Pinochet, crimes, mentiras e telegramas

por Betho Flávio
 

 

Ele liderou o bombardeio do Palácio de La Moneda por aviões da força aérea, derrubou o governo Allende e assumiu o poder no Chile durante 17 anos. Em 1977, quatro anos depois do golpe que levou o presidente eleito, Salvador Allende, ao suicídio, e instituiu a ditadura militar no Chile, seu governo foi condenado pela ONU pela crueldade – comprovada – exercida contra presos políticos. Foram 40.018 vítimas da ditadura militar – mortos, torturados e presos políticos – de acordo com a contabilidade oficial do governo do Chile, divulgada em 2011. Em 2012, quase seis anos após sua morte, uma investigação judicial no país determinou a abertura de seu testamento, revelando uma fortuna de US$ 26 milhões, dos quais somente US$ 2 milhões possuíam justificativa contábil.

Com essas credenciais, parecem no mínimo inadequados os adjetivos escolhidos pelo embaixador americano no Chile, Nathaniel Davis, para descrever o comportamento de Augusto Pinochet em telegrama secreto enviado em 12 de outubro de 1973, um mês depois do golpe, quando dois jornalistas americanos – Frank Teruggi, 24 anos, e Charles Horman, 31 anos, estavam oficialmente “desaparecidos”.

“Pinochet foi gracioso e eloquente ao expressar seu desapontamento com minha transferência”, descreveu Davis, que deixou o comando da embaixada três semanas depois e foi definitivamente substituído em fevereiro de 1974, referindo-se a uma reunião marcada a pedido do então chefe da Junta Militar no poder, que queria “um momento de tranquilidade para conversar” com o embaixador.

“Ele disse que o Chile precisava enormemente de nossa ajuda, tanto econômica quanto militar, acrescentando que se o governo da Junta fracassar, a tragédia do Chile será permanente”, escreve Davis.“Aproveitei para lhe falar sobre nossos problemas políticos no momento: o debate sobre a Emenda Kennedy, e o problema de direitos humanos levantado pelos casos Teruggi e Horman”.

Ele prossegue justificando mais um pedido de ajuda militar do ditador: “Pinochet argumentou que o governo chileno compartilha de nossas preocupações com os direitos humanos e que está fazendo o melhor possível para prevenir violações, acrescentando que não é fácil porque os extremistas de esquerda continuam a atacar oficiais e soldados e praticar atos de sabotagem. Os extremistas ainda têm metade de seu arsenal, disse Pinochet, e as fábricas de bazucas e outras armas ilícitas continuam clandestinas. Se o exército deixasse o problema escapar de controle, o resultado seria um banho de sangue bem maior do que o atual”.

À luz do que se sabe hoje, o relato de Davis pode ser classificado de francamente cínico e mentiroso – e com a cumplicidade do destinatário. Não há registro da resposta de Kissinger ao telegrama de Davis. Mas a referida Emenda Kennedy tinha sido proposta pelo senador democrata Ted Kennedy, que se opunha ao governo Nixon e a seu secretário de Estado, Henry Kissinger, a quem se destinava o telegrama do embaixador. Aprovada no ano seguinte, essa emenda proibia a venda de armas e/ou ajuda militar americana a governos com denúncias de violação dos direitos humanos, e foi evocada diversas vezes pelos senadores americanos para suspender o suprimento militar ao Chile, embora o secretário de Estado, Henry Kissinger, defendesse que apoio militar e direitos humanos eram “assuntos diferentes”.

Desde 1975, com a conclusão do Church Report, o relatório do senador americano Frank Church, a participação ativa dos Estados Unidos no golpe do Chile era conhecida. Quanto aos casos dos jornalistas desaparecidos dias depois da derrubada de Allende, a explicação é mais complexa – e bem mais comprometedora para o embaixador, principalmente depois que o caso Horman se tornou mundialmente conhecido através do filme “Desaparecido” (“Missing”) de Costa Gravas, lançado em 1982.

Nele, o cineasta retrata a busca desesperada do pai e da mulher de Horman e as fortes suspeitas de envolvimento da embaixada americana no desaparecimento do jornalista logo depois do golpe militar no Chile. O autor dos telegramas publicados aqui, o embaixador Nathaniel Davis, vestiu a carapuça e entrou com um processo de 150 milhões de dólares contra Costa Gravas. O filme foi proibido de ser exibido durante a disputa judicial, que terminou com a vitória do cineasta. O capitão americano Ray E. Davis, adido militar da embaixada, foi acusado de cumplicidade no assassinato de Horman e teve sua extradição dos Estados Unidos pedida em dezembro de 2011 por um juiz chileno durante investigação sobre os crimes da ditadura.

A embaixada oculta os assassinatos dos jornalistas

Dois meses antes do golpe, com a ajuda do jovem Teruggi, o jornalista investigativo Charles Horman havia publicado no jornal alternativo FIN uma história sobre o envolvimento da CIA na desestabilização do governo Allende. Casualmente acabou descobrindo mais detalhes em uma viagem de turismo realizada a pedido de uma amiga americana, na véspera do golpe, ao litoral chileno, onde estavam as forças de apoio da Marinha. Horman e a amiga ficaram retidos em Viña Del Mar – as estradas haviam sido bloqueadas pelos golpistas -, e voltaram à capital chilena no dia 15 de setembro de 1973, de carona com o chefe da missão militar americana, o capitão Ray E. Davis, que lhes relatou milhares de prisões e centenas de mortes na Santiago pós-golpe.

Dois dias depois, Charles Horman foi preso dentro de sua casa, na frente de sua mulher – e nunca mais foi visto vivo. Documentos liberados a partir de 1999 pelo governo americano incriminaram o capitão Davis e apontaram a cumplicidade da embaixada dos Estados Unidos em Santiago na ocultação do crime. No dia 9 de outubro, três dias antes do cínico telegrama de Davis – que sabia do real destino dos jornalistas – a embaixada publicou um anúncio do desaparecimento de Horman, por pressão de seu pai, que só deixou Santiago depois que o corpo do filho e de Teruggi foram “encontrados” nas ruas de Santiago com marcas de execução, no dia 18 de outubro de 1973.

No dia anterior, Edmund Horman, o pai do jornalista, havia visitado a Fundação Ford em Santiago e ouvido de um consultor de programas da fundação que uma fonte confiável havia lhe dito que o seu filho havia sido executado no Estádio Nacional, o centro de interrogatórios, torturas e execuções do governo chileno.

Só então o governo americano – que chegou a declarar que os jornalistas haviam retornado aos Estados Unidos – reconheceu a morte e emitiu a certidão de óbito de Charles Horman, cuja autópsia, assinada por um médico do necrotério do Chile, coloca como causa da morte “múltiplos ferimentos por bala”. O corpo de Teruggi, preso quatro ou cinco dias depois de Harmon, foi encontrado no mesmo dia e nas mesmas condições.

O embaixador se entende com Pinochet: canalizando recursos pelo Brasil

No mesmo 18 de outubro de 1973, dia em que o governo americano finalmente reconheceu o assassinato do jornalista, o embaixador Davis enviou um telegramao Departamento de Estado de Kissinger com o seguinte sumário no alto da página:

“Convoquei o presidente da Junta, Pinochet, dia 17 de outubro. A conversa revelou a preocupação com o governo do Chile com sua imagem nos Estados Unidos. E sensibilidade para a necessidade de cautela para ambos os governos, americano e chileno, em relação ao estreitamento excessivo da identificação pública [entre os dois governos] (…). O presidente do PDC [Partido Democrata Cristão] Aylwin e o Cardeal Silva planejam visitar os Estados Unidos para tentar ajudar no problema da imagem pública do Chile”.

