blogosfera é essencial apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Ver arquivo anexo (3 MB, audio/mpeg) Compartilhar Marcar como não lido Curtir 7 horas atrás Ricardo Young explica assinatura em homenagem à Rota por Conceição Lemes Nota enviada pela Assessoria de Comunicação do vereador Ricardo Young (PPS-SP), via e-mail por Ricardo Young Em apenas três meses de mandato, já fiquei conhecido pelos assessoristas da Câmara Municipal como “o vereador que lê”. Durante as sessões, eles circulam pelo plenário recolhendo as assinaturas dos vereadores para dar início à tramitação de diversos projetos. Tenho como princípio a leitura de cada um antes de assinar e geralmente me posiciono contra homenagens, por acreditar que a cidade tem muitos assuntos urgentes para serem debatidos por seus vereadores. O olhar atento é importante porque já chegou às minhas mãos até mesmo projeto de homenagem a empresário de jogos de cartas! Entretanto , algumas vezes nos são apresentadas pilhas de papeis com dezenas de projetos em meio aos debates das sessões. Inadvertidamente, li apenas as linhas gerais do requerimento para tramitação do projeto que concede salva de prata à Rota e, portanto, assinei-o sem ter conhecimento da sua justificativa. Foi um erro, pois sou contra a homenagem. Assim que tomei conhecimento da justificativa para a homenagem, referindo-se ao desempenho da Rota no período da Ditadura Militar que tanto nos envergonha, tomei imediatamente a providência de me manifestar em plenário contra a medida, dizendo que “o passado da Rota é muito difícil e todos sabemos que havia muita impunidade na época da Ditadura. Obviamente, houve progressos com relação aos seus procedimentos. Daí para justificar uma homenagem assim, precisamos refletir.” Está disponível o áudio do meu discurso naquela oportunidade: https://soundcloud.com/ricardoyoungvereador-1/sessao_plenaria_2603-wav. Minha trajetória não deixa dúvidas de que sempre me preocupei com os Direitos Humanos e jamais defendi a Ditadura Militar. No mesmo dia desse discurso em plenário, fui integrado à Comissão Municipal da Verdade, que pediu a apreciação do projeto e certamente irá sugerir seu arquivamento. O público que acompanha minhas ações através do vídeo Direto do Plenário, que gravo após cada sessão, ficou a par dessa articulação no mesmo dia:http://www.youtube.com/watch?v=dDBH0LTFqrM Por fim, vale esclarecer que as assinaturas dos vereadores significam apenas o apoio à tramitação do projeto, ou seja: a permissão para que a ideia seja debatida pelas comissões e no plenário. As assinaturas não coincidem, portanto, com o voto favorável ao projeto, que passará por votação apenas no final do seu caminho pela Casa. Os paulistanos elegeram três coroneis reformados da Polícia Militar para representá-los nesta legislatura, portanto, é de cunho democrático que permitamos o debate dessas questões. O mais importante, no entanto, é que a sociedade acompanhe o nosso trabalho atentamente e marque presença, como estão fazendo desta vez. Pois só podemos pensar verdadeiramente nossa cidade quando o interesse público tem vez e voz. Leia também: Vereadores criticam nosso texto sobre homenagem de Telhada à Rota Petistas assinaram projeto de homenagem à Rota: A troco do quê? O post Ricardo Young explica assinatura em homenagem à Rota apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir 10 horas atrás Vinícius Vieira: A parceria de Beto Richa com a Microsoft por Luiz Carlos Azenha por sugestão do Buranello Ambrosio, no Facebook PSDB fecha parceria com Microsoft para tentar “afundar” projetos de Software Livre VINÍCIUS VIEIRA 11/04/2013 no #seja livre É isso mesmo minha gente, vocês não estão no blog errado: estamos sim falando de política! Nesta semana recebemos uma denúncia de que o Governo do Estado do Paraná estaria fechando parcerias com a Microsoft, afim de “alavancar” o ensino público estadual. O Governador do Paraná, Beto Richa, do PSDB, assinou anteontem (09) um acordo de intenções com a Microsoft no Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. O presidente da Microsoft Brasil, Michel Levy, disse que o Paraná está “puxando o trem da competitividade” no país. O mais interessante é que o Paraná é o único Estado do país que tem lei aprovada de incentivo e uso de Softwares Livres (Lei Estadual 14.058/2003), que determina que a Administração Pública do Paraná deve utilizar, preferencialmente, programas abertos de computador. Na aquisição de softwares proprietários, deve ser dada preferência para aqueles que operem em ambiente multiplataforma, permitindo sua execução sem restrições em sistemas operacionais baseados em software livre. Ou seja, a iniciativa também descumpre as leis 14.195/2003 e 15.6742/2007, todas da época do governador Roberto Requião (PMDB), mas que ainda estão em plena vigência. Se você não sabe leitor, o Governo do Estado do Paraná tem um dos principais órgãos tecnológicos do país, a CELEPAR, que inclusive foi criado para “executar políticas e ações envolvendo o Software livre” no âmbito do Estado do Paraná: O Governo do Paraná é um dos principais usuários e desenvolvedores de software livre de todo o país. A opção pelos programas de código aberto faz parte das políticas estratégicas de governo. Sua execução é de responsabilidade da CELEPAR. (leia