O tomate e a especulação financeira

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Editorial do sítio Vermelho:

A inflação de março deste ano, que chegou a 6,59% em 12 meses, acirrou o clamor especulativo pela alta nos juros. Clamor que exagera o problema representado pela alta nos preços, que é real e concreto, e tenta colocar uma faca na garganta das autoridades monetárias exigindo uma política econômica restritiva e conservadora, bem ao gosto dos dogmas neoliberais ainda presentes.

Neste debate a disputa política, que a aparência técnica dos argumentos apresentados esconde, revela sua natureza de embate pela apropriação da riqueza nacional.

O argumento conservador repete a mesma ladainha de sempre. Com a diferença de que, agora, não se trata do mantra que no passado era usado para legitimar políticas econômicas contracionistas e antidesenvolvimentistas. A pretexto de combater a alta dos preços, aquelas políticas favoreciam os ganhos da especulação financeira, alavancavam a concentração de renda numa ponta e o arrocho salarial e a restrição ao consumo na outra, jogando o custo do combate à inflação sobre os ombros dos trabalhadores e do povo. 

Nos últimos anos, com os avanços obtidos nos governos Lula e Dilma, os argumentos conservadores são usados agora para combater, e tentar reverter, as políticas de valorização do trabalho e do salário e distribuição de renda.

O diagnóstico feito por uma analista da consultoria Tendências – que tem entre seus sócios dois pesos pesados do conservadorismo e do neoliberalismo: Mailson da Nóbrega e Gustavo Loyola – é claro nesse sentido. Ela coloca entre as causas da inflação a melhoria no mercado de trabalho e no emprego, a recuperação dos salários e o aumento da renda dos trabalhadores, que fortalecem o consumo popular. Sua conclusão é óbvia: já passou da hora do Banco Central subir a taxa de juros, diz aquela analista.

Este é um exemplo didático daquilo que foi indicado pelo professor de economia Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista ao jornal Correio Braziliense: a “obsessão de analistas e da imprensa em cobrar uma alta de juros virou uma doença, um samba de nota só, uma visão de prazo curtíssimo”.

Outro aspecto que move o coro dos especuladores que exigem a alta dos juros – coro que usa a inflação como pretexto para isso – está na notícia, divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo, segundo a qual apenas duas opções de risco de investimento financeiro tiveram ganhos acima da inflação nos primeiros meses deste ano. Todas as demais modalidades – entre elas investimentos de curto prazo, renda fixa, CDB, poupança e ações – tiveram rendimentos inferiores à inflação. 

Entre os motivos para essa situação analistas alinham a inflação e a taxa básica de juros mantida pelo Banco Central no nível de 7,25% ao ano.

O objetivo dos especuladores e seus porta-vozes é o “samba de uma nota só” apontado por Belluzzo: forçar o governo a abandonar o esforço pela queda nos juros, que afronta os interesses da especulação financeira. E voltar a uma politica de arrocho salarial, redução dos gastos públicos e contenção do consumo. 

Convém frisar: não se trata de técnica ou de ciência econômica, mas de disputa política pela apropriação de fatias cada vez maiores da riqueza nacional. Aos especuladores não importa o crescimento da economia ou o bem estar dos brasileiros, mas apenas a satisfação de velhos privilégios que, pela primeira vez em décadas são contrariados pela política econômica do governo federal. Os resultados dessa política podem ser vistos no anunciado fracasso de aplicações financeiras que sempre foram o dreno que engordava as contas bancárias da especulação.

Afinal, com a dívida pública interna nas alturas dos 2,8 trilhões de reais em dezembro de 2012 e a dívida externa batendo em 441,8 bilhões de dólares na mesma data, qualquer pequena variação na taxa de juros significa montanhas de dinheiro transferidas para os bolsos dos especuladores. 

Um aumento de 0,5% (meio por cento) na taxa de juros pode gerar uma transferência de 14 bilhões de reais mais 2,2 bilhões de dólares aos especuladores (cada 0,1% de variação na taxa de juros significa 2,8 bilhões de reais e 441,8 milhões de dólares em benefício da ganância financeira). Esta é a questão real e concreta que o debate sobre o preço do tomate esconde.

14 horas atrás

Venezuela prende mercenários

por noreply@blogger.com (Miro)
 
Jorge Arreaza/ http://www.lavozdelsandinismo.com

Por Leonardo Severo, do ComunicaSul, no blog Escrevinhador:

O Comando Regional (Core) 4 da Guarda Nacional da Venezuela, localizado na região ocidental do Estado de Lara, capturou na última quinta-feira (11 de abril), paramilitares colombianos com armas e explosivos. A captura ocorre às vésperas das eleições presidenciais que ocorrerão no próximo domingo (14).

Além dos terroristas colombianos, foram presos mercenários salvadorenhos, ambos com estreitos e reconhecidos vínculos com a política de desestabilização promovida pela CIA contra a revolução bolivariana. Também foram detidas cerca de 30 pessoas acusadas de sabotar as redes de transmissão de energia.

Setores do governo temem que a oposição – se for derrotada mais uma vez – abandone o caminho institucional, partindo para a desestabilização armada – com apoio de fora do país. Seria algo parecido com o que já ocorreu na Líbia e acontece agora na Síria. Só que bem na fronteira com o Brasil. 

“Temos capturado vários militares colombianos com uniformes da Venezuela. Estamos desmontando um plano de violência da direita”, denunciou o presidente em exercício e candidato chavista, Nicolás Maduro. Conforme o presidente, após uma investigação exaustiva, foram vasculhadas várias casas e encontrados explosivos e armas.

Parte dos armamentos foi encontrada após inspeção no galpão da empresa Cargas da Venezuela, responsável por trazer ao país mercadoria procedente dos Estados Unidos. Somente neste galpão foram apreendidos 48 carregadores para pistolas Glock com capacidade para 32 cartuchos calibre 9 milímetros, um carregador tipo circular, chamado Caracol (calibre 9 mm) – com capacidade para 100 cartuchos, assim como um carregador circular para fuzis.

Material de guerra

“Este material de guerra e carregadores de Glock são utilizados por bandos que se dedicam ao terrorismo. Há evidências de uma relação direta com pessoas desestabilizadoras treinadas em El Salvador”, declarou o chefe da Gore 4, Octavio Chacon.

O ministro do Interior, Néstor Reverol, informou que o governo também “detectou” o ingresso de dois grupos de mercenários “vindos de El Salvador” e que a Venezuela fechará o cerco aos criminosos.

Após denúncia do governo venezuelano, o presidente de El Salvador, Maurício Funes, acionou uma ampla “investigação policial”, já que os mercenários salvadorenhos foram financiados pela CIA para tentar matar no ano 2000 o presidente cubano Fidel Castro, assim como tiveram envolvimento em atentados com bombas em hotéis da Ilha Caribenha.

As ações afetaram seriamente a economia cubana ao comprometer essa importante fonte de renda do país. Vale lembrar que o terrorista salvadorenho Francisco Abarca – procurado pela Interpol após ter colocado uma bomba na discoteca de um hotel de Havana – foi preso em julho de 2010 na Venezuela.

Para o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, que está acompanhando o processo eleitoral venezuelano, a tentativa frustrada de apelar à violência demonstra até onde chega o ódio da reação aos avanços da revolução bolivariana: “Isso é revelador de como, na América Latina, a banda pobre da direita não mede consequências e usa todos os métodos possíveis para manter seus privilégios de classe. Basta lembrar o que fizeram em Honduras e, mais recentemente, no Paraguai, onde produziram um conflito que não houve, mas assassinatos planejados”, denunciou Stédile.