No corpo do longo telegrama secreto enviado a Kissinger, o embaixador – que não diz uma palavra sobre o reconhecimento da morte de Horman que se deu naquele mesmo dia – muda de tom. Explica que seguiu a “rotina diplomática, pedindo o encontro protocolarmente há duas semanas” e que na mesma tarde, Pinochet, que estava “relaxado e amigável”, também recebeu “outros embaixadores”.

Ao tratar da questão econômica no Chile e da cooperação financeira dos EUA, o embaixador conta que Pinochet falou rapidamente com o ministro de Relações Exteriores chileno, Ismael Huerta Díaz, em visita aos Estados Unidos, e que ficou com a impressão que o resultado da viagem seria positivo. “Ele sorriu e disse que entende que nós gostaríamos de ser prestativos, mas em alguns casos a ajuda deveria canalizada em breve através do Brasil ou de terceiros”, acrescentou o embaixador.

De fato, como revelaram os jornalistas Rubens Valente e João Carlos Magalhães, da Folha de S Paulo, em novembro daquele ano o Brasil governado pelo general Emilio Médici liberou US$ 50 milhões ao Banco Central chileno para estimular exportações do Chile. O Brasil também abriu linhas de financiamento na Carteira de Crédito para Exportação do Banco do Brasil para empresários brasileiros interessados em vender para o Chile e em adquirir cobre das jazidas chilenas.

Na conversa com Pinochet, o embaixador Davis prosseguiu: “Mencionando o fato que o governo americano tinha levado uma quantidade considerável de suprimentos médicos para o Chile, eu disse que seria útil divulgar essa ajuda em uma materinha na imprensa. E acrescentei que nós ficaríamos felizes em seguir qualquer preferência ou orientação de Pinochet a esse respeito. Disse que achava que seria útil naquele momento exibir nosso interesse e apoio no campo humanitário. Pinochet disse que achava uma boa ideia. Seu comentário foi o de que a publicidade deveria se restringir a coisas humanitárias e que deveríamos ficar bem quietos a respeito de nossa cooperação em outros campos”. Entre parêntesis, o embaixador acrescentou: “Comentário: Tanto em relação à canalização da ajuda através de outro país como sobre a publicidade, Pinochet está mostrando uma compreensão considerável e ao menos alguma sensibilidade aos problemas que nossos países enfrentam”.

Ainda sobre o assunto, o embaixador relata: “Pinochet me disse que o Cardeal Silva lhe prometeu que tentaria ajudar com o problema da imagem do Chile no exterior. Pinochet acha que talvez o cardeal possa viajar para Washington e falar com o senador Kennedy e outros políticos e religiosos dentro de uma ou duas semanas. Eu comentei que o cardeal era muito respeitado como uma liderança progressista na Igreja que ele teria uma influência considerável”. Novamente entre parêntesis, o embaixador comenta que o presidente do PDC tinha ligado pra ele na manhã daquele dia e que também estava pensando em viajar ao exterior: “Aylwin espera convencer Kennedy e outros líderes democratas de que o Chile precisa da ajuda econômica americana porque uma rápida recuperação do país permitiria que ele voltasse à democracia institucional. Mas expressou alguns escrúpulos morais sobre envolver seu partido profundamente com a Junta, principalmente porque ele teme que a Ley de Fuga esteja sendo usada para eliminar oponentes extremistas”.

A vitória de Pinochet e seus aliados no governo americano

Um telegrama de 3 de abril de 1974,  às vésperas de Pinochet ser nomeado definitivamente presidente da República pela Junta Militar, mostra que a estratégia de Davis – a essa altura substituído por David Popper à frente da embaixada – e o general foi bem sucedida. Em uma reunião cordial de 40 minutos com o secretário americano do Tesouro, George Schultz, Pinochet agradece a “ajuda indireta” dos EUA, “sem especificar o tipo”, ressalta o embaixador que aproveita para transmitir os cumprimentos do presidente Nixon, ao que Pinochet agradece, “referindo-se calorasamente à carta que Mrs. Nixon lhe entregou em Brasília”.

Pinochet também promete compensar financeiramente os Estados Unidos através das minas de cobre e quando questionado por Schultz sobre direitos humanos, responde, segundo Popper que “depois dos eventos de setembro de 1973 [quando houve o golpe militar], não havia outra maneira de impedir a infiltração da esquerda”, mas que “a autoridade de seu governo sempre seria exercida dentro dos limites de respeito pelo indivíduo como ser humano”.

Como prova da liberdade no Chile, dá o seguinte exemplo: “Como o secretário podia ver, se a situação retratada por líderes da oposição chilena no exterior perdurasse, não haveria crianças chilenas nas ruas nem mulheres dirigindo carros”. E “enfatizou a importância que representou para todo o hemisfério livrar o Chile do atraso comunista”.

Em outro momento, Pinochet diz a Popper: “O governo do Chile é um governo cristão que, diferente dos regimes comunistas, tem respeito autêntico pela pessoa humana”. Reconhecendo que “incidentes isolados de abusos ainda ocorrem porque as pessoas ‘não são perfeitas’”, o ditador adverte que os que denunciam as violações de direitos humanos “não são anjos”, e que teriam seus próprios motivos para fazer tais denúncias.

Passado quase um ano do encontro com o Secretário, em janeiro de 1975, quando o Senado americano cobrava a investigação dos crimes contra dos direitos humanos cometidos no Chile e a participação americana nos delitos, Pinochet concluiria uma conversa por telefone com o embaixador Popper falando sobre “amizade”: “Um dia os Estados Unidos entenderão que o Chile é um verdadeiro amigo – provavelmente o melhor – e talvez o único verdadeiro amigo no hemisfério. No nosso caso, isso sempre foi verdade, e agora é muito tarde para mudar”.

PÚBLICA

9 horas atrás

Vida e morte de Julia Pastrana

por Betho Flávio
 

Quantas mulheres escravizadas sexualmente são passadas de mão em mão, de dono para dono e expostas em vitrines?  E os índios, com terras a demarcar e jogados daqui pra lá como se pertencessem à outra espécie?

Assim que os tambores silenciaram, após o carnaval de 2013, foi finalmente enterrado em Sinaloa, México, o corpo de Julia Pastrana, morta em 1860. Julia fez sucesso numa carreira bastante infame: peluda feito um macaco, foi exibida em circos de horrores por toda a sua vida. Se preparem, porque é uma saga de tirar o fôlego.

Julia trabalhava como serviçal do governador de Sinaloa quando um tal senhor Rates resolveu levá-la a Nova Iorque para mostrá-la a amigos cientistas e jornalistas. Acredita-se hoje que Julia sofresse de duas doenças distintas: hipertricose lanuginosa (que lhe conferia abundância de pelos no corpo e no rosto) e de hiperplasia gengival (responsável por suas feições simiescas).

Sob a tutela de Rates, Julia se apresentava em shows, onde expunha sua aparência monstruosa, mas também demonstrava sua inteligência, delicadeza e voz belíssima. Não demorou muito para que outro senhor se interessasse pelo “espécime” e comprasse o passe de Julia: J. W. Beach passou a mostrá-la como um híbrido de mulher e orangotango, com o aval de um doutor Brainerd, que a reputou pertencente a uma espécie distinta.

Após várias viagens pelos Estados Unidos, Pastrana caiu nas mãos de Theodore Lent, que a levou para uma turnê na Europa, com enorme sucesso. O público se impressionava com a cultura e boas maneiras de Pastrana, além de sua voz de cantora. Julia foi até escalada para um trabalho “sério” em teatro, em Leipzig, onde interpretava uma mulher de voz linda, coberta sob um véu, que se revelava no final da peça. O próprio Charles Darwin se encantou com Pastrana, agradecendo-a no prefácio de “Variação de Animais e Plantas Domesticados”: “Uma mulher admirável, com uma barba grossa e masculina.”