mais aqui) Celepar, cadê você??? A Celepar é responsável por inúmeros projetos de Software Livre público, como por exemplo o Expresso Livre, e que infelizmente com iniciativas como esta acabarão afundando no mar do esquecimento e subemprego. Mas como um Estado que incentiva a prática do Software Livre no país aceita um acordo destes? Os governos não são feitos de políticos e sim de partidos. No fim das contas, quem governa, manda e desmanda é o partido político do meliante cidadão em que votamos. Segundo as nossas pesquisas, o PSDB, partido do Governador Beto Richa, tem um histórico interessante de “acordos com a Microsoft”, vejamos: – No próprio site do PSDB encontramos uma notícia de que o Governador de Goiás, Marconi Perillo, fez uma viajem aos EUA no ano passado (2012) afim de se reunir com a Microsoft e “agradecer” a empresa pela “economia de R$ 90 milhões aos cofres públicos de Goiás”. Se a VERDADEIRA INTENÇÃO do PSDB fosse a economia, teriam usado software Livre e não teriam gasto um único centavo! – Em 2009 o Governo do Estado do Rio Grande do Sul também fechou parceria com a Microsoft para implantação do “Windows Educação” nas escolas públicas. – Segundo o Presidente da Microsoft do Brasil, a empresa está negociando os mesmos termos com outros estados do país, como por exemplo o Rio de Janeiro, que apesar de ser governado pelo “PMDBista” Sérgio Cabral, tem aliança com o PSDB. – O Criador do AI-5 Digital, Eduardo Azeredo, que também é do PSDB, recebeu apoio da Microsoft em pesquisas sobre infecção por vírus no país (leia esta página, no fim do artigo), e usa este dado para basear sua escrúpula invernada contra a Internet brasileira. É engraçado falar que “se colocarmos rédeas na internet” as infecções por vírus diminuirão, mas ninguém comenta em se usar plataformas menos suscetíveis a vírus como forma de diminuição destes dados… – Instalações do PSDB são usadas para eventos da Microsoft Gente, não sou “esquerdista”, muito menos “PTista” e nem sequer confio ou apoio nenhum partido político, mas acho que deu pra ficar bem claro a parceria do PSDB com a Microsoft. A pergunta que não quer calar é: por que será que um partido político teria uma parceria com uma empresa desenvolvedora de software? E a resposta é simples: desvio de dinheiro público e Lobby! Sinceramente esse Brasil me enoja… Leia também: Dr. Rosinha: O terrorismo econômico dos pró-juros altos O post Vinícius Vieira: A parceria de Beto Richa com a Microsoft apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir 11 horas atrás “Estado continua passando por cima das caveiras dos povos indígenas” por Conceição Lemes Gersem Baniwa: Atual projeto de nação não tem lugar para povos indígenas. Foto: Daiane Souza/UnB Agência Thiago Pimenta – Portal EBC Após manifesto de funcionários da Funai por um plano de indigenismo brasileiro, o Portal EBC entrevistou o indígena e doutor em antropologia Social, Gersem Baniwa, que atualmente é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Na opinião de Gersem, que é originário do grupo indígena Baniwa (localizado normalmente no noroeste do Amazonas), um plano indigenista passa previamente por um projeto de nação do país, não podendo acontecer de forma dissociada: “Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o Brasíl ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas”, destaca. O pesquisador, que já trabalhou em projetos no Ministério da Educação, reconhece alguns avanços das ações do governo na área escolar e na saúde indígena. O pesquisador reforça os esforços de gestores e técnicos que tentam avançar nas políticas indigenistas, mas denuncia as pressões sofridas pelos índios brasileiros por outros setores. PLANO INDIGENISTA Portal EBC: Antes de tudo, em que consiste um plano indigenista? Gersem: Um plano indigenista para o Brasil passa pela existência de um Projeto de Nação do Brasil. Quando observamos a difícil situação de vida dos povos indígenas, pelas permanentes violações de seus direitos básicos, como o direito ao território e à saúde, podemos acreditar que ou o país ainda não definiu seu projeto de nação; ou já definiu e neste projeto não há lugar para os povos indígenas. Portal EBC: O texto da Constituição de 88 reconhece aos indígenas o direito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e dá a eles os direitos originários sobre as terras que ocupam. Já a União é responsável por demarcar essas terras, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Não seria esse o começo desse projeto? Gersem: A sociedade brasileira tentou dar sua contribuição por ocasião da Constituinte de 1988, assegurando direitos básicos que garantissem a continuidade étnica e cultural dos povos indígenas, por meio dos direitos sobre suas terras tradicionais e o reconhecimento de suas culturas, tradições e organização social, além do reconhecimento da plena capacidade civil e de cidadania. Minha hipótese é de que essas conquistas legais tinham relação com sentimento de culpa pelos séculos de massacres e mortes impostos aos índios pelos colonizadores, portanto, como medidas reparadoras do ponto de vista moral. Mesmo reconhecendo alguns avanços pontuais no campo da educação (acesso à educação básica e superior ampliado), do direito à terra principalmente na Amazônia Legal e de participação