Mídia privada esconde

O fato ganhou conotação de denúncia nos jornais públicos venezuelanos, “Correio del Orinoco” e “Ciudad Caracas”, enquanto os grandes conglomerados de comunicação da direita tentaram dar uma conotação de crime comum, abrindo destaque para críticas às “provocações” da Coreia do Norte.

Como já alertava o presidente Hugo Chávez em relação à política belicista do império estadunidense, é importante continuar reforçando a capacidade de reação dos nossos países e povos. “O império não respeita os débeis. Os povos decididos a ser livres precisam estar bem armados”, sublinhou Chávez, frisando que os norte-coreanos precisam ter capacidade de reação, até para persuadirem os que já fizeram uso do seu poder atômico contra civis e para não virarem um novo Iraque ou uma nova Líbia.

* O ComunicaSul é um coletivo de jornalistas brasileiros, especializado em coberturas especiais na América Latina; gera conteúdo exclusivo para a blogosfera, furando a hegemonia da velha mídia (no Brasil, por exemplo,jornais deram pouco ou nenhum destaque à prisão dos paramilitares estrangeiros na Venezuela).

15 horas atrás

Intervozes lança livro da banda larga

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Do sítio do Coletivo Intervozes:

A democratização do acesso à Internet em redes de alta velocidade é tema de novo livro lançado pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. A obra, intitulada Caminhos para a universalização da Internet banda larga: experiências internacionais e desafios brasileiros, é o resultado de um ano de pesquisa e traz um mapeamento das principais estratégias governamentais adotadas em diversos países com o objetivo de ampliar a inclusão digital e assegurar a conexão do cidadão a esta nova fronteira da comunicação. Em São Paulo, um debate sobre o tema será realizado em conjunto com o lançamento do livro no próximo dia 15, segunda-feira, às 19h.

Como explica um dos organizadores do livro, prof. da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea da Universidade Federal da Bahia (Poscom-UFBa), Sivaldo Pereira da Silva, o projeto nasceu com o intuito de compreender as opções adotadas em outros países a fim de contribuir com o debate deste tema no Brasil. “A criação de infraestrutura e mecanismos regulatórios eficientes e democráticos são premissas para o desenvolvimento e um determinante para a liberdade de expressão na era digital”, afirma Sivaldo.

A publicação parte da premissa de que o acesso à Internet banda larga se tornou um imperativo social, cultural, econômico e um direito a ser reivindicado e garantido. Nesse sentido, o livro registra os caminhos pelos quais diversos países estão investindo tempo, planejamento e recursos, desenhando e executando suas estratégias de inserção na era digital.

Além dos dez capítulos produzidos por oito pesquisadores, a obra também apresenta um conjunto de doze entrevistas realizadas com especialistas e gestores trazendo um cardápio de opiniões sobre o tema. O livro conta com apoio do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) através de seu programa de editais para publicações.

Lançamento em SP

Na capital paulista, um debate com integrantes da sociedade civil entrevistados no livro marcará o lançamento do livro. Veridiana Alimonti do Instituto de Defesa do Consumidor, Beatriz Tibiriça do Coletivo Digital, Fĺávia Lefèvre do Proteste, e João Moura da Telcomp participarão do evento. O evento será na segunda, 15/4, às 19h, na sede do Coletivo Digital, Rua Cônego Eugênio Leite, 1117, no bairro de Pinheiros.

Sobre a Publicação

O livro impresso, com 405 páginas, pode ser adquirido por R$ 30,00 em livrarias e também através do e-mail intervozes@intervozes.org.br . Além da versão tradicional, também está disponível gratuitamente nos formatos digitais EPUB e PDF. O projeto conta ainda com um website (www.caminhosdabandalarga.org.br ) que traz os resultados da pesquisa, dados complementares, vídeos, mapas e infográficos.

Mais informações: Intervozes – (011) 3877.0824.

15 horas atrás

Gerald Thomas e a cultura do estupro

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Nádia Lapa, no blog DoLaDoDeLá:

Como a essa altura vocês já devem saber, Gerald Thomas tentou colocar as mãos por dentro do vestido da Nicole Bahls durante um evento no Rio. Era noite de lançamento de um livro dele e a Livraria da Travessa estava lotada. Repórteres, cinegrafistas, funcionários da loja, clientes.

Pelas notícias, ninguém fez nada. Nas imagens dá para ver que o colega de trabalho de Nicole no Pânico continuou a entrevista como se nada tivesse acontecendo. Enquanto isso, Thomas enfiava a mão entre as pernas de Nicole e ela tentava se desvencilhar.

Sempre rolam os xingamentos à mulher, claro. São os usuais: que ela estava pedindo, que ela estava gostando, que o trabalho dela é esse mesmo, que a roupa era justa. Vocês estão cansados de saber quais as justificativas injustificáveis para o assédio e a agressão sexual.

Mas duas coisas me chamam a atenção nesse caso. A primeira é ninguém ter feito nada. Acharem normal. Acharem aceitável. Se a agressão tivesse sido com uma atriz considerada recatada, as pessoas reagiriam da mesma forma?

Duvido. Indignar-se-iam, aposto. Muita gente nas redes sociais se posicionou e apontou o comportamento de Gerald Thomas como agressão, mas a imprensa tratou como algo que “Nicole não esperava”, mostrando o assunto como mero constrangimento.

Se a mulher geralmente já é tratada como “coisa”, como um objeto para deleite masculino, quando ela tem seu corpo e sua sexualidade transformada em um produto vendável, tudo só piora. Nicole faz sucesso porque tem um corpão, segundo os padrões de beleza atuais. Ela aparece de biquini na televisão, tira fotos “sensuais”, usa roupas curtas e provocantes. Como ela “provocou” (apenas sendo quem ela é), ela merece ser apalpada por um estranho.

Porém, não existe isso de “provocar”. Gerald Thomas não é um animal irracional. Ele – e eu e você – deve esperar o consentimento do outro para poder tocar em seu corpo. Nicole Bahls claramente disse “não”, ao tentar tirar as mãos de Thomas. Parece que não é suficiente, como não é suficiente quando viramos o rosto para evitar o beijo do desconhecido na balada.

Criou-se a ideia de que o homem deve insistir e insistir, enquanto a mulher tenta guardar algo. O “não” é visto como “talvez”. No entanto, se a mulher transforma o talvez em um “deixa pra lá”, ela na verdade não está consentindo. Não é um “sim” entusiasmado, intenso, certeiro, como deve ser em qualquer relação. É um “sim” por convenção social, por achar que ele já fez demais, que agora merece o contato sexual, que é melhor ceder e se livrar logo. Isso não é consentimento, é coerção.

O pior é que esses caras não se veem como agressores, uma vez que todo mundo encara tais comportamentos como “normais”. Brad Perry tem uma frase ótima em Yes Means Yes*: “estes homens acreditam piamente que “não” significa “insista”, e nunca se veem como estupradores, apesar de admitirem o padrão de ignorar e suprimir a resistência verbal e física”.

A segunda coisa que me incomoda no caso é terem dito “mas por que ela não fez algo?”. Infelizmente, a maior parte das pessoas que sofre algum tipo de agressão (não só sexual) não faz alguma coisa. Ser vítima é costumeiramente confundido com “ser frágil”. É difícil encarar polícia, legista, imprensa, opinião pública. No caso desse post, o cara estava agredindo na frente de todos – e ninguém fez nada.