Aproveitando o sucesso de público e mídia, Lent lançou uma campanha para arranjar um marido para Julia. Apareceram muitos pretendentes, mas ela rejeitou todos, dizendo (sob orientação de Lent) que queria um marido rico. No final, temendo perder o controle sobre sua tutelada, Lent casou-se com Pastrana. Meses depois, ela engravidou e deu à luz a um bebê peludo. O bebê viveu apenas 35 horas e Pastrana, mais cinco dias.

Após sua morte, Lent vendeu os corpos da esposa e filho ao professor Sukolov, da Universidade de Moscou, que os mumificou, deixando-os à mostra no Museu de Anatomia. Ao saber que o russo lucrava com os corpos embalsamados, Lent reclamou-os de volta e conseguiu recuperá-los. Aí a história se repete: Lent circulou com os corpos embalsamados, o interesse minguou e ele os alugou para um circo de horrores da Noruega. Em 1943, durante a ocupação nazista, o circo foi poupado pelos nazistas, e o corpo de Pastrana circulou nas cidades ocupadas pelo Reich. Em 1953, o dono do circo em Oslo trancou todas as suas maravilhas num galpão, e lá ficou o corpo de Julia, até 2013.

Em 2012, a artista mexicana Laura Barbata, cuja irmã escreveu uma peça de teatro sobre Pastrana, iniciou uma campanha para recuperar o corpo de Julia e enterrá-lo com todas as honras em sua cidade natal. Finalmente, Pastrana foi sepultada (do filho, não se sabe o paradeiro). Sua vida de “animal especial”, exibida em vida e após a morte como um monstro-maravilha, só escancara preconceitos e iniquidades atuais. Você acha que não existem Julias Pastranas hoje em dia? Quantas mulheres escravizadas sexualmente são passadas de mão em mão, de dono para dono e expostas em vitrines? Quantos trabalhadores escravizados? E os índios, com terras a demarcar e jogados daqui pra lá como se pertencessem à outra espécie? Pensem. Há muitas Pastranas por aí.

Fonte: http://revistaforum.com.br/

9 horas atrás

Triunfo Póstumo dos Porcos

por Betho Flávio
 
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Post de Manuel Augusto Araujo

A hipocrisia da educação judaica-cristã em que nascemos e vivemos quase obriga a ser benevolente quando alguém morre, descobrindo dons que nunca tiveram em vida. Recusamos e não pactuamos com esse cinismo, um dos traços da nossa civilização, agora agravados pela complexa e discutível pós-modernidade. Civilização onde impera a razão cínica, uma esclarecida falsa consciência que ao mesmo tempo que denuncia e faz inquietantes diagnósticos sobre o mundo compactua tranquilamente com esses diagnósticos, com ações descaradas e desonestas.

Em curso mais uma grande ação mediática do mais completo cinismo. O pretexto a morte de Margaret Thatcher.

São raros os que denunciam que Thatcher e Reagan abriram caminho ao mais desbragado neo-liberalismo. Morreram os dois dementes, como sempre foram em vida, dementes. Iniciaram políticas que dão os resultados que estamos a ver, sempre ao serviço do grande capital financeiro  sequelas materiais e imateriais, ideológicas, econômicas e financeiras  que contaminam a vida das sociedades atuais.

Morreu Margaret Thatcher. Querem à força e contra a verdade pintar uma imagem positiva. Não! As políticas de Margaret Thatcher são o triunfo dos porcos. Senhora de um pensamento rasca, medíocre foi a primeiro-ministra mais destrutiva e que criou divisões mais fundas na sociedade britânica. Fechou fábricas a eito, a Grã-Bretanha tem hoje uma indústria residual. Promoveu o desemprego em massa. Destruiu comunidades inteiras. Fez recuar a Inglaterra para índices do princípio do século a começar pela mortalidade infantil e pelo agravamento das carências que provocou nas crianças retirando-lhes o pequeno pacote de leite diário e gratuito. Promoveu a ganância, o egoísmo, com uma indiferença e desprezo brutal para aqueles que perderam os seus postos de trabalho.

Tinha ódio aos seres humanos, particularmente aos trabalhadores. vergada ao deus dinheiro, para ela o senhor do mundo. Uma pequena e medíocre mulher que utilizou o seu poder com uma violência de quem não tem uma gota se sangue, de sentimentos, como um animal predador. Nada do que fez a dignifica. Uma cabra sinistra, criminosa! De uma desumanidade brutal! Um Hitler democrático que não precisou de campos de concentração para semear o terror, a morte, fazer regredir o país.

Os seus êxitos econômicos são a moeda falsa do pensamento dominante. Os resultados estão à vista de todo o mundo. Como morreu , no parlamento inglês além dos esperados elogios dos Tories, os trabalhistas espúrios e sem princípios também reconheceram um pretenso perfil de estadista. Não fora a deputada trabalhista, a grande atriz Glenda Jackson, que sempre se opôs a Tony Blair e seus comparsas, traçar um retrato verdadeiro e autêntico de Thatcher e a vergonha espalhar-se-ia pelo Labour, que continua a trilhar os caminhos da traição aos trabalhadores britânicos. Glenda Jackson  afirmou que “de longe, a demonstração mais dramática e hediondo do thatcherismo [foi] onde cada entrada única loja, a cada noite, tornou-se o quarto, a sala de estar, casa de banho para os sem-teto”,

É bom lembrar que os seus sucessos foram obtidos com a ajuda de figuras corrompidas dos sindicatos e de um Partido Trabalhista claudicante, falaz, enganador que desaguou na terceira via de Tony Blair, o caminho da traição, da vilania,  aos princípios do partido.Blair, uma marioneta bem falante, arrogante. Um debochado que seguiu as pisadas de Thatcher brandindo a bandeira em farrapos de um socialismo da treta. Como se viu na célebre cimeira doa Açores, Um Teatro de Mentiras em que Durão Barroso foi porteiro e Blair a Monica Lewinski de Bush.

Para o currículo de Margaret Thatcher ficar completo há que lembrar a sua amizade sólida, de ferro com o torcionário Pinochet, com quem confraternizou variadas vezes beberricando chá sobre um tapete de cadáveres vitimas do seu amigo. Provavelmente compartilhando histórias de torturas e assassínios, o açúcar do seu chá. Também não é de esquecer que a dama teve o desplante, o desaforo de apelidar de terrorista Nelson Mandela, avalizando assim o regime de apartheid.

É essa velha senhora, prosélita de velhas e relhas políticas, que vai ter exéquias públicas, à conta do Estado que se empenhou em privatizar. Não há funerais grátis. Números recentes apontam opara um gasto de dez milhões de libras!!! Que a família suporte as despesas, não o erário público. Até porque a família da senhora bem se banqueteou com os dinheiros do Estado, como acabou por ser conhecido. Afinal como é apanágio desses liberais e liberalotes, de alto e baixo coturno, de poucas virtudes públicas e muitos vícios privados.

Dama de Ferro? Não dama de m****!

9 horas atrás

Legado da Invasão dos EUA: Afeganistão é o país com maior proporção de viciados do planeta

por Betho Flávio
 

Afeganistão se torna país com maior proporção de viciados em drogas

Jawid em centro de tratamento (BBC)

Jawid, 18, é viciado em heroína há dez anos

BBC

O Afeganistão produz 90% das drogas de ópio produzidas no mundo, mas até há pouco tempo o país não era um grande consumidor. Agora, porém, de uma população de 35 milhões, mais de 1 milhão de pessoas estão viciadas em drogas – proporcionalmente, a maior taxa do mundo.

Em pleno centro de Cabul, nas margens do rio que tem o mesmo nome da capital, viciados se reúnem para comprar e consumir heroína. É um local de desolação e degradação.