política (06 prefeitos e 76 vereadores indígenas), o Estado continua passando por cima das cabeças e de caveiras dos povos indígenas como acontece de forma escancarada e vergonhosa no Estado de Mato Grosso do Sul, onde os índios Guarani-Kaiowá continuam sob fogo cruzado por fazendeiros e políticos da região. Para as elites econômicas e políticas do país, os povos indígenas continuam sendo percebidos e tratados como empecilhos para o desenvolvimento econômico do país (que na verdade é o enriquecimento desses grupos). Portanto, um plano indigenista brasileiro depende necessariamente da clareza de que nação, sociedade e país se quer construir. Os povos indígenas só terão chance se o Brasil assumir com seriedade a construção de um projeto de nação baseada em uma sociedade pluriétnica, multicultural e solidária. Portal EBC: Quais seriam os pontos são mais importantes para um bom plano indigenista para o país? Gersem: O ponto mais importante de um plano indigenista é garantir as condições reais para a garantia plena dos direitos indígenas, baseadas no protagonismo e na cidadania dos indivíduos e coletividades indígenas. Somente a garantia desses direitos pode garantir a continuidade étnica e cultural desses povos, por meio de segurança territorial, segurança econômico-alimentar, política de educação adequada e política de saúde eficiente. Isso também daria sinal de que os povos indígenas podem ter seu espaço na sociedade brasileira. Percebemos uma grande contradição na política indigenista atual: uma parte minoritária do Estado (governo) que tenta adotar o discurso e a prática em favor dos povos indígenas e a outras majoritária que ao contrário, adota discursos e práticas anti-indígenas. SITUAÇÃO ATUAL DOS ÍNDIOS BRASILEIROS Portal EBC: Como você vê a atual situação dos indígenas brasileiros? O que precisa mudar? Gesem: Hoje os povos indígenas do Brasil passam por uma situação muito difícil e ruim, com violações constantes aos seus direitos e com a crescente violência física e de morte que sofrem. Os dez anos seguintes à promulgação da CF de 1988 foram de gradativo processo de conquistas de direitos concretos (demarcação de terras, educação escolar, organização social e participação política) mas, os últimos três anos foram de estagnação com forte tendência de retrocesso sem precedentes para os povos indígenas. A leitura que faço é que o Estado (comandado pelas elites políticas e econômicas) se arrependeu de reconhecer os direitos indígenas e agora faz de tudo para, em primeiro plano, violar esses direitos e em segundo plano, anular ou reduzir esses direitos. Ou é isso, ou o Estado está assumindo sua incapacidade e incompetência para garantir os direitos dos povos indígenas. As políticas existentes são completamente insatisfatórias. Estão sempre voltadas para resolver ou minimizar problemas acumulados. As políticas indigenistas continuam sendo autoritárias, paternalistas e tutelares. Embora o Brasil tenha adotado a Convenção 169 da OIT, há anos, até hoje ela não foi regulamentada. Neste sentido, um plano indigenista moderno precisa superar seriamente a visão imediatista, autoritária e de descaso institucional. Precisa ser construído um plano transparente e participativo de curto, médio e longo prazo, com metas, objetivos e condições claros de implementação. O mais importante é o plano indigenista ser do Estado e não apenas de um governo ou do órgão indigenista. Portal EBC: Que ações merecem destaque na atual política indigenista? Gersem: É importante reconhecer que nos últimos houve esforços e tentativas do governo federal em avançar nas políticas de atendimento voltadas para os povos indígenas, principalmente após o fim do monopólio da política indigenista pela Fundação Nacional do Índio (Funai), no início da década de 1990. O Ministério da Saúde tem se esforçado para tentar responder às demandas indígenas. O Ministério do Meio Ambiente iniciou experiências inovadoras ainda no final da década de 1990 em apoio técnico e financeiro para projetos socioeconômicos alternativos e autossustentáveis de comunidades indígenas na Amazônia. O Ministério da Educação empreendeu esforços junto aos estados e municípios em busca de melhorias no atendimento escolar às aldeias indígenas. Sem dúvida que essas experiências das últimas duas décadas lograram avanços e êxitos parciais e de algum modo contribuíram para a recuperação da autoestima e de esperança no futuro dos povos indígenas, expressa por meio do crescimento demográfico desses povos que está se aproximando de um milhão de indígenas no país (considerando que na década de 1960 chegaram à cifra de 200.000 indígenas) e da presença cidadã dos indígenas na vida do país. As experiências revelaram também questões preocupantes, como as limitações do Estado no atendimento aos direitos e anseios indígenas. Os gestores e técnicos de ministérios bem que tentaram avançar nas políticas voltadas aos povos indígenas, mas percebe-se atualmente o limite dessas possibilidades, diante do contexto político e econômico do país. Essas possibilidades esbarram na falta de vontade política dos dirigentes maiores em dar relevância às questões indígenas. Sem determinação política o tema nunca entra na lista de prioridades do governo e, por isso, as instâncias e estruturas que atuam junto a esses povos