Se fosse você a vítima, você não pensaria que a errada é você por não estar gostando, já que todo mundo está achando muito normal?

Lisa Jervis discorre sobre isso no mesmo livro: “estou falando de uma construção cultural nojenta, destrutiva, que encoraja as mulheres a culparem a vítima, a se odiarem, a se culparem, a se responsabilizarem pelo comportamento criminoso dos outros, a temerem seus próprios desejos e a desconfiarem dos seus próprios instintos”.

Se o corpo da mulher é ainda visto como “de todos”, como acontece no caso daquelas que usam a sexualidade para “vender”, fica ainda mais difícil ter noção de que o corpo lhes pertence. Que é só seu. Que ninguém, ninguém pode tocá-lo sem consentimento.

Acabarmos com a cultura do estupro é um processo social, coletivo, mas também individual. Nós temos que encarar nossos corpos como nossos e de mais ninguém, além de repensarmos o sexo, transformando-o no que realmente é: prazeroso e consensual. Qualquer coisa fora disso é agressão.

(PS: Yes Means Yes é um livro de Jessica Valenti e Jaclyn Friedman sobre a cultura do estupro. É uma coletânea de artigos muito interessante e que recomendo muito. O texto de Brad Perry se chama Hooking up with healthy sexuality: the lessons boys learn (and don’t learn) about sexuality, and why a sex-positive prevention paradigm can benefit everyone involved.)

*Texto originalmente publicado em Cem Homens, por sugestão de Pamela Valente

15 horas atrás

O inelutável mercado

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Mino Carta, na revista CartaCapital:

Pergunto aos meus reflexivos botões o que vem a ser o mercado. Ou seria o caso de dizer MERCADO? Segue-se este diálogo.

“Trata-se, ao que tudo indica, de uma entidade sobrenatural, incontrastável na sua onipotência”, proclamam os inquiridos com certa ênfase.

“Deus, portanto, não é mesmo?”, apresso-me a anotar.

“Deixemos Deus no lugar que lhe compete, de alguma forma o MERCADO assemelha-se mais aos fados gregos…”

Interrompo. “Donde, agente do destino…”

“Não, não, algo maior e mais exato, de alguma forma o MERCADO é o próprio destino.”

“Quer dizer, o que determina é definitivo e irretorquível. É porque é, digo, filosoficamente…”

“Eis aí, é na condição indiscutível de manifestação do real, não nos atiraríamos a discutir o fato de que a Terra gira em torno do Sol.”

Pareceu-me entender a razão da diferença entre MERCADO e Deus. O Altíssimo, embora nem sempre usado para os melhores fins, é o primeiro motor da religião, na qual se entrelaçam fé e emoção. Já me referi inúmeras vezes à religião do deus mercado, e agora me arrependo, e a quem me leu peço perdão. Não se exige fé para acreditar no MERCADO. Ele existe, na qualidade de suprema verdade factual, igual à vida e à morte.

O inelutável suscita algum espanto, como as ideias de eternidade e do infinito propostas a quem é irremediavelmente condicionado por tempo e espaço. Entendo, porém, que os botões riem. Ouço distintamente o marulhar de sua peculiar risada, de cachorro maldoso, mostra os dentes, mas vem do fundo da garganta, e como se o som passasse sobre lixa. Estou perplexo, o comportamento dos botões contradiz agora tudo o que foi dito antes.

Encaro-os atônito. No tom de quem chama à ordem o desavisado, esclarecem: “Ora, ora, o que dissemos é como o mundo encara o mercado, o mundo cada vez mais crédulo, intelectualmente indigente, negado à frequentação do espírito crítico. Donde, pronto a engolir o que interessa às oligarquias financeiras criadas pelo neoliberalismo, enquanto prejudicam gravemente o resto da humanidade”.

A sociedade, à qual Margaret Thatcher negava existência em benefício do indivíduo, assiste impávida, ao menos por enquanto, ao esforço dos países do ex-Primeiro Mundo para combater a crise ao favorecer quem a provocou. De sorte que as coisas pioram. Na Europa, de 2008 a 2012, 10 milhões de empregos foram perdidos. Um milhão e pouco só na Itália no ano passado, e ali, no mesmo período, 5 mil empresas morreram. Oitenta multinacionais, e entre elas o narcotráfico, comandam a economia global e impõem sua vontade aos governos nacionais.

O mundo, ah, o mundo dá sinais inequívocos de senectude, em meio a delírios que incluem as ameaças atômicas do ditador norte-coreano. Incluem também situações aparentemente mais comezinhas e menos arriscadas. Refiro-me, a escolher uma entre tantas, à reação da mídia mundial ao falecimento de Margaret Thatcher. Salvo algumas exceções, fala-se de uma Mary Poppins revolucionária capaz de devolver o Reino Unido às glórias pregressas. E haja glória. A Dama de Ferro, que se presumia destinada a uma vida doméstica, ao se instalar no número 10 de Downing Street tornou-se fundadora do neoliberalismo, entrave aparentemente ineludível dos dias de hoje. Antes de Ronald Reagan, ela merece a primazia.

Não há questionamento possível, sofremos, em primeiro lugar, por causa dela se o simples mercado transmudou-se no MERCADO. Como a grei de Panurge, o mundo foi atrás da senhora Thatcher. Alguns, os beneficiários da operação, de caso pensado, para tomar o bonde da história que transitava na esquina. Outros, sem se darem conta do desastre. Outros ainda porque não entendiam coisa alguma.

P.S.: Em entrevista à rede CNT, o ministro Paulo Bernardo dá seu revide à capa de CartaCapital de duas semanas atrás, que o via como protetor do plim-plim e do trim-trim. O canal é insignificante e o ministro tem lida difícil com o vernáculo. Mesmo assim, percebe-se a sua tese: fingimos ser o que não somos. Pregamos a moral que não praticamos. Sem pestanejar, vendemos a alma. Pois o ministro deveria saber, por intermináveis razões, que Mefistófeles, conosco, perderia seu tempo.

16 horas atrás

STF pop star ameaça a democracia

por noreply@blogger.com (Miro)
 
http://ajusticeiradeesquerda.blogspot.com.br

Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

As associações de magistrados que divulgaram notas de protesto contra o tratamento truculento, exibicionista, absurdo que lhes dispensou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, na semana que finda, citaram um dos aspectos mais revoltantes da conduta do indivíduo que comanda o Poder Judiciário no Brasil: a “premeditação”.

Muitos talvez não tenham atentado para esse detalhe da cena que Barbosa protagonizou, pois a imprensa foi chamada por ele para acompanhar a sessão de humilhação a que submeteu juízes togados que, no mínimo, deveriam ter sido tratados com respeito, mas que foram pisados e depois escorraçados do gabinete dele.

Aí reside a “premeditação” a que aludiram as associações de magistrados vitimadas por Barbosa: a intenção de usar seus colegas de magistratura para se promover como o grande cruzado da moralidade nacional.

Se Barbosa fosse o único naquela Corte a se comportar dessa forma, não seria nada. Contudo, à exceção dos ministros Ricardo Lewandowski e José Antonio Dias Tóffoli, todos os outros membros do Supremo oriundos do período em que foi encenado julgamento da Ação Penal 470, vulgo julgamento do mensalão, tornaram-se pop stars a convite da grande mídia.

Ressalte-se que Dias Tóffoli não está livre de críticas, pois, apesar de não ter sido transformado pela mídia em pop star, deixou-se intimidar por ela e, de forma pusilânime, condenou sem provas o deputado José Genoino.