À luz do dia, cerca de 12 homens e adolescentes sentam em duplas, fumando e injetando drogas. Entre eles há profissionais como médicos, engenheiros, intérpretes.

Tariq Sulaiman, da organização de combate ao vício Najat, aparece ali com frequência para tentar convencer os usuários a buscar tratamento.

“Já faz tempo que estamos perdendo nossas crianças por causa de ataques suicidas, foguetes e bombas”, diz Sulaiman. “Mas o vício é um novo tipo de terrorismo que está matando nossos compatriotas.”

Vício desde criança

Aos 18 anos, Jawid, nascido no norte do Afeganistão, é dependente da heroína há dez anos. Foi apresentado às drogas pelo seu tio, quando era apenas uma criança, para que tivesse mais força para trabalhar na lavoura.

“Odeio a minha vida. Todos me odeiam”, diz ele. “Na minha idade, eu deveria estar na escola. Mas sou um viciado.”

Seu pai já morreu. Sua mãe, deficiente física, se preocupa com ele o tempo todo. Tudo o que ela quer é que ele se livre do vício, mas mesmo assim mendiga por dinheiro nas ruas do país para pagar pela dose diária de heroína e impedir que o filho roube para comprá-la.

Plantação de papoula (Reuters)

Ópio, produzido da papoula, é usado como um remédio no Afeganistão

“Sempre digo ao Jawid que, se eu morrer, ele vai acabar dormindo debaixo da ponte com os outros viciados”, conta ela.

Essa espécie de “cracolândia” é o destino dos viciados em estado mais grave. A polícia afegã constantemente bate neles para dispersá-los e às vezes os atira no rio.

Motivos

São incertos os motivos pelos quais tantos afegãos estão recorrendo às drogas. As décadas de violência no país certamente contribuíram para isso.

Muitos dos que fugiram das últimas três décadas de conflitos se refugiaram no vizinho Paquistão, onde taxas de dependência de drogas são tradicionalmente altas. Agora, esses imigrantes estão retornando e trazendo seus vícios consigo, dizem autoridades.

O desemprego, atualmente em taxas de 40%, é outro agravante.

“Se eu tivesse um emprego não estaria aqui”, diz Faroog, um dos viciados na margem do rio Cabul. Ele é formado em medicina e chegou a gerenciar um hospital.

Ele diz se drogar para “relaxar” – mas preferiria estar morto a ser o viciado que é hoje.

Outro fator é a crescente disponibilidade de heroína, que na última década começou a ser refinada a partir do ópio no próprio Afeganistão.

Comprar heroína em Cabul é “tão fácil quanto comprar comida”, dizem viciados. Um grama custa o equivalente a R$ 12 e está disponível em qualquer esquina da cidade.

“Tradicionalmente, dizemos que a demanda cria a oferta”, diz Jean-Luc Lemahieu, representante regional da agência antidrogas da ONU (Unodc). “O que esquecemos, porém, é que a mera aparição do produto no mercado cria uma demanda local.”

Quando as tropas estrangeiras chegaram no Afeganistão, em 2001, uma de suas metas era conter a produção de drogas. Em vez disso, elas se concentraram na luta contra insurgentes e são acusadas de fazer vista grossa às plantações de papoula no país.

Ópio

O ópio está presente no Afeganistão há séculos, sendo usado como uma espécie de remédio para todos os males.

Centro de tratamento de dependentes no Afeganistão

Centro para dependentes impõe 72 horas de abstinência

Em um hospital no norte do país, a BBC encontrou-se com uma afegã, Fatima, que tomou ópio após sofrer uma hemorragia pós-parto – era mais barato do que procurar um médico.

Ela também deu a substância à sua recém-nascida, como remédio para a tosse. Hoje, ambas são viciadas.

Por sinal, mulheres e crianças representam 40% dos dependentes de drogas do país.

Enquanto Fatima e sua bebê se submetem a tratamento em um hospital público, poucos viciados afegãos recebem qualquer tipo de apoio.

Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde tem 95 centros de tratamento de dependentes no país, com 2,3 mil leitos. Seu orçamento total para tratar 1 milhão de pessoas é de US$ 2,2 milhões, ou seja, 2 dólares (R$ 4) por pessoa por ano.

Jawid consome o triplo desse montante em heroína diariamente.

Ele conseguiu uma vaga na Najat, a organização de Tariq Sulaiman, onde o tratamento consiste em 72 horas de abstinência.

Após um dia, Jawid sentia dores, mas conseguiu aguentá-las. Na segunda noite, porém, começou a gritar, a chorar e a bater sua cabeça contra a parede.

De volta às ruas, ele negou à equipe da BBC que tivesse voltado à heroína, mas seu olhar fixo e sua fala inconstante contam uma história diferente.

Sua possibilidade de se livrar do vício é pequena. E, diante dos tantos problemas do Afeganistão, as chances de o país vencer a guerra contra as drogas são igualmente incertas.

11 horas atrás

NERUDA NO CORAÇÃO

por Betho Flávio
 

nerudaysuperrito

Para os que salpicaram a pátria de sangue,

peço castigo.

Para o verdugo que ordenou esta morte,

peço castigo.

Para o traidor que ascendeu sobre o crime,

peço castigo.

Não vos quero como embaixadores,

tampouco em casa tranquilos,

quero ver-vos aqui julgados,

nesta praça, neste lugar.

Quero castigo.

Pablo Neruda já tinha tudo acertado. Seus planos de usar o dinheiro conseguido em vida para fundar uma casa de repouso para escritores pobres, para aqueles que não tiveram a chance de fazer plata com suas obras, teriam de ser adiados. Se vivo continuasse, o poeta iria para o México tão logo a enfermidade desse alguma trégua. Tinha muito presente que não poderia continuar a viver em segurança, ou escrever com liberdade, no estranho Chile que Augusto Pinochet semeou duas semanas antes da primavera de 1973, aquela que nunca veio. Não seria a primeira fuga para as terras mexicanas. Quando González Videla colocou os comunistas na ilegalidade em 1948, depois de se eleger com o apoio deles, Neruda – então senador – se viu obrigado a passar um ano vivendo clandestino em Santiago. Até o dia em que partiu ao sul e cruzou os Andes a cavalo por uma rota de contrabandistas para se salvar. Da Argentina viajou ao México. E foi no México que editou o Canto Geral, a obra-prima de sua crítica política.

Eu costumava ser um péssimo leitor de Neruda. Com certo ranço juvenil, entendia que a poesia precisava conversar comigo, precisava me remeter a algo a qualquer momento, e em geral só aceitava as conversas que falavam do coração. Mario Benedetti falava comigo. Luis Cernuda falava comigo. Até Alfonsina Storni, depressiva que era, chegou a falar comigo. Mas Neruda não. E não adiantou listar cem sonetos, mais vinte poemas de amor e uma canção desesperada, que o diálogo não aconteceu. Demorei a compreender que a genialidade poderia se revelar de outras formas, e que don Pablo nos falava a todos por outros meios, que também poderíamos compreender sempre. Logo após o golpe de 1973 no Chile, começou a circular entre os exilados em Buenos Aires um livreto de publicação caseira, cheirando a álcool de mimeógrafo, que trazia uma série de versos supostamente escritos por Neruda em seu leito de morte. Versos tão perfeitos, tão profundos, tão correspondentes ao momento, que precisavam ser contemporâneos.

Não eram. Os conhecedores de sua obra não tardaram a avisar os demais que os “inéditos” se tratavam de fragmentos do Canto Geral, publicado um quarto de século mais cedo. É González Videla, e não Pinochet, o traidor mencionado nos poemas da obra. É a repressão aos protestos da Praça Bulnes, poucos meses antes da vitória eleitoral de Videla, o episódio que salpicou a pátria de sangue e fez o traidor ascender sobre o crime. O Partido Comunista de Neruda era aliado do Partido Radical que elegeu o presidente em fins de 1946. O próprio poeta comandou a divulgação da campanha. Mas, pressionado pela crise econômica do pós-Guerra e pelo novo conflito ideológico que marcaria as décadas seguintes, o mandatário se viu obrigado a ceder aos Estados Unidos e jogar o PC na ilegalidade. A medida se chamou Lei de Defesa Permanente da Democracia e, tão coerente que era com o nome, expurgava de maneira compulsória todos os políticos eleitos democraticamente pela sigla comunista.

Como neste caso nome não era destino, a lei que não defendia a democracia tampouco se mostrou permanente, e o Partido Comunista retornou ao jogo político dez anos mais tarde, em 1958. Os correligionários de Neruda estariam entre os apoiadores mais importantes – e menos extremistas – na coligação que elegeu Salvador Allende, em 1970. Nome mais conhecido da esquerda política chilena de então, o senador Allende havia perdido três eleições presidenciais antes de chegar ao Palácio de La Moneda. Ele já parecia um daqueles folclóricos candidatos que tentam sempre, passam perto algumas vezes, mas jamais vencem. Alguns tinham dúvidas se a fórmula não estaria viciada, e dentro do Partido Socialista ninguém conseguia apontar um nome alternativo, mas já havia resistências a uma nova empreitada: Allende superou as prévias do PS com doze votos a favor e treze abstenções. Ele mesmo brincava: “meu epitáfio vai dizer: ‘aqui jaz Salvador Allende, futuro Presidente do Chile”.

O contexto que permitiu sua vitória – um cenário político dividido entre três frentes, cada qual sem maioria absoluta – seria o mesmo que levaria à sua derrubada, carente de apoios para superar as crises reais ou forjadas que minaram a estabilidade do país. A chegada dos generais ao poder devolveu comunistas à ilegalidade e acrescentou os socialistas na lista negra, com seus principais militantes tendo os nomes lidos no rádio a cada hora, sob a exigência de que se entregassem às autoridades mais próximas. Muitos dos que atenderam inocentemente ao chamado estão desaparecidos até hoje. Em breve, não apenas a esquerda, mas toda a política chilena se tornaria ilegal, com o fechamento do Congresso por dezesseis anos e a proibição dos partidos de qualquer matiz ideológico. Não que isso tenha sido um problema para alguns deles, já que muitos civis que flertavam com as siglas conservadoras foram incorporados a cargos de governo.

El Mercurio 24 setembro 1973

Pablo Neruda já estava debilitado na época do golpe. O projeto de transformar o aniversário de 70 anos – que ocorreria em 12 de julho de 1974 – em uma festa nacional de reconciliação parecia perigar. Embora seu câncer, na próstata, fosse de evolução lenta, a idade e a falta de cuidados agravaram a situação nos meses finais da vida. As constantes greves de transportadores e de médicos contra o governo Allende dificultaram seu acesso ao tratamento, mais ainda estando isolado na casa de Isla Negra, onde escrevera parte de seus versos apaixonados. A mesma casa de onde foi levado às pressas para o hospital, em Santiago, para falecer na noite de 23 de setembro. Nos portões de madeira do lado de fora, pelos anos seguintes em que a residência permaneceu fechada e vigiada por militares, casais de namorados do mundo inteiro puxaram canivetes para desenhar corações com iniciais, ou entalhar mensagens mais desafiadoras:O amor nunca morre, generais. Um minuto de escuridão não nos deixará cegos.

Mas não foi em Isla Negra, onde desejava ser sepultado, que Neruda encontrou o primeiro repouso. E nem foi lá que se deu seu velório: a despedida teve início em sua residência de Santiago, La Chascona, como forma de denunciar as atrocidades do regime recém-iniciado. A casa estava semidestruída. Apesar das alegações do governo, estava nítido que a invasão não fora obra de delinquentes comuns. Mais além da improbabilidade de um saqueio numa cidade em estado de sítio – quando um simples furto poderia levar à execução no ato –, haviam desaparecido livros “suspeitos” dos armários do poeta, parte dos quais ainda estavam aos restos pelo chão, entre as cinzas de pequenas fogueiras. A política de Estado quanto à cultura estava muito evidente na capa do jornal El Mercurioque saiu no dia 24, data em que o velório acontecia: ao lado de uma nota curtíssima e marginal para a morte de um personagem tão relevante, aparecia a gigantesca fotografia de soldados queimando livros e discos “subversivos” nas ruas de Santiago.

Para Neruda, não houve México nem exílio forçado, porque as únicas flores vistas na primavera de 1973 foram aquelas que rodeavam os muitos cortejos fúnebres. Inclusive o seu. A primeira coroa veio da Embaixada da Suécia, onde havia recebido o Nobel de Literatura dois anos mais cedo. O séquito saiu de La Chascona até o Cemitério Geral aglomerando uma multidão. Neruda ficaria ali até o fim da ditadura, num túmulo emprestado, até ser transferido para Isla Negra em 1992. Os mistérios em torno de sua morte, porém, nunca se resolveram por completo. Sempre pareceu coincidência demais o sumiço repentino de mais um ícone que seria importante na oposição à ditadura. Ao mesmo tempo, tratou-se da morte mais limpa entre os notáveis falecidos por aqueles dias. Neruda estava num hospital. Havia ido ao hospital, de fato, porque lá teria mais segurança. Onde estariam as longas mãos de Pinochet nisso tudo? A exumação do corpo na última semana pode nos dar as respostas que há quarenta anos não temos.

E pode não dar, devido à dificuldade de rastrear indícios de envenenamento tanto tempo depois. Espera-se, porém, que as dúvidas se dissipem mais facilmente do que os versos. Naquele sombrio 24 de setembro, eles, os versos, ganharam um novo significado outra vez. A despedida de Pablo Neruda seria a primeira e, por muitos anos, última, mostra pública de resistência ao regime. Cantou-se A Internacional, entoou-se o hino da campanha de Allende e houve gritos de que o presidente seguia presente. Não eram dias muito afeitos à poesia, mas mesmo ela apareceu. No livro sobre o episódio, Funeral Vigilado, de Sergio Villegas, o escritor Luis Alberto Mansilla recordou:

Era o livro España en el corazón. O presidente do Sindicato da Quimantú [editora estatizada por Allende] pegou o livro e começou a ler com voz forte. Pouco depois apareceram outros declamadores. Havia muita gente que sabia esses poemas de memória. Recitava-se coisas distintas, mas se voltava de preferência aos mesmos:

Generais traidores.

Mirai minha casa rota, mirai Espanha morta.

Dizia-se Espanha e se sentia dolorosamente o Chile no coração.

Maurício Brum

(os versos que abrem o texto são do poema “Os inimigos”, incluído no Canto Geral)

POR IMPEDIMENTO 

11 horas atrás

DITADURA E A EXPERIÊNCIA ARGENTINA NA COPA DE 1978

por Betho Flávio
 

Ditadura e peste emocional: a experiência argentina na Copa do Mundo de 1978

Por Raúl Enrique Rojo (*)

Este texto foi preparado para o seminário “Reflexões sobre o desenvolvimento de Porto Alegre”, realizado na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em março passado, organizado pela Comissão de Economia, Finanças, Orçamento e MERCOSUL (CEFOR) da Câmara Municipal de Porto Alegre.

Primeiramente contextualizemos a disputa da Copa Mundial de Futebol na Argentina, em 1978. O país estava sumido, havia dois anos, na mais escura e sanguinária ditadura de sua história. O regime militar imperante, com certeza, não tinha atraído a disputa para a margem direita do Prata (já que, como sabem os brasileiros, estas decisões são tomadas com bastante antecedência 1), mas decidiu apropriar-se dela e usá-la como álibi propagandístico para consumo externo. Decidiu usar também como uma cortina de fumaça que não só escamotearia a pobreza das periferias e a dissensão das maiorias, mas, sobretudo, ofuscaria a usurpação do poder que estava em sua origem e o contemporâneo plano de sequestro, tortura e morte de seus oponentes e até dos que tinham tido a desgraça de despertar a cobiça de algum uniformizado ou de estar no lugar indébito no momento inapropriado, ou presenciado o que deveriam ter ignorado.

Houve, porém, mais. Estas realidades deram evidentemente outra importância ao Campeonato Mundial, a sua organização e a participação nele da seleção nacional. Em torno desta e da obtenção da Copa foi se criando uma sorte de mística nacionalista e de epopeia triunfalista que deveria galvanizar as multidões e enfileirá-las por trás dos governantes fardados, apagando toda divergência de opiniões e de interesses.

Mario Kempes comemora gol sobre a Holanda na final.

Já na primeira reunião da Junta Militar, celebrada no dia do golpe de Estado (24 de março de 1976) parece que seus membros falaram de futebol. O almirante Emilio Massera comunicou então ao general Jorge Rafael Videla que Argentina tinha que confirmar sua decisão de organizar a Copa de 1978 e que esta não custaria mais de setenta milhões de dólares. Videla teria afirmado que ainda que custasse cem milhões não haveria problemas2. Finalmente “vinte e cinco milhões de argentinos”, como dizia a assinatura musical associada ao evento3, acabaram pagando setecentos milhões de dólares por ela4. E isso sem contar o meio milhão de dólares gasto pelo governo militar com a empresa norte-americana de comunicação e relações públicas Burson-Marsteler, recomendada por Henry Kissinger, para combater uma campanha contra a realização da Copa na Argentina que começava a ganhar espaço na mídia5. Com efeito, pouco depois do golpe de 1976, em alguns países europeus se tornou evidente que a Argentina tinha se convertido em um grande campo de concentração. Por isso João Havelange foi pressionado para levar a disputa da Copa para o Brasil. Pablo Llonto, jornalista e advogado defensor dos direitos humanos, afirma, na sua detalhada obra sobre o Mundial de 1978, que o regime militar argentino ficou com a organização do torneio em troca (mediada por Havelange) da liberação de Paulo Antônio Paranaguá, filho de um diplomata brasileiro, detido pelo exército argentino em 1977 junto com sua noiva6. Havelange se tornaria um firme apoiador do regime argentino e como tal foi condecorado por Videla durante a cerimônia de inauguração7.

A realização e a conquista da Copa de 1978 foi o primeiro de três objetivos que perseguiram os militares argentinos em suas ânsias de se perpetuar no poder. O segundo era uma guerra relâmpago contra o Chile pelas ilhas do Canal de Beagle, interrompida no final desse mesmo ano, graças a mediação do Vaticano. Quanto ao terceiro, o enfrentamento com a Grã Bretanha pelas Ilhas Malvinas, foi o atestado de óbito do regime e atestou o retrocesso histórico das Forças Armadas no país. A Copa de 1978, portanto, satisfez as aspirações dos militares e foi a detonadora das temerárias aventuras posteriores.

Jorge Videla

O Campeonato Mundial de Futebol foi utilizado pelo regime para amortecer o impacto de suas políticas e desviar a atenção em torno do terror. Os gritos de gol abafaram os gritos de dor dos torturados. Os cânticos nas tribunas silenciaram os alaridos dos desaparecidos. A Copa foi um instrumento do qual se valeu a ditadura para afastar a população da angustiante verdade.

É certo que influiu naquele sucesso político do esporte a capacidade ainda intacta dos militares argentinos para manipular os sentimentos coletivos e a cumplicidade internacional. Mas é importante observar hoje que tais objetivos e estratégias, próprios de um regime ditatorial e perverso do passado, continuam à espreita dos governos democráticos de nossos dias. Muitos podem ver-se tentados a aproveitar competências de grande repercussão nacional e mundial, como a Copa da FIFA, para afogar na euforia unanimista das palavras de ordem as dificuldades políticas ou econômicas. O certo é que, na Argentina de 1978, a idolatria do futebol desempenhou o papel de umamiragem mistificadora8 que pretendeu dissimular os segredos vergonhosos de uma empresa criminal. A função da exaltação coletiva das massas populares pela Copa e a seleção nacional de futebol consistiu em uma sorte de evasão onírica, de diversionismo social ou do que Eric Fromm tem chamado de “válvula de escape” que permitiu por então a reabsorção dos indivíduos na massa anônima, no “conformismo dos autômatos”, para falar uma vez mais como Fromm9.

Se algum valor exemplar pode ter a Copa de 1978 na Argentina, e particularmente na sua capital, é o de servir de anátema, de enérgica reprovação a um modelo que não deve ser imitado. Lembremos, apenas, alguns “momentos fortes” daquela Copa: o mais que sugestivo triunfo da equipe argentina frente à do Peru (a quem precisava ganhar por quatro gols para ir à final e acabou vencendo por 6 a 0)10; a bomba que estourou na casa (nada menos que) do Secretario da Fazenda da Nação, Juan Alemann ( que por razões econômicas, tinha se oposto a organização da Copa) quando a seleção argentina fez o quarto gol na partida contra os peruanos; e, por fim, a tristemente célebre manifestação de populares na Praça de Maio, sob os balcões da Casa Rosada, após a conquista do Campeonato, aplaudindo o genocida Videla como o factótum do triunfo.

Argentina vence suspeitosamente a seleção peruana por seis a zero.

O mais dramaticamente hilário é que esta empresa de descerebração (se teve marcados resultados internos) rendeu muito pouco em nível internacional ao regime militar. Quase todos os jornalistas credenciados para a cobertura da Copa, fizeram eco da ditadura imperante e aproveitaram a vinda ao país para dar voz aos dissidentes. Recordo que na França o programa diário que transmitia de Buenos Aires as notícias da Copa, tinha a guisa de apresentação gráfica um gol do qual pendurava uma rede de arames farpados. Já nas arquibancadas do “Monumental de Nuñez”, os turistas perguntavam pela Escola de Mecânica da Armada (Marinha), o maior e mais conhecido campo de concentração do regime, que se achava a menos de dez quadras do estádio e era visível desde alguns pontos dele. Lembro também de ter escutado de um cartola da Associação do Futebol Argentino, no seu regresso de uma viagem internacional, que: “nem com três mundiais de futebol limparíamos a barra!”.

Do ponto de vista urbanístico, a Copa de 1978 poderia ser o reverso dos Jogos Olímpicos de 1992 em Barcelona, quando um grande acontecimento internacional completou a renovação da cidade. Para BuenosAires, sede principal do torneio, o acontecimento serviu para realizar uma série de operações urbanísticas de grande impacto (e não só vinculadas à renovação da infraestrutura esportiva), ainda que com intenções muito diversas às da capital catalã, pois em todas estas operações apareceria a concepção modernizadora autoritária e tecnocrática que inspirava o regime, e seu desprezo pelo dissenso e a cidade histórica.

A ditadura decidiu utilizar para a ocasião dois dos estádios existentes na cidade, escolhidos por suas respectivas localizações: o chamado “Monumental”, do Clube Atlético River Plate, no rico corredor do norte portenho, e o “Fortim”, do Clube Atlético Velez Sarsfield, no bairro de Liniers, no Oeste de Buenos Aires, nas proximidades de uma projetada autoestrada e da avenida perimetral General Paz.Os outros grandes estádios de Buenos Aires, todos eles situados na zona Sul, assim como os do vizinho município de Avellaneda, foram descartados.Quanto aos construídos fora da Capital (Mar del Plata, Córdoba e Mendoza), não têm passado de caríssimos elefantes brancos que só lotam uma ou duas vezes por ano e se deterioram à vista e paciência de todos. No que tange aos de Buenos Aires, ainda que se justificasse que ambos os estádios tinham sido escolhidos pela possibilidade de aproveitar suas instalações, eles foram renovados integramente, dotados de uma tribuna completa (no caso do “Monumental”) e de amplos setores para espectadores sentados (no “Fortim”). Com acessos modernizados, ganharam painéis eletrônicos, colunas, passarelas e iluminação com a tecnologia mais avançada. Tudo com recursos públicos e apenas valores simbólicos por parte dos clubes11.

Estádio Monumental de Nuñez na final da copa de 78.

A renovação dos estádios trouxe também operações sobre o entorno urbano destinadas a eliminar todo sinal visível de algo que pudesse constituir prejuízo na imagem do país. Para isto, implementou-se um plano de erradicação das vilas situadas em zonas próximas aos estádios onde se disputariam as partidas ou em zonas de interesse turístico. A primeira grande experiência de erradicação se produz entre fins de 1977 e começo de 1978 na vila do Baixo Belgrano, que ocupava uns onze quarteirões próximos a zonas de jardins e ao estádio Monumental. Depois, a vila de Colegiales, situada em um extenso e desativado pátio de manobras das estradas de ferro da linha Mitre. Neste caso, a decisão de despejo compulsório também incluiu um clube que possuía havia mais de vinte anos, a título precário, sua sede na vizinhança da vila. Nestas terras o governo municipal se limitou a traçar novas ruas, já que os quarteirões ficaram desocupados por vários anos. Um caso distinto foi o da “Vila 40”, que ocupava um imenso prédio no centro da Capital, onde tinham vivido até então 380 locatários, amparados em outros tempos pelo Ministério de Bem-estar Social (extinto pelo regime militar). Uma vez desalojados os ocupantes, as autoridades construíram no lugar uma nova praça pública denominada Monsenhor D’Andrea. Do plano de erradicação restam ainda algumas cicatrizes urbanas como o complexo de monoblocos conhecido (não por acaso) como “Forte Apache”, em Ciudadela, na periferia portenha. Outras “soluções arquitetônicas” foram, todavia, mais tópicas, como o muro construído para esconder dos olhos dos turistas estrangeiros a “Vila 15”, no bairro dos Matadouros, que recebeu por isso o nome popular de “Cidade Oculta”.

Prédios da ATC

Uma obra de grande impacto e preço exorbitante foi o edifício da ATC, Argentina Televisora Color, que ocupou um vasto espaço nos jardins do nobre bairro de Palermo Chico. José López Rega, o “super-ministro” da terceira presidência de Perón, tinha previsto realizar ali um “Altar da Pátria” de reminiscências franquistas. Depois do golpe de Estado de 1976 foi fácil para os militares mudar o destino do lugar para localizar ali a nova tecnologia necessária para a transmissão da Copa ao exterior. Por cima de uma suave lomba vizinha, se achava (por então inconclusa) a Biblioteca Nacional, projetada quinze anos antes por Clorindo Testa, estabelecendo um contraponto interessante no aspecto arquitetônico, mas inquietante quanto às prioridades culturais do regime. Porém, o “detalhe” desconsiderado pelos novos donos do poder foi que o prédio ficaria na rota dos aviões do vizinho aeroporto da cidade, circunstancia que obrigou a arrojadas e caríssimas soluções construtivas que encareceram em mais seis vezes o orçamento original12.

Quanto a hotéis e aeroportos, ainda que a propaganda oficial falasse de contingentes extraordinários de turistas que chegariam para a Copa, a distância do país dos grandes centros de origem do turismo de massa e o conhecimento das atrocidades do regime fizeram que só alguns torcedores viajassem à Argentina em junho de 1978. A maioria era de brasileiros que aproveitaram a proximidade e que sonhavam com a reprise pela seleção canarinho de suas atuações em Suécia, Chile e México. Construíram-se, assim, poucos hotéis em Buenos Aires, mas destacou-se por sua concepção e tamanho o “Bauen” (hoje autogerido pelos empregados depois da falência dos proprietários). Também se realizaram obras no Aeroporto de Ezeiza, que o deixaram tão pouco acolhedor como era antes para os passageiros, porque, segundo o Almirante Carlos Lacoste, a obra tinha concepção “moderna”, oposta à “velha pieguice argentina” (sic) segundo a qual toda a família deve acompanhar um viajante ao aeroporto.

Carlos Lacoste.

Afilhado político de Massera, Lacoste alcançou com estes méritos a presidência do Ente Autárquico Mundial 78 (EAM 78) encarregado da gestão da Copa e, depois desta, alguns ministérios e até a presidência provisional da Argentina durante algumas semanas, no interregno entre os generais Viola e Galtieri. Só em 1984 renunciou a sua reeleição como vice-presidente da FIFA, cargo que o conduziu a sua excelente relação com o inamovível João Havelange. As contas do EAM 78 sob sua gestão nunca foram esclarecidas, sendo interessante saber que Lacoste incrementou seu patrimônio em quatrocentos por cento, recebendo apenas uma “repreensão ética” do juiz Miguel Pons por ter especulado no mercado de capitais enquanto era funcionário público. Lacoste é considerado suspeito de estar por trás da bomba a Juan Alemann e da morte em um atentado não esclarecido do general Omar Actis, o primeiro presidente da EAM 78, que queria fazer um Mundial mais austero. Ele foi assassinado em 21 de agosto de 1976, dois dias antes de uma conferência de imprensa na qual iria apresentar seu projeto. Com o assassinato de Actis, Lacoste organizou a Copa a seu gosto e de seus sócios fardados e a paisana13. E quando acabou o torneio, a Argentina tinha duplicado sua dívida com o FMI…

Se não é, pois, por íntima convicção esportiva, a estrita conveniência moral e material recomenda denunciar a tentação de instrumentalizar um evento como a Copa do Mundo de Futebol. Não acobertemos sob uma fraseologia ufanista sempre disponível a cegueira, a complacência e a subserviência de tantos “amantes do futebol”, dispostos a unir-se no mesmo “oba-oba” populista e a tirar proveito de fundos generosos e gastos sem controle. Por acréscimo, a experiência argentina nos ensina que por trás deste miserável decorado folclórico podem se esconder outros objetivos, invisíveis ou opacos, que concernem a essa massificação regressiva das emoções que Wilhelm Reich denominou “peste emocional”14. Se para Reich esta noção aparece vinculada a um certo biologicismo, não é menos certo o que dizem dois autores franceses, Jean-Marie Brohm e Marc Perelman (em seu interessante ensaio sobre “a barbárie nos estádios”). Este conceito permite compreender o profundo parentesco de numerosos fenômenos sociais frequentemente desagregados e de fazer associações sumamente instrutivas15. Qualificando como uma “peste emocional” o resultado da instrumentalização do futebol, Brohm e Perelman têm insistido sobre os efeitos psicológicos de massa que aquela pode trazer. As “paixões esportivas” desatadas desta forma não são, com efeito, anódinas emoções coletivas (identitárias ou igualitárias), mas a expressão do que pode chegar a ser uma “uma patologia social pandêmica”.A manipulação dos certames e sua desvirtuação para servir a fins extra-esportivos, podem favorecer a insidiosa manifestação de uma forma de alienação social que poderíamos qualificar, conforme Eric Fromm, como uma “paixão destrutiva”16.

Conclusões

Se a sociologia acadêmica de nossos dias tem tendido a esquecer a importância dos fenômenos de multidão, a psicologia social, a Escola de Frankfurt e outras correntes teóricas têm insistido em um aspecto contrário: o papel da psicologia de massa, em particular sobre o que Theodor Adorno chamou de “a monstruosa mecânica da diversão”17 que, se supõe, deveria lutar contra o aborrecimento e o vazio psicológico da multidão solitária de hoje. Como demonstra o agir dos ditadores argentinos de 1978, o futebol é precisamente um recurso a disposição dos “condutores” que pretendem direcionar as “multidões manifestantes” e as “multidões atuantes”, para retomar a terminologia de Gabriel Tarde18. São estas multidões as que, quando inebriadas pelo futebol, podem conduzir-se como matilhas guerreiras, matilhas de caça e de linchamento, e às vezes mesmo como multidões criminais cujo comportamento fora das “arenas” constituem espetáculos ordinários periodicamente noticiados pela mídia. O encerramento em espaços fechados (arenas, estádios, autódromos, ginásios), produz isso que o premio Nobel de literatura Elias Canetti denomina também “massa em anel” e que, com diversas descargas emocionais se converte (de massa inerte, passiva e expectante que era) em massa rítmica, excitada e barulhenta. “O clamor que em outros tempos se acostumava produzir nas execuções públicas quando o carrasco brandia a cabeça do criminoso, é o clamor que se escuta hoje nas manifestações esportivas, tendo-se convertido na voz da massa”, dirá Canetti19. Esses clamores (rugidos, gritos, brados, vaias e cantos interpretados ao som de cornetas e “vuvuzelas” diversas) são outras tantas descargas de massa que se opõem a outras descargas de massa: massa contra massa, torcida organizada contra torcida organizada, multidões vitoriosas contra multidões vencidas, hordas desencadeadas enfim. Estas manifestações não têm nada de espontâneo, nem são a consequência de inofensivas brincadeiras, mas as preliminares da “peste emocional”, ela mesma resultado de uma alteração profunda da estrutura do caráter das massas a raiz de sua manipulação política: os indivíduos afetados pela peste emocional se distinguem, com efeito, como lembra Reich20, “por uma atividade mais ou menos destruidora e temerária”. Seu pensamento aparece perturbado por conceitos irracionais e é determinado essencialmente por emoções nas quais a razão não intervém, preparando-os acriticamente para outras cruzadas chauvinistas. Não esqueçamos que entre a Copa de 1978 e a malfadada aventura guerreira de Malvinas passaram-se apenas quatro anos…

(*) Raúl Enrique Rojo é doutor em Sociologia, professor da UFRGS e argentino

1 Cabe destacar que a designação da Argentina como sede da Copa de 1978 foi feita em um Congresso da FIFA celebrado em Londres em 1966, quando também se decidiu que os torneios de 1974 e 1982 se realizariam na Alemanha e Espanha, respectivamente. Em tudo caso, naquele Congresso ninguém podia prever o que sucederia doze anos depois.

2 Eduardo GALEANO, El fútbol a sol y a sombra, Buenos Aires, Siglo XXI, 2006.

3 Composta por Martin Darré, “Veinticinco millones de argentinos” foi muito mais difundida (e popular) que a própria marcha oficial da Copa, de autoria de Ennio Morricone. (o compositor da música de vários espaguete-westerns de Sergio Leone). Talvez porque mais conforme com o pensamento do governo.

4 Quatro anos depois, na Copa disputada na Espanha, se gastou menos da quarta parte.

5 Eduardo VAN DER KOOY, “Un grito en la oscuridad”, in:El libro de oro del Mundial (1930-1998), Buenos Aires, Clarín, 1998.

6 O diplomata não era outro que Marcos Henrique Paranaguá, sobrinho trineto do Marquês de Paranaguá, ministro da Guerra brasileiro durante o conflito da Tríplice Aliança.

7 Pablo LLONTO, La vergüenza de todos. El dedo en la llaga del Mundial 78, Buenos Aires, Ediciones Madres de Plaza de Mayo, 2005.

8 O termo pertence a Jean-Marie BROHM e Marc PERELMAN, Le football, une peste emotionelle. La barbarie des stades, Paris, Gallimard, 2006, p. 15.

9 Eric FROMM. La peur de la liberté, Paris, Buchet-Castel, 1963, p. 147-148.

10 Conf. David A. YALLOP, How they stole the game, Londres, Constable, 2011.

11 Até há pouco tempo os ex integrantes da Junta Militar continuavam sendo sócios honorários de River Plate como expressão de agradecimento pelos favores concedidos à dita instituição esportiva.

12 Os estúdios ficam flutuando e recobertos em uma cápsula de ar, evitando os vazamentos de sons provenientes dos aviões que sobrevoam constantemente.

13Conf. Carlos del FRADE, Ciudad goleada. Central y Ñuls. Fútbol, lavado de dinero y poder, Rosario, Editorial Último Recurso, 2005, p. 24.

14 Wilhelm REICH, L’Analyse caractérielle, Paris, Petite Bibliothèque Payot, 1976, p. 437.

15Por exemplo entre as frustrações e a reação política, entre o autoritarismo e as rigidezes caracteriais, entre o doutrinamento e a irracionalidade política ou entre as neuroses caracteriais e os preconceitos racistas Conf. Jean-Marie BROHM e Marc PERELMAN, op. cit., p. 36.

16 Eric FROMM, La passion de détruire. Anatomie dela destructivité humaine. Paris, Robert Laffont, 1975, p. 50-51,

17 Theodor W. ADORNO, Minima moralia. Réflexions sur la vie mutilée, Paris, Payot, 2001, p. 150.

18 Gabriel TARDE, L’opinion et la foule, Paris, PUF, 1989, p. 58-59.

19 Elias CANETTI, Masse et puissance. Paris, Gallimard, 1966, p. 34.

20Wilhelm REICH, L’Analyse caracterielle, op. cit, p. 437.

DO SUL 21

12 horas atrás

A lembrança teimosa

por Betho Flávio
 

torneira em pb

Sólo desilusión nos queda a esta altura de la vida,

el recuerdo obsesivo del continuo sangrar de la utopía,

del hombre en cenizas que agoniza.

Tan sólo desilusión, escombros, ruina.

Tan sólo soledad y una mentira.

Antonio Pérez Morte

Resta-nos só desilusão a esta altura da vida,

a lembrança teimosa do contínuo sangrar da utopia,

do homem em cinzas agonizando.

Apenas desilusão, escombros, ruína.

Apenas solidão e uma mentira.

Antonio Pérez Morte

(Trad. A.M.)

[Escrito en el viento

14 horas atrás

Depois dos Tupinambás, Armínio agora enfrenta o Ibama

por Betho Flávio
 

ÍNDIO

Dono do hotel de luxo Fazenda da Lagoa, em Una, na Bahia, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga enfrenta problemas em série; dias atrás, índios tupinambás ocuparam o hotel, alegando ser donos da área; além disso, a licença ambiental do empreendimento foi suspensa pelo Ibama; Armínio terá, agora, que resolver o problema com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira

 

247 – O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga deve estar com saudades do tempo em que pilotava os fundos de George Soros, em Nova York. Um de seus empreendimentos no Brasil, o hotel de luxo Fazenda da Lagoa, em Una, na Bahia, enfrenta problemas com a Funai e com o Ibama.

Dias atrás, o hotel de luxo foi invadido por índios tupinambás, que reivindicam a posse da área. Além disso, ele está com a licença ambiental suspensa desde julho do ano passado por não ter, segundo o Ibama, replantado a vegetação nativa de forma adequada.

Nesta semana, Armínio tentará resolver o problema em audiência com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

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Armínio foi um dos cabeças das privatizações da era FHC, se ele soubesse o que sabe agora com certeza teria privatizado a tribo Tupinambás.

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