estão sempre esvaziadas, desestruturadas e desqualificadas, sem recursos financeiros, sem equipes e sem condições administrativas. Deste modo fica difícil assegurar os direitos indígenas que ficam a mercê dos interesses econômicos anti-indígenas. Muitas vezes parece que o governo se presta a servir aos interesses desses grupos. Portal EBC: Como você avalia o trabalho da Funai hoje? Gersem: Nos últimos dez anos a Funai tem se esforçado para estar ao lado dos povos indígenas no enfrentamento dos problemas existentes nas aldeias, mas é um órgão do Estado e dos governos, portanto, dominada pela incapacidade e ineficiência institucional. É um órgão com eminência de falência institucional, por ausência de força e crédito político, falta de recursos humanos, equipe reduzida e mal preparada, e com infraestrutura arcaica. É evidente o processo de sucateamento e enfraquecimento do órgão nos últimos anos, na mesma proporção em que as oligarquias econômicas e políticas nos municípios e Estados se organizaram e se fortaleceram contra os direitos indígenas. O enfraquecimento da Funai é o mais claro exemplo do descompromisso do governo e do Estado para com a defesa e garantia dos direitos indígenas no país. Com isso, os povos indígenas cada vez mais estão à mercê e se tornam reféns de municípios, estados e grupos políticos e econômicos hostis aos direitos indígenas. Isso deixa claro também a necessidade de reorganização e fortalecimento do papel do governo federal na defesa e garantia desses direitos. Portal EBC: Como você vê a atual atenção à saúde prestada aos indígenas? Gersem: A política de saúde indígena no Brasil é a que mais se esforçou na busca por um plano mais adequado para o atendimento aos povos indígenas que teve início com a implantação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI´s), enquanto uma etnoterritorialização do atendimento, o que é uma ideia inovadora com grandes possibilidades. No entanto, tem sofrido como todas as demais políticas indigenistas das profundas contradições e irracionalidades da política e da administração pública brasileira. Recentemente foi criada a Secretaria Especial de Saúde Indígena, como resultado de décadas de luta dos povos indígenas, mais uma iniciativa relevante e, no entanto, foi neutralizada pelos gargalos administrativos homogêneos da burocracia estatal pensada para atender as realidades dos centros urbanos. Sem equipes e sem condições logísticas adequadas, a política de saúde indígena está sendo um pesadelo para a saúde dos povos indígenas. O mesmo acontece no campo das políticas de educação escolar indígena, principalmente em regiões da Amazônia e do Nordeste, onde construções de infraestrutura e transporte logístico básicas não são possíveis de serem resolvidas pelos irracionais procedimentos licitatórios. O mesmo acontece com a falta de recursos humanos qualificados para atuar nas aldeias ou próximo às aldeias, pois as formas de contratação, temporárias ou de carreira, não são adequadas, pois dificilmente profissionais qualificados se dispõem a trabalhar nas aldeias com baixos salários pagos pelo poder público. Portal EBC: Como você vê a situação dos indígenas isolados e recém-contatados? Gersem: Entendo que esses povos apresentam consciência sobre a situação de não estabelecerem contato permanente com a sociedade nacional e por isso devem ser respeitados nessa decisão. Neste sentido, cabe ao Estado protegê-los, criar condições de proteção sem ação interventiva ou esforço para estabelecer contato, pois estes povos fazem parte da nação brasileira, ainda que desconhecidos da população majoritária. PRESSÕES SOFRIDAS POR POVOS INDÍGENAS Portal EBC: Quais são as maiores pressões sofridas pelos indígenas brasileiros? Quais são os agentes dessas pressões? Gersem: Na atualidade, as maiores pressões aos povos indígenas vêm dos grupos ruralistas e mineradores do país além, é claro, dos próprios agentes do Estado e das grandes construtoras interessados pelos territórios indígenas e principalmente pelos recursos naturais neles existentes. As principais ameaças vêm das elites econômicas, principalmente ruralistas, na medida em que estão, a todo custo, espoliando as terras indígenas. É importante afirmar que não é possível garantir a continuidade etnocultural dos povos indígenas sem a garantia territorial. Mas não podemos esquecer a outra ameaça que vem das igrejas religiosas, que estão realizando, verdadeiros massacres culturais por meio de suas imposições doutrinárias em detrimento das culturas e valores indígenas. Portal EBC: De que forma essas pressões podem ser aliviadas? Gersem: Primeiro, a partir de um ordenamento territorial, respeitando-se os direitos constitucionais dos povos indígenas. No Brasil, é necessário se criar o hábito e a cultura de se respeitar as leis e o Estado ou governos precisam criar vontade e capacidades para exerceram o poder para zelar pelo cumprimento das leis, indistintamente de classes, grupos sociais ou credos. Segundo, é necessário respeitar a legislação nacional e internacional que asseguram a participação e a consulta prévia e qualificada aos povos indígenas em qualquer projeto ou programa governamental que lhes afetem. Em terceiro lugar, o que é mais importante é a superação do preconceito histórico sobre os povos indígenas de que são empecilhos para o desenvolvimento do país e a superação do racismo que considera os povos indígenas como atrasados ou não civilizados. Não é possível pensar o Brasil desenvolvido e civilizado enquanto não aprender a respeitar e valorizar um dos seus três pilares étnicos, que formaram o povo e a nação brasileira, que são os povos indígenas ou povos originários. Portal EBC: As grandes obras como a construção de hidrelétricas e rodovias também ameaçam os povos indígenas? Gersem: Sem dúvida, depois da luta pela terra as construções de grandes obras ameaçam seriamente a vida presente e futura dos povos indígenas, na medida em que afetam diretamente os ecossistemas dos territórios indígenas que são fundamentais para a sobrevivência física e cultural. É importante destacar que os povos indígenas precisam integralmente de seus territórios, enquanto ecossistemas integrados e abrangentes para perpetuarem suas culturas, tradições, seus conhecimentos e seus modos de vida. Portal EBC: Qual a sua opinião sobre a recente militarização nessas grandes obras, como a presença da Força Nacional no Complexo Tapajós? Gersem: Acho completamente desnecessária e mostra claramente a atitude arbitrária e autoritária do governo. Mostra ainda total falta de sensibilidade e capacidade de diálogo com o movimento social indígena. E o que mais assusta com essa atitude do governo é a possibilidade de que o governo esteja radicalmente decidido a seguir o discurso de em nome do “relevante interesse público” passar por cima dos povos indígenas, ou seja, mais uma vez os povos indígenas podem pagar com suas vidas o suposto bem estar da sociedade majoritária e pode no futuro próximo estimular instabilidade social nas regiões e no país. Um diálogo franco, transparente e democrático com os interessados deveria ser instituído para mediar e solucionar conflitos de interesses. Nem sempre a força física e militar é a melhor solução para muitos casos. Portal EBC: A lei 5.371 diz que a Funai deve exercer o poder de polícia nas áreas reservadas e nas matérias atinentes à proteção do índio. Como você vê a questão do poder de polícia conferido à Funai? A instituição deve ter autonomia ou deve recorrer a outros órgãos de segurança pública? Gersem: Em primeiro lugar não tenho nada contra o poder de polícia da Funai, mas acho isso completamente inviável pelas condições em que o órgão se encontra: enfraquecido, desestruturado e principalmente sem equipe qualificada. Em segundo lugar, é importante considerar o papel do estado brasileiro na defesa e proteção dos direitos dos povos indígenas e, para isso, dispõe de vários instrumentos e mecanismos institucionais, como Ministério Público, a Polícia Federal e a Força Nacional e outros órgãos. Não acredito que somente uma Funai armada irá resolver os problemas dela e dos povos indígenas, mas sim um plano indigenista sério, forte e eficiente, com o peso e a responsabilidade do Estado e dos governos. Portal EBC: Um delegado da Polícia Federal da Delegacia Vilhena, em Rondônia, sugeriu que a Funai fizesse a regularização quanto ao porte de armas de fogo por parte dos servidores. Você é contra ou a favor do porte de armas por funcionários da instituição? Gersem: Em primeiro lugar, sou contra porte de armas para qualquer cidadão que não represente órgãos de segurança pública, de modo que os funcionários da Funai só deveriam portar armas caso eles exerçam poder de polícia, caso contrário sou completamente contra. PERSPECTIVAS PARA O INDIGENISMO BRASILEIRO Portal EBC: Na sua opinião, qual é a maior urgência do indigenismo brasileiro? Gersem: A maior urgência é a definição clara de uma política indigenista para o país com metas de curto, médio e longo prazo. Uma política que estabeleça com clareza o lugar dos povos indígenas na nação brasileira. E para mostrar compromisso e seriedade com esta política é fundamental a aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas que expresse este plano indigenista de curto, médio e longo prazo de forma articulado. O governo federal precisa assumir a responsabilidade pela defesa e proteção dos direitos desses povos, conforme determina a Constituição Federal. Só uma atuação exemplar do governo federal pode tirar os povos indígenas das mãos sanguinárias das elites econômicas, principalmente ruralistas. Portal EBC: Quais são as perspectivas futuras para o indigenismo brasileiro? Gersem: De muita angústia, muita dúvida e muita luta na tentativa de evitar que mais uma onda de genocídios volte a ser executada no Brasil. A esperança está em uma geração de jovens indígenas que estão se formando nas academias brasileiras e que ao longo dos próximos anos vão estar assumindo a liderança de suas aldeias e seus povos e, em muitos casos, também ocupando espaços nos órgãos da administração pública e nos poderes constituídos do país e que podem propor e construir novas alternativas de resistência e sobrevivência dos povos indígenas do Brasil. O grande desafio dessa nova geração de lideranças indígenas é domesticar a hostilidade, a ambição, a vaidade e o senso de tirania dos grupos políticos e econômicos que dominam as estruturas e as políticas do Estado e dos governos. Mas tenho certeza que os povos indígenas continuarão sua histórica luta de resistência mas também de fé por dias melhores em mundos melhores. Edição: Leyberson Pedrosa Leia também: Leia também: Dom Pedro Casaldáliga é ameaçado por invasores de Marãiwatsédé Índios suruís criam comissão da verdade para apurar crimes da ditadura “Terrorismo” informativo foi usado contra Guarani Kaiowá em MS, diz antropólogo Márcio Meira Márcio Meira: Indígenas não ficam congelados no tempo STF e as terras dos Guarani Kaiowá: a morte coletiva Mariana Boujikian: “O Estado não pode mais ser conivente com o extermínio velado dos guarani” Marco Antonio Delfino e Kenarik Boujikian: Portaria 303 da AGU afronta os direitos dos povos indígenas O post “Estado continua passando por cima das caveiras dos povos indígenas” apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir 12 horas atrás Dr. Rosinha: O terrorismo econômico dos pró-juros altos por Luiz Carlos Azenha por Dr. Rosinha, no Facebook Gráfico apresentado ontem pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) em seminário da revista ‘Brasileiros’. Lembre-se desse gráfico da inflação ao se deparar por aí com capas de revistas semanais como ‘Veja’ e ‘Época’. Quem de fato pisa no tomate? A velha mídia e seu terrorismo barato, pró-juros altos. Leia também: Gerson Carneiro e o jornal que “corrige” o Enem O post Dr. Rosinha: O terrorismo econômico dos pró-juros altos apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir 12 horas atrás Gerson Carneiro: Jornal que “corrige” o Enem tem vidraça por Conceição Lemes por Gerson Carneiro, via e-mail A mídia adora atirar pedras no Enem. Outro dia li esta frase sobre o Enem que não me sai da cabeça: “A demagogia política anda de braço dado com a demagogia linguística”. Pouco tempo depois li estas duas manchetes. Frases do Enem? Nãooooooooooo. Do jornal que ultimamente tem atacado de corretor implacável de Redações do Enem. Minha sugestão: estudantes, abram o olho com os jornalões! Não sigam o exemplo deles. Ah…só para relembrar: 31 dias é o período de um mês; Michelle Bachellet é ex-presidente do Chile. Divirta-se um pouco mais: Altamiro Borges: Um colar de tomates a serviço da alta dos juros @emirsader: Tomate trai, baixa o preço e oposição vai pro vinagre O dia em que o Estadão se curvou a Gerson Carneiro O post Gerson Carneiro: Jornal que “corrige” o Enem tem vidraça apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir 16 horas atrás Tarso Genro e a arrogância da grande mídia: “Tomate não é uma concessão pública” por Conceição Lemes Segundo publicado pela Veja, tomate é “O fruto da carne” por Tarso Genro, em Carta Maior Um debate sobre a “regulação” da mídia que ocorreu aqui no RS por ocasião do “Fórum da Liberdade”, que eu não participei e do “Fórum da Igualdade”, que eu participei como conferencista inaugural, teve ampla repercussão no Estado e refletiu nacionalmente através uma matéria decente publicada na Folha de São Paulo. Foi um episódio que demonstrou, mais uma vez, a intolerância e a arrogância da “Grande Mídia”, para traficar os seus valores — fundados no lucro e na anarquia do mercado — no sentido de os tornarem artificialmente universais. Como julgo este assunto extremamente importante para a esquerda e para o projeto democrático de nação que está em disputa no país, vou relatar o conteúdo da minha exposição no “Fórum da Igualdade”. Não vou citar nomes de pessoas nem de empresas, porque não só não tenho interesse de promover um debate personalizado sobre o assunto, como também entendo que esta matéria não é restrita ao nosso Rio Grande e deve ser alvo de discussões que não podem ser banalizadas por conjunturas regionais. Tudo começou com a minha ausência no “Fórum da Liberdade”, onde eu participaria como autoridade da sessão inaugural e a minha presença no ‘Fórum da Igualdade”, para o qual eu fora convidado como conferencista de abertura, tendo como ouvintes sindicalistas, militantes de esquerda, parlamentares de partidos que formam no grupo de opinião que rejeita o projeto neoliberal e também dirigentes do movimentos sociais. Este Fórum, com escassa repercussão midiática, porque composto de grupos, entidades e pessoas com força econômica escassa, para ter qualquer interferência promocional na grande mídia, é diferente do “Fórum da liberdade”. Este , como se sabe, é composto por doutrinadores, empresários, executivos de empresas que defendem -já de forma um pouco monótona- a redução dos gastos sociais (“improdutivos”), o “enxugamento do Estado” (nos salários e nas políticas sociais) e a “redução da carga tributária”, não sem militar pelo aumento dos investimentos públicos em infraestrutura, pelas renúncias fiscais e pelos financiamentos subsidiados para as grandes empresas. É uma pauta legítima na sociedade que vivemos, é claro, mas que cumprida integralmente levaria o nosso país ao caos social, quem sabe a uma ruptura anárquica pela direita autoritária, já que a devastação das escassas políticas de coesão social mínima, que conseguimos implementar nos últimos anos, geraria uma revolta generalizada entre os pobres do país, que usufruem de direitos sociais muito limitados ainda hoje no nosso Brasil. A fala que proferi no “Fórum da Igualdade” despertou a ira no “Fórum da Liberdade” e também uma divulgação viciada do conteúdo da minha palestra, interditando o debate que ali propus, através dos estereótipos de costume: “quer o controle da mídia”, “quer a censura à imprensa “, “quer vedar o direito de opinião”, etc. A argumentação mais sólida que ofereceram foi o “exemplo tomate”. Este exemplo, passará para a história da liberdade de imprensa no país, já que uma conhecida editorialista disse, mais ou menos o seguinte: “essa questão da mídia livre é que nem o tomate, que está caro, ou seja, não se compra; se não gostou das matérias, muda de emissora ou de jornal”. Só que o tomate não é uma concessão pública, nem o acesso a ele está regulado pela Constituição Federal. Um detalhe insignificante que muda tudo. Vejamos o que eu disse no “Fórum da Igualdade.” Tratei, fundamentalmente, de dois assuntos na minha palestra para os trabalhadores. Primeiro, que as empresas de comunicação, em regra, não cumprem a finalidade constitucional das concessões, pois a norma que as regula orienta que a programação das emissoras contemple conteúdos regionais, educativos, culturais, e proteja os valores da família -ou seja também tenha como sentido valorizar a comunidade familiar — obviamente adequando-se à moralidade contemporânea. Disse, ainda, na minha fala, que oitenta por cento dos programas sairiam do ar, se esta norma constitucional fosse cumprida. Segundo, tratei da evolução da questão das liberdades, que percorreu a gênese da democracia. Inicialmente, como lutas pela “liberdade de pensamento” (já que era vedado inclusive na intimidade, mesmo sem publicitar, desconfiar da validade da religião católica). Depois, como “luta pela liberdade de expressão”, já no Renascimento, quando alguns eruditos brilhantes começam a se libertar da dogmática religiosa absoluta e resolveram expressar-se em público como dissidentes “humanistas” (os painéis de Michelangelo na Capela Sistina vêem um Deus Homem, promovendo uma inversão figurativa da Teologia: o Deus abstrato e longínquo passa a ser concebido como um forte Homem concreto); depois, abordei uma importante liberdade dos modernos, a “liberdade de imprensa”, que se consagra na Revolução Francesa, avassala a Europa ( liberdade de dizer em público e imprimir o “dito”, que subverte o monopólio da fala pelas elites) e torna-se um valor democrático altamente respeitado. Finalmente, abordei um quarto tema. A questão da “liberdade de fazer circular livremente as opiniões”. Sustentei que hoje existe uma absoluta desigualdade de meios, para que as opiniões possam circular de maneira equânime, embora as redes na internet tenham aberto novas fronteiras para a circulação da comunicação. Mas, atenção: as redes são acessíveis a todas as opiniões (e é bom que o sejam), mas as TVs e Rádios das “Grandes Mídias” empresariais com tendência monopolista não são acessíveis a todas as opiniões. As opiniões, nas “Grandes Mídias”, inclusive podem ser (e frequentemente o são) filtradas, editadas, selecionadas, distorcidas ou manipuladas, inclusive com o enquadramento dos jornalistas da própria empresa. Nem sempre, nem em todos os momentos, nem em todas as empresas de comunicação isso ocorre. Mas todas estão disponíveis para estes métodos, ao gosto dos seus proprietários. Sustentei, portanto, que há um bloqueio radical da circulação da opinião, cuja divulgação é orientada pela empresa de comunicação, a partir dos valores culturais, ideológicos e políticos dos seus proprietários. Qual a sugestão que dei no Foro da Igualdade, que me convidou para a fazer a abertura solene do seu evento? Censura? Expropriação de empresas? Não. Disse que o Estado deve promover políticas de financiamento e subsídios (que as atuais instituições de comunicação empresariais inclusive já têm) e novos marcos regulatórios, para que possam surgir mil canais de comunicação, com igualdade de qualidade tecnológica e profissional (com mais oportunidades de trabalho livre para os próprios jornalistas), através instituições de comunicação que não dependam do mercado e dos grandes anunciantes. Canais que possam ter uma política de informação mais objetiva e aberta e um debate político mais amplo do que a ladainha neoliberal. Canais que não adotem como mercadoria-notícia a escalada da cultura da força e da violência, dentro da qual concorrem os principais meios de comunicação do país. Trata-se de dar novas oportunidades de escolha aos cidadãos, aos pais, às mães, aos consumidores, que somos todos nós, para que possamos ver e ouvir outras coisas, debater outras idéias, sem qualquer tipo de censura, seja do Estado, seja dos proprietários das empresas e dos seus anunciantes. Isso certamente foi demais e a “circulação da opinião restrita”, que eu mencionara nos meus argumentos em favor da “circulação da opinião mais livre”, foi comprovada pela voz massiva e monocórdia das respostas à palestra, que proferi aos trabalhadores. Revolveram a tese do “controle dos meios de comunicação pelo Estado” – como se já não houvesse controle do Estado, que é o poder concedente dos canais- misturando este assunto com a minha ausência no Foro da Liberdade. O mesmo em que o Vice-Governador do Estado, em outro momento de abertura, foi solenemente vaiado porque ousou dizer que o Governo Lula melhorou o Brasil. A intolerência demonstrada pela “Grande Mídia”, também neste episódio, prova que ainda temos um largo caminho a percorrer, para permitir que as opiniões divergentes circulem livremente na nossa democracia limitada, hoje já mais sufocada pela força do poder econômico e da ganância. Estas questões não interessam ao “Foro da Liberdade”, mas certamente interessam ao “Fórum da Igualdade”. Por isso fui neste, mais fraco. Não no outro, mais forte. Leia também: FHC, no papel, marcha o Brasil para o buraco O post Tarso Genro e a arrogância da grande mídia: “Tomate não é uma concessão pública” apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir 18 horas atrás Marcos Coimbra: FHC marcha o Brasil para o buraco por Conceição Lemes Marcos Coimbra: FHC e mídia de direita são tão parecidos que é difícil saber, hoje, quem influencia quem. Felizmente a maioria da população pensa diferente por Marcos Coimbra, em CartaCapital A vida é cheia de coincidências. Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou um de seus habituais artigos de discussão política. Foi daqueles nos quais assume o papel de farol das oposições. Seu conteúdo era, como se esperaria, fortemente crítico em relação ao governo. Por coincidência, no mesmo dia, os principais jornais estavam cheios de notícias negativas sobre a situação nacional. Depois de lê-los, qualquer um ficaria com a impressão de que o Brasil caminha em marcha acelerada para o buraco (se é que já não estaria dentro dele). Em outra coincidência, ficou pronta, naquele domingo, uma nova pesquisa nacional da Vox Populi. Feita em todo o País, sua amostra era suficiente para que os resultados sejam representativos dos sentimentos da opinião pública brasileira. O artigo de FHC e o tom do noticiário eram tão semelhantes que um desavisado poderia suspeitar. Os editores e o ex-presidente estariam combinados? Você diz isso e nós aquilo? Nós mostramos os “fatos” e você os interpreta? Conhecendo os personagens, é pouco provável. Mas FHC e a mídia conservadora não precisam combinar (no sentido de pactuar) exatamente porque combinam (no sentido de possuir afinidades). Cada um à sua maneira, contam as mesmas histórias. São tão parecidos que é difícil saber, hoje, quem influencia quem. Tendo há muito abandonado o vigor analítico de seus tempos de sociólogo, as ideias de FHC se parecem cada vez mais àquelas dos editorialistas e comentaristas da direita da mídia. E esses, por o admirarem com veneração, fazem o possível para imitar seu pensamento. A cada dia, FHC fica mais Globo e Veja (até porque não conseguiria viver sem eles) e elas mais FHC. Todos imaginam um Brasil lastimável, onde tudo dá errado. São, no entanto, de um otimismo imenso. Paradoxalmente, acreditam que estamos à beira do abismo, mas acreditam em uma saída simples e rápida: derrotar o “lulopetismo” na próxima eleição. Em contraste flagrante, não há qualquer coincidência entre o seu pensamento e o sentimento da vasta maioria do País. A pesquisa da Vox, como as outras recentemente divulgadas, do Ibope e do Datafolha, mostra quão pequena é a parcela da sociedade afinada com a oposição, seja nos partidos, nas instituições, na indústria de comunicação ou na opinião pública. Os entrevistados se dizem satisfeitos com o País e esperançosos em relação ao futuro. Entendem que sua vida tem melhorado e vai melhorar ainda mais. Sabem que falta muito por fazer, mas confiam no caminho trilhado. Aprovam o governo. A maioria considera “ótimo” ou “bom” o modo como Brasília lida com a economia, enfrenta a crise econômica internacional, trata as questões do emprego e da inflação, administra programas sociais, conduz a política habitacional, cuida da imagem externa do País. Gostam da presidenta: mais de 80% dos entrevistados a definem como “ativa”, com “garra”, “decidida”, “conhecedora do Brasil”, “boa administradora”. Mesmo em itens em que os políticos tendem a se sair mal, ela obtém índices muito favoráveis. Mais de 70% afirmam ser ela “sincera”, “próxima do povo” e “de palavra”. É tamanha a diferença entre as convicções oposicionistas e o sentimento popular que é como se vivêssemos em dois países. Em um, tudo vai mal e a mudança política seria imperiosa. No outro, as coisas seguem de maneira satisfatória e as perspectivas são positivas. Neste, a continuidade política é lógica. Está errada a maioria dos brasileiros? Os únicos certos são os próceres oposicionistas, os articulistas de meia dúzia de jornais e a minoria da sociedade? Somente eles conheceriam a “verdade”? Todos os restantes seriam ignorantes e incapazes de conhecer suas vidas, donde inabilitados para dizer-se satisfeitos de forma racional? Não é apenas autoritária a tese de que só alguns poucos privilegiados conhecem o Brasil e possuem a visão certa das coisas. É tola e inútil para a atuação política. Pode ser agradável para uma liderança escrever um artigo para jornal e ler na mesma edição uma manchete a confirmar sua análise. Assim como pode ser prazeroso para um jornalista referendar, por meio de seu trabalho, as ideias do ídolo. Nada disso adianta quando não coincide com o que o povo pensa e deseja. As oposições se acham superiores, mas estão apenas a léguas dos cidadãos. E são eles, os cidadãos, que elegem os governantes. Leia também: Tarso Genro denuncia um episódio em que a grande mídia demonstrou sua intolerância O post Marcos Coimbra: FHC marcha o Brasil para o buraco apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia. Compartilhar Marcar como não lido Curtir