De resto, os outros ministros todos se transformaram em estrelas de um “show judiciário”.

Aliás, o comportamento adolescente de Luiz Fux, por exemplo, na festa de posse do novo ministro do Supremo, ano passado, quando tomou uma guitarra e desatou em cantoria, assumindo, sem um mínimo de pudor, o papel de pop star, tornou-se emblemático.

Um colegiado que é também a instância máxima do Poder Judiciário brasileiro deveria se pautar pela sobriedade. Juiz não deveria ser notícia, não deveria posar para as câmeras, não deveria falar fora dos autos, de forma a inspirar confiança nos seus jurisdicionados, no conjunto da sociedade.

Um juiz confiável, no que tange sua capacidade de promover justiça, deve ter o comportamento de um sacerdote. Juízes que dão shows e que acompanham o que acreditam ser o “clamor da sociedade” não passam de enganadores, pois não desempenham a nobre função que lhes foi confiada.

Quem não se lembra das entrevistas à Globo da ministra Carmem Lúcia durante as eleições do ano passado, quando comandou a Justiça Eleitoral? Nunca tinha visto antes uma midiatização do TSE como aquela.

Os membros do STF tornaram-se habitués da mídia, dando declarações sobre tudo, até sobre política, como o ministro Marco Aurélio Mello, que chegou a justificar a ditadura militar criminosa que fustigou o Brasil dizendo-a “um mal necessário”.

Ou seja: um membro da cúpula da Justiça brasileira justificou uma das maiores injustiças que este país já viveu. É pouco ou quer mais, leitor?

Urge que a sociedade se levante através de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, as associações da magistratura, os Poderes Legislativo e Executivo, os movimentos sociais, pois precisamos parar de brincar com a Justiça, pois a ela todos estamos submetidos, inclusive os patetas que se deleitam com juízes dando showzinhos como os de Barbosa e Fux.

16 horas atrás

O poder e sua maldição

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Mauro Santayana, em seu blog:

Desde que a história do poder começou a ser escrita, dela tem sido inseparável o registro da corrupção. Contra a corrupção do poder, Savonarola, sugeriu um governo de santos. Platão um governo de sábios austeros. Em uma de suas famosas cartas, algumas tidas como apócrifas, ele fala da perversão do poder pelo hedonismo em Siracusa – ele que fora mal sucedido conselheiro de dois de seus tiranos, Dione e Dionísio. Pôde entender Platão que uma coisa são as idéias, outras, os homens. 
Savonarola é o modelo de todos os combatentes da corrupção na História. Coube-lhe opor-se ao mais corrupto e corruptor de todos os papas, Rodrigo Borgia, que ocupou o trono com o nome de Alexandre VI. O frade dominicano desafiou o papado e soube esquivar-se da astúcia do Pontífice, que lhe ofereceu tudo, até mesmo o chapéu cardinalício, com o propósito de retirá-lo da Toscana, onde se sentia seguro.
O monge acabou sendo vencido pelas armas, preso, julgado e condenado à morte. Naquele episódio, e em outros, Mamon, o deus do papa, se sobrepôs ao Cristo de Savonarola. Ainda agora se revela, pelo Wikileaks, que o considerou natural a repressão no Chile de Pinochet, e exagerada a reação mundial, provocada pelas forças de esquerda, contra o golpe. A morte de Mme. Thatcher convida a uma viagem pela geografia da corrupção por excelência.  
Provavelmente não se conheça, em toda a História, processo mais extenso e mais profundo de corrupção da política pelo poder financeiro do que o eixo entre Washington, com Reagan, Londres, com a dama de ferro, e o Vaticano, com Wojtyla, no início dos 80. Convenhamos que os que os corromperam souberam fazê-lo. Na conspiração, que se selou em encontro na Biblioteca do Vaticano, Reagan e Wojtyla – em menos de uma hora – com a presença de Alexander Haig, acertaram os movimentos coordenados para destruir o sistema socialista, acabar com o estado de bem-estar social no resto do mundo e globalizar o sistema econômico mundial. Nenhum dos três seria capaz de engenhar o plano, que – tudo indica – lhes foi entregue pelo Clube de Bilderbeg. É conveniente registrar que não tiveram muitas dificuldades na União Soviética, cujos burocratas, seduzidos pelo “doce charme da burguesia”, sonhavam com a vida faustosa dos executivos norte-americanos e ingleses. E dificuldades ainda menores nos países em desenvolvimento, alguns deles, como o Brasil, com recursos internos que lhes permitiam resistir à desnacionalização de sua economia. Como se sabe, ocorreu o contrário, com a embasbacada adesão dos dois Fernandos ao Consenso de Washington. O resultado do processo está aí, com o desmoronamento da economia européia, o avanço da pobreza pelos países centrais, e a corrupção, alimentada pelo sistema neoliberal, grassando pelo planeta inteiro.
Os maiores bancos do mundo exercem diretamente o poder político em alguns países, como o Goldman Sachs o exerceu na Itália, com Mario Monti, e Papademus, na Grécia, até as eleições. Isso sem falar no Banco Central Europeu, sob o comando de Mario Draghi, também do mesmo banco. No passado, os Estados intervinham no sistema financeiro, para controlá-lo e proteger os cidadãos; hoje, os bancos intervêm nos Estados, com o propósito de garantir seus lucros, o parasitismo dos rentistas e as milionárias remunerações de seus “executivos”. Para fazer frente ao descalabro da economia, causado pela ficção dos derivativos, os governos europeus cortam os gastos sociais e levam famílias inteiras à miséria e ao desespero. Idosos são expulsos de suas casas, por não terem como pagar as prestações ou os aluguéis, os hospitais públicos reduzem o número de leitos, as indústrias recorrem à falência, e os suicídios se sucedem. Há dias, sem dinheiro para honrar compromissos de pequena monta, um casal de meia-idade, que possuía seu negócio de fundo de quintal, se enforcou, em Civitanova, na Itália. O irmão da senhora, atingido pela tragédia, também se matou, afogando-se no Adriático. Em Portugal – e ali sobram capitais privados ociosos, que adquirem, sôfregos, ativos brasileiros – o desespero atingiu limites extremos, e a União Européia, de joelhos diante dos banqueiros, exige de Lisboa maiores cortes no orçamento social. No fim de um de seus mais belos romances, Terra Fria, o escritor português Ferreira de Castro dá à mulher a notícia da presença de um militante revolucionário na cidade: “Ele disse que chegará o dia em que haverá pão para todos”. E, com o pão, a dignidade – é a nossa esperança.

16 horas atrás

O fim do mundo em apenas três meses

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:

De vez em quando, ultimamente, fico até com receio de perder meu tempo escrevendo. O mundo já poderá ter acabado quando este texto chegar aos caros leitores. Quem vai ler?

Sem falar na sempre iminente guerra nuclear das Coréias, o fim do mundo está onipresente no noticiário nacional, como se houvessem estabelecido uma programação prévia para não deixar o brasileiro respirar sossegado dois dias segundos.

Mal se termina de falar de uma crise e já aparece outra nas manchetes, sem que tenha dado tempo da anterior terminar.

O ano mal começou, e já tivemos de volta as notícias alarmistas sobre os iminentes riscos de apagão de energia em razão da falta de chuvas nos reservatórios, ao mesmo tempo em que as enchentes em outros pontos do país provocavam novas tragédias. Imagens de reservatórios com pouca água e morros despencando eram acompanhadas de análises dos especialistas de sempre para quem o país, com este governo, não tem nenhum futuro, seja por falta ou excesso de chuvas.

Os brasileiros nem tivemos tempo de comemorar o recorde da safra de grãos, e já começaram as séries de reportagens sobre o colapso na infraestrutura, com estradas intransitáveis e congestionamentos nos aeroportos.

E assim fomos seguindo o ano de 2013, de agonia em agonia, até que sobreveio a grande crise do preço do tomate, a maior de todas, porque esta pode explodir ao mesmo tempo a inflação e os juros, levando o país à ruína completa. Em apenas três meses, ficamos novamente à beira do abismo.

Esses problemas todos existem, é claro, e alguns são bastante sérios, como já mostramos aqui no Balaio, tornando mais difícil a recuperação da economia. O clima de catastrofismo, porém, vai além da realidade dos fatos e tem como pano de fundo a sucessão presidencial de 2014, ativada pela antecipação da campanha e pela ausência de candidatos competitivos para enfrentar a candidata do governo.

Inconformados com os altos índices de popularidade da presidente Dilma Rousseff, que nas atuais pesquisas lhe garantem a reeleição já no primeiro turno, setores da sociedade que se sentiram prejudicados com a queda de juros e tarifas, especuladores e rentistas, aquela gente que não se conforma com medidas que visam a beneficiar a população de baixa renda, resolveram investir em outros campos, já que o cenário eleitoral não lhes dá muitas esperanças de voltarem ao poder tão cedo.

Alguma coisa está fora de ordem e de lugar quando assistimos à judicialização da política e à politização do judiciário, e os grandes protagonistas da cena brasileira se tornam o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, e o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que agora têm uma opinião formada sobre tudo e dão seus pitacos definitivos sobre qualquer assunto, mesmo quando não são chamados.

Gurgel já decidiu que a nova distribuição dos royalties do petróleo só deverá valer a partir de 2016, Barbosa comenta a indicação do polêmico deputado pastor Marco Feliciano para uma comissão da Câmara, e ambos se dedicam com afinco para colocar na cadeia os condenados da Ação Penal 470, recusando sumariamente qualquer recurso dos advogados de defesa.

Citado pelo ex-ministro José Dirceu numa história no mínimo malcontada no episódio para a sua indicação para o STF, o ministro Luiz Fux manda responder que não vai polemizar com réus condenados. Na mesma semana, o procurador-geral Gurgel determina ao Ministério Público e à Polícia Federal investigações sobre o ex-presidente Lula, a partir de declarações feitas por Marcos Valério, réu condenado a mais de 40 anos de prisão.

No mesmo momento em que Barbosa denuncia o “conluio” entre advogados e magistrados, o escritório de Sergio Bermudes, um dos mais caros do país, anuncia o patrocínio de uma festa de arromba para mais de 300 pessoas em seu apartamento de 800 metros quadrados, no Rio de Janeiro, para comemorar o aniversário de 60 anos de Luiz Fux, cuja filha Marianna, candidata a uma vaga no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, trabalha com o anfitrião. A pedido da mãe do homenageado, diante da repercussão do regabofe, a festa foi cancelada, segundo os jornais deste sábado.

Mas não faltarão outras festas do gênero, por mais que isso irrite Barbosa, para congregar os comensais dos dois lados do balcão da Casa Grande, que podem perder as eleições, mas nunca perdem a pose nem o poder.

16 horas atrás

Tuitaço #ParaSiempreHugoChavez

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Vinicius Mansur, de Caracas, no blog ComunicaSul:

Há um dia da eleição presidencial na Venezuela, quando a propaganda eleitoral já não é mais permitida, a política caminha pelas redes sociais do país. Os chavistas aproveitam o simbolismo deste 13 de abril e convocam seus seguidores a difundir mensagens com a hashtag #ParaSiempreHugoChávez.

Em 13 de abril de 2002, o golpe de Estado contra o ex-presidente começou a ser revertido, sobretudo, pela mobilização popular. No dia 14, Chávez foi oficialmente reconduzido ao posto de presidente da República.

O site Ola Bolivariana convocou os tuiteiros para, a partir das 12 horas (13:30 no horário de Brasília), a compartilhar “recordações, piadas, aprendizagens, desejos e reflexões” daqueles dias até hoje, quando “o povo mobilizado decidiu continuar com o rumo da Revolução Bolivariana”. 

Já os seguidores do principal candidato da oposição, Henrique Capriles Radonski, estão desde sexta-feira (12) difundido mensagens com a hashtag #CuandoGaneCapriles, chegando a alcançar as primeiras posições no ranking do Twitter.

17 horas atrás

A mídia golpista na Venezuela

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Marina Terra, no sítio Opera Mundi:

Eram cinco horas da manhã de 14 de abril de 2002. Hugo Chávez falava à nação pela primeira vez desde que, por meio da pressão popular e a lealdade de setores do Exército, foi resgatado da prisão após sofrer um golpe de Estado. Em seu discurso, houve um apelo especial, enfático, feito enquanto agarrava uma cruz entre as mãos. “Faço um chamado aos meios de comunicação. Por Deus! Reflitam, mas de uma vez por todas. Esse país também é de vocês (…)”.

Personagem ativa da derrubada da ordem democrática naqueles dias de abril de 2002, a mídia privada venezuelana ainda ocupa a maioria do espectro audiovisual e da imprensa 11 anos depois do golpe. E não se trata de um período qualquer da história da Venezuela. O aniversário do golpe de Estado contra Chávez acontece a pouco mais de um mês de sua morte e durante a disputa eleitoral para presidente, marcada para este domingo (14/04).

Segundo dados do Ministério da Comunicação da Venezuela, atualmente 60% do espectro televisivo aberto é explorado por empresas privadas. Em 1998, antes da eleição de Chávez, o número chegava a 80%. Nas rádios, as redes privadas são hegemônicas, o Estado só tem uma estação com alcance nacional e três estações em localidades estaduais. As empresas também são maioria na imprensa escrita, sendo mais de 80% do total de jornais.

“Antes da chegada de Chávez ao poder havia um acordo tácito entre as corporações da informação, que são porta-vozes do poder econômico, e o Estado”, afirma o jornalista venezuelano José Roberto Duque, que trabalhou no jornal El Nacional e é autor de livros consagrados no país. “O que acontece com Chávez [no poder]? A aliança entre o Estado e os consórcios de comunicação se rompe”, explica.

A partir daquele momento, começaram os ataques. “Em um cenário no qual o poder econômico entra em conflito com um Estado que alinha com as lutas populares e a reivindicação do povo, começa evidentemente uma guerra na qual a verdade é a primeira a morrer”, diz Duque.

Naquela época, as notícias começaram a ser deformadas a favor ou contra o projeto de Hugo Chávez. Enquanto alguns veículos preferiram simplesmente ignorar as declarações do governo, outros se empenharam em retratar o presidente como o líder de uma ditadura. É nessa ocasião também que o governo de Chávez cria seus meios de comunicação, “cujo discurso também começou a carecer de honestidade jornalística”, por produzir conteúdo que serve para defender ou elogiar o governo.

Em 2001, um conjunto de 49 leis habilitantes, que incluíam a lei de terras e hidrocarbonetos, detona o golpe, conforme analisa o jornalista Ernesto Villegas – atual ministro da Comunicação – em seu livro “Abril: Golpe Adentro”. Ali é estabelecida uma investida liderada pela Fedecámaras, entidade que reúne os empresários do país, e a mídia privada. Uma grande marcha foi convocada para 11 de abril em Caracas, propositalmente revertida para os arredores da sede do governo. No dia, o El Nacional estampava na manchete “A batalha final será em Miraflores”.

O resultado foi o “massacre de Ponte Llaguno”— nome de um viaduto próximo a Miraflores –, quando franco-atiradores dispararam contra a população, deixando 19 mortos e 70 feridos. Manipulando as imagens, rapidamente a Globovisión, um dos principais canais privados, responsabilizou o governo. Naquele dia, a Venevisión dividiu sua tela com, de um lado, imagens das micro-cadeias com a versão do governo sobre os acontecimentos, e do outro, mobilizações da oposição e atos de violência, em claro desrespeito às leis de comunicação do país.

À noite, Chávez foi detido por militares golpistas e em 12 de abril Pedro Carmona Estanga se autojuramentou como presidente da Venezuela, rasgando a Constituição e dissolvendo todos os poderes. Os meios de comunicação privados se ocuparam em legitimar o governo de facto, enquanto Chávez seguia preso.

De acordo com o livro Dias de Aluvião, editado por Federico Ruiz Tirado no ano passado, entre janeiro e abril de 2002, a distribuição de espaço na imprensa privada foi estatisticamente desequilibrada. Foram avaliados os jornais El Universal, El Nacional, Últimas Notícias, 2001 e Tal Cual. Cinquenta e cinco por cento da superfície redacional dava voz à oposição, enquanto 20% a Chávez e 16% ao governo.

Oitenta e cinco por cento dos termos negativos foram usados para qualificar o chavismo com frases como “comunistas” e “círculos violentos”. Os outros 15%, utilizados para adjetivar a oposição incluíam menções como “esquálidos”, “fascistas” e “golpistas”. Já os termos positivos formavam 70% das qualificações dos opositores, com termos como “povo pacífico” e “sociedade democrática”, enquanto do lado oficialista se lia “manifestantes” e “camaradas”.

Naqueles meses, 80% das primeiras páginas dos jornais falavam da oposição. Quanto ao tratamento gráfico dos líderes políticos, 38% era dedicado a Pedro Carmona Estanga, que se autonomeou presidente da Venezuela após o golpe de Estado, 37% ao líder opositor Carlos Ortega, e somente 25% a Chávez.

“Nos primeiros sete, oito anos de Chávez”, afirma Duque, se tornou impossível fazer jornalismo na Venezuela. “Todos tinham algo a dizer, contra ou a favor, mas ninguém quis fazer um jornalismo limpo, equilibrado, e isso se prolonga até hoje. É impossível fazer um exercício imparcial ou mais ou menos objetivo do jornalismo”, diz. Para ele, inexiste um compromisso com a credibilidade no país. “A quebra aconteceu em 2002”, salienta.

Hoje em dia, canais como a Globovisión, uma espécie de porta-voz da oposição, dizem ser perseguidos pelo governo, citando multas e acusações. Presidida por Guillermo Zuloaga, foragido da Justiça desde 2010, a Globovisión acumula processos judiciais, o mais recente por omitir em seus programas jornalísticos partes da Constituição ao noticiar o tema da posse de Chávez em 10 de janeiro desse ano.

Além disso, o caso RCTV (Radio Caracas de Televisão) segue sendo interpretado pela oposição como um violento atentado à liberdade de imprensa no país. Frequentemente campanhas pedem o retorno do canal, um dos mais populares na Venezuela até ser fechado, em 2007. Apesar de o governo dizer que na época decidiu utilizar o espectro ocupado pela RCTV para outra finalidade, para opositores essa decisão seria castigo pela participação da emissora no golpe contra Chávez em 2002.

Redes sociais

O apagão midiático ao qual a população venezuelana foi submetida naqueles dias de abril de 2002 aconteceu porque os principais meios eram controlados por opositores ao governo. Mas e se naquela época redes sociais como Twitter e Facebook – bastante populares na Venezuela – já existissem?

Segundo um estudo da consultoria espanhola IZO Innovation publicado em 2012, a Venezuela está em terceiro lugar no ranking mundial de penetração do Twitter e em sexto na América Latina em termos de horas conectadas por usuário por semana (20).

De acordo com a empresa de compilação de dados comScore, o país está em terceiro – atrás de Indonésia e Brasil – em penetração do Twitter entre usuários conectados, com 19% deles visitando o site diariamente. Ainda segundo a comScore, 86,9% dos usuários de internet venezuelanos possuem conta no Facebook, conforme dados de junho de 2011, quando a última pesquisa foi realizada.

Com o Twitter, o desenrolar do golpe na Venezuela poderia ter sido diferente, analisa Duque. “A surpresa talvez não tivesse sido tão dramática”. Para ele, porém, a internet e as redes sociais funcionam como uma ferramenta mais de um processo. “Não é uma trincheira para o ativismo. O espaço da política continua sendo as ruas.”

Ele usa como exemplo dessa reflexão um episódio emblemático que viveu em 12 de abril de 2002, quando formou parte da resistência popular nas ruas de Caracas. Logo após Carmona jurar como presidente, o jornalista estava na avenida Sucre, onde moradores construíram barricadas contra a polícia. Ninguém sabia o que havia acontecido com Chávez.

Até que um rapaz começou a distribuir alguns papeizinhos que diziam: “Hugo Chávez está sequestrado. Ele ainda é o presidente. Difundam”, conta Duque. “Eu estava com um amigo e pedi para que me desse vários, mas ele negou, porque tinha poucos. Depois seguiu compartilhando o que restava”, descreve. “Esse foi o Twitter daquele momento. Se ele existisse na época, esse homem teria feito o mesmo trabalho, mas de forma mais eficiente. Às vezes o importante não é a ferramenta tecnológica, mas a qualidade da mensagem passada”, diz.

17 horas atrás

O futuro da revolução bolivariana

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Editorial do jornal Brasil de Fato:

Mais uma batalha decisiva está sendo travada na luta dos povos latino-americanos contra o projeto neocolonialista do império estadunidense. No dia 14 de abril os venezuelanos vão às urnas para reafirmar o avanço da revolução bolivariana em curso. A Venezuela passa por um momento de politização avançada em que as classes sociais assumiram a tarefa de pautar o debate de projeto político e de sociedade. De fato, esse é um momento excepcional da história política de qualquer nação. 

Fazendo as devidas ressalvas, a grandeza da revolução bolivariana é comparável à epopeia heróica do povo chileno na década de 1970 ou mesmo com a revolução sandinista na Nicarágua que triunfou em 1979. A revolução bolivariana aprendeu muito com estas duas importantes experiências históricas. A via chilena de Allende descuidou-se do aspecto militar, e no momento em que a questão do poder foi colocada predominaram as forças conservadoras. Já na Nicarágua, o imperialismo articulou um cerco contrarevolucionário e jogou a disputa para a luta eleitoral num momento em que o povo nicaraguense passava por profundas dificuldades impostas pela contrarrevolução. 

Em resumo, o imperialismo canalizou o desgaste dos anos de guerra contrarrevolucionária na Nicarágua e transferiu o centro da luta de classes para a luta eleitoral, prometendo o fim da guerra. 

A derrota eleitoral em 1990 significou a interrupção do processo revolucionário e o retrocesso nas transformações estruturais. A lição disso tudo é que num processo revolucionário as forças populares devem estar preparadas tanto para o aspecto militar como para a dimensão institucional da luta de classes. 

A evolução da luta política na Venezuela demonstra que a revolução bolivariana está atenta para estes dois aspectos da luta de classes. Compreendem que a disputa pela hegemonia na sociedade está atrelada às mobilizações de massa e o fortalecimento da organização popular. 

A vitória do presidente Nicolás Maduro nas eleições presidenciais do dia 14 de abril consolidará a Venezuela como um polo avançado da luta anti-imperialista na América Latina. Além disso, lançará uma mensagem de esperança para os povos latino-americanos que buscam superar a situação de dependência econômica e de subdesenvolvimento. 

Sem dúvida, a concretização da vitória de Maduro acumulará forças para o avanço desse amplo movimento latino-americano que objetiva alcançar a integração regional pautada na soberania nacional, na integração dos povos e na superação das desigualdades sociais. 

A força popular demonstrada pela campanha de Maduro desmistifica o discurso da grande mídia, defensora dos interesses imperialistas, no qual o processo revolucionário dependia exclusivamente da condução política do comandante Hugo Chávez. 

Na verdade o que temos observado é a intensa mobilização popular e o fortalecimento dos setores democráticos e populares que buscam a concretização das reformas estruturais e do socialismo. Estes setores sairão fortalecidos do processo eleitoral com a vitória de Maduro. Mas é preciso ficar atento, pois as forças conservadoras e reacionárias latino-americanas farão de tudo para impedir a continuidade da revolução bolivariana. 

A sociedade Venezuelana tende a polarizar-se cada vez mais, sendo necessário uma força social capaz de impulsionar ainda mais as transformações em curso. O que está em jogo é alteração da correlação de forças em nível continental e, assim, elevar o patamar da luta de classes no continente. 

Nesse sentido reafirmamos a declaração do dirigente nacional do MST, João Pedro Stedile: “A batalha que enfrentamos não é apenas uma batalha da Venezuela. É uma batalha da América Latina, que está em disputa por dois projetos, o projeto da burguesia e dos Estados Unidos contra o projeto do povo latinoamericano”.

17 horas atrás

Fux é o maior problema da Justiça

por noreply@blogger.com (Miro)
 
http://ajusticeiradeesquerda.blogspot.com.br

Por Luis Nassif, em seu blog:

Com seus modos destrambelhados, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa tornou-se especialista em desmoralizar grandes bandeiras que levanta.

Esqueçam-se os modos para se analisar um dos temas que levantou: a promiscuidade entre Ministros do STF e grandes escritórios de advocacia.

O caso Sérgio Bermudes é exemplar. Seu escritório patrocina grandes ações contra o poder público e, ao mesmo tempo, emprega a filha de Luiz Fux, a esposa de Gilmar Mendes e o filho do desembargador Adilson Macabu, que trancou a Satiagraha. Agora, está oferecendo um mega regabofe para o mundo jurídico comemorar os 60 anos de idade de seu amigão, o próprio Fux.

Vamos a Fux e seu ultimo feito: a derrubada da PEC 62/2009 que instituiu regime especial para pagamentos de precatórios emitidos até aquela data.

Sabe-se que parte expressiva dos precatórios está em mãos de escritórios de advocacia, que adquiriram com enormes descontos de clientes que necessitavam de caixa e não tinham esperança de receber o pagamento em vida.

Com o voto decisivo da Fux, o STF votou pela procedência parcial das Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) 4357 e 4425 contra a PEC, ajuizadas, respectivamente, pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pela CNI (Confederação Nacional da Indústria).

A Emenda havia significado um enorme avanço para o tema.

Sabia-se ser impossível o pagamento imediato do passivo acumulado. Concordou-se então com o parcelamento por 15 anos e com garantias inéditas para os credores. Houve a vinculação de parte da Receita de cada ente para pagamento da dívida; e o instrumental jurídico contra futuros calotes: a possibilidade de sequestro da receita.

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça), interpretando a Constituição, entendeu que a PEC definia um comprometimento da receita com precatórios que assegurava que, ao final de 15 anos, todos os precatórios seriam liquidados.

Mais que isso: com a previsibilidade instituída pela PEC, alguns governantes – como o prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin – já tinham acenado com a possibilidade de aumentar o percentual de receita vinculada para pagamento.

O Supremo liquidou com tudo. O padrão Fux de atuação

Fux comportou-se com a mesma leviandade com que atendeu a seu padrinho político, governador Sérgio Cabral, na questão dos royalties.

Na ocasião, para impedir que o Congresso derrubasse o veto da presidência da República à Lei, sem passar pela análise de mérito, Fux decidiu que o Congresso deveria analisar todos os vetos pela ordem cronológica. Paralisou os trabalhos legislativos. Questionado, alegou não ter tomado conhecimento, antecipadamente, das consequências de seu ato. Ora, não se trata de um juizado de pequenas causas, mas da mais alta corte do país.

Agora, repete a irresponsabilidade.

De um lado, reinstituiu uma das maiores jogadas dos precatórios – a correção da dívida por índices extremamente elevados, a propósito de dar isonomia com as correções que o Estado cobra dos seus devedores.

Por outro, paralisou o pagamento geral. Os diversos entes federados deixaram de pagar por impossibilidade de quitar à vista e pelo fim da ameaça de sequestro das receitas. Voltou-se à estaca zero.

Alertado pela OAB, Fux voltou atrás e decidiu suspender a medida para precatórios que vêm sendo pagos, mantendo-a para os novos. Um nonsense completo: a PEC questionada legislava apenas sobre os antigos.

O próprio Marco Aurélio de Mello, que tem um histórico de reação contra abusos do Estado, votou a favor da manutenção da PEC, com um voto que poderia modular eventuais abusos sem comprometer os avanços que ela consolidava. Ocorriam abusos com os leilões, que colocavam na frente os precatórios de quem oferecesse o maior desconto.

Agora, volta-se à estaca zero em relação aos precatórios. Um STF que não estuda seus casos

Da mesma maneira que no caso da Lei da Imprensa, o STF vota sem analisar consequências. Nos dois casos, Marco Aurélio de Mello alertou para os desdobramentos, para o vácuo jurídico que seria criado. 

Mas o lobby foi maior que o bom senso.

Seja qual for sua motivação, é evidente que, à luz do seu histórico nos episódios de indicação para Ministro, do seu contato estreito com grandes escritórios, Fux tornou-se um personagem sob suspeição.

O melhor favor que poderia receber seria o PT entrar com uma ação contra ele, a propósito do mensalão. Seria fornecer a blindagem de que ele necessita.

Fux não é problema do PT: é problema do sistema jurídico brasileiro.

17 horas atrás

Quem quer a alta dos juros?

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Antonio Martins, no sítio Outras Palavras:

Um assunto único domina, hoje (11/4), as manchetes dos jornais brasileiros mais vendidos. Folha, Globo e Estado destacam, em frases quase idênticas que a inflação anualizada subiu (para 6,59%) e “estourou a meta” fixada pelo Banco Central (BC). Em consequência, não restaria, ao próprio banco, outra alternativa exceto iniciar uma nova rodada de elevação da taxa básica de juros (Selic), já na próxima semana. A presidente Dilma Roussef, que se manifestou contra a alta, há poucos dias, teria sido vencida. A Folha chega até a prever o montante e o ritmo do ascenso: a Selic, hoje em 7,5% ao ano, passaria a 8,5%, após “quatro aumentos de 0,25 ponto percentual, até dezembro”.

Noam Chomsky cunhou certa vez o termo “fabricação de consensos” – provavelmente sem cogitar que alguém tentasse praticá-la de modo tão caricatural quanto a mídia brasileira. Há três abusos claros nas manchetes de hoje: a) a inflação não está mais em alta, nem deve ser reduzida a qualquer custo; b) elevar os juros não é receita eficaz para fazê-lo; c) por trás do suposto “remédio” esconde-se a luta da oligarquia financeira para capturar uma parcela ainda maior da riqueza coletiva. Os jornais, é claro, escondem esta tentativa.

Veja, ponto por ponto, como se manipulam os fatos.

1. Para constatar que a inflação não está subindo, mas em queda, há dois meses, basta mirar o gráfico abaixo, publicado sem destaque pelo Estado. A taxa, medida por um dos índices do IBGE (o IPCA) foi de 0,47% em março, ante 0,6% em fevereiro e 0,86% em janeiro. O índice anualizado só aumentou porque os 0,47% de agora substituíram, no cômputo de doze meses, uma taxa excepcionalmente baixa, registrada em março de 2012 – 0,21%. Tudo indica que, já em abril, a inflação anual recuará, sem necessidade de qualquer intervenção, para os patamares previstos pela “meta” do BC.

2. A mídia brasileira omite, mas há uma crítica internacional crescente à crença segundo deve-se perseguir a queda da inflação a qualquer custo. Pelo menos dois economistas premiados com o Nobel – Paul Krugman e Joseph Stiglitz – têm sugerido o contrário. Propõem que os Estados mantenham, nas próximas décadas, índices de inflação ligeiramente superiores aos atuais – como ocorreu, aliás, nos “anos gloriosos” do pós-II Guerra. Explicam que tal ambiente permitirá desvalorizar a riqueza financeira dos mais ricos, reduzir a dívida pública e, em consequência, promover políticas redistributivas. Estas, explica Stiglitz, estimulam a economia e a geração de empregos – porque a classe média e os pobres consomem uma parte expressiva de seus rendimentos, enquanto os super ricos entesouram quase tudo.

3. Ainda que a meta seja reduzir a inflação, elevar os juros é uma péssima forma de fazê-lo. Num post extremamente didático, publicado hoje, o jornalista Luís Nassif demonstra que o BC dispõe de instrumentos muito mais eficazes para segurar os preços. Tem total autonomia, por exemplo, para determinar uma redução dos prazos de financiamento ao consumidor. A mudança torna mais difícil adquirir bens, reduz o consumo e as pressões inflacionárias. Tome, por exemplo, uma geladeira de R$ 1.000, financiada em 24 meses, a uma taxa de 4% ao mês. Hoje, as prestações são de R$ 65,58. Com a redução do prazo para 18 meses, elas saltam para R$ 79,00. Já a alta da Selic eleva-as para… R$ 65,86. “Alguém deixaria de tomar financiamento por conta de um aumento de 28 centavos?”, pergunta Nassif.

4. Por fim, a questão central. Se a alta da taxa Selic é tão ineficaz, qual o motivo de tanta batalha em torno dela? É que os juros, embora não reduzam a inflação, são, por excelência, o meio pelo qual a oligarquia financeira extrai riqueza do conjunto da sociedade. Em 2012, o Estado brasileiro desviou, do total de impostos arrecadados, R$ 128 bilhões (ou 4,81% do PIB) para pagar juros – equivale a aproximadamente seis vezes o montante aplicado no Bolsa-Família. Mas, ao invés de beneficiar 13 milhões de famílias, os juros fluem, segundo cálculos do IPEA, para apenas 0,5% da população – a ínfima minoria que tem recursos para comprar títulos públicos ou seus derivados.

Ocorre que este setor havia se acostumado a ganhar muito mais, nos anos anteriores. Em 2011, foram R$ 151 bilhões; e no período FHC, a despesa com juros chegou a 9% do PIB. A redução da sangria foi alcançada precisamente graças à queda dos juros. A partir de julho de 2011, a presidente Dilma orientou o BC a retomar a trajetória de redução iniciada no governo Lula. As taxas, que são fixadas em reuniões do Conselho de Política Monetária (Copom) do banco, caíram de 12,5% ao ano para os 7,5% de hoje. Sucederam-se fatos extraordinários. Em 2012, por exemplo, os lucros de bancos como o Itaú e o Santander recuaram, ainda que muito levemente – depois de anos de recordes sucessivamente quebrados.

A oligarquia financeira jamais se conformou com a queda de juros. Não pode, evidentemente, expor suas razões. Mas tem muito poder, dinheiro e capacidade de “convencer” aliados importantes. Prepare seus olhos e ouvidos. Até a próxima reunião do Copom, você estará exposto a doses cavalares de propaganda ideológica – disfarçada na forma de “notícias” e previsões alarmantes dos “especialistas de mercado”. O governo e o Banco Central cederão? Esta é a pergunta que importa.

17 horas atrás

A inflação e a batalha dos 0,09%

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

A turma que vive de rendas nem disfarça mais. Por uma diferença de 0,09% no índice de inflação, começou o que pode ser a batalha final para o Banco Central interromper uma política de juros baixos.

Claro que ninguém pode ter um ponto de vista fanático e achar que os juros nunca podem subir. Altas podem ser necessárias, em situações extremas. 

Mas é preciso avaliar a situação real. 

Um primeiro aviso aos navegantes: quanto vale 0,09% em alguma coisa? 

Economistas sérios sabem que todo dado de 0,0 alguma coisa é, em si, irrelevante. Não é sinal de nada. O problema é a tendência. 

Este é o verdadeiro aviso aos navegantes: a inflação tem uma tendência de queda. O índice de 6,59% de março é a soma de 12 meses. Mas, em março, a inflação foi menor que a de fevereiro. (Os números são 0,47% contra 0,60%, respectivamente). Outro dado. Os alimentos, responsáveis pelas altas recentes – sem eles, a inflação não passaria de 4,5% — estão em queda. 

Leia o que diz a nota analítica do Bradesco, hoje, após os números do IBGE: 

“O movimento de descompressão do grupo alimentação deve se manter nos próximos meses. Na mesma direção, os preços de vestuário recuaram de uma alta de 0,55% em fevereiro para 0,15% em março. No sentido contrário, houve elevação de 0,51% do grupo habitação, sucedendo a queda de 2,38% dos preços em fevereiro, por conta da dissipação do reajuste de energia elétrica. Os núcleos mostraram aceleração em 12 meses, ainda que, na margem, tenham desacelerado em relação ao mês anterior. O índice de difusão registrou recuo de 72,33% para 69,04% no último mês, devolvendo a alta observada em fevereiro. Os serviços vieram em linha com o esperado, registrando alta de 0,26% entre fevereiro e março, levando o crescimento acumulado em doze meses de 8,66% para 8,37%. Para o ano de 2013, continuamos com a expectativa de alta de 5,4% do IPCA.”

Ou seja. Para o Bradesco, o IPCA chegará abaixo da meta no fim do ano.

Mas a pressão continua. Por que? 

Porque não há um debate técnico sobre o assunto, como seria tão agradável acreditar. Há uma disputa política por renda — que pode se transformar num drible contra o governo Dilma. 

Derrotados em agosto de 2011, quando o Banco Central jogou os juros para baixo, nossos rentistas não se conformam. Possuem um exercito de analistas e consultores em militância permanente para a reabertura do cassino financeiro. 

Nos últimos meses, o grande empresariado obteve mais do que imaginava. O governo desonerou a folha de pagamentos. Baixou a conta de luz para consumidores e empresas. Abriu concessões generosas a iniciativa privada na área de infraestrutura. O saldo é um crescimento econômico, sob novas bases, em torno de 3% e 4%. Não é muito mas pode ser um bom começo. 

A questão central do processo é e sempre foi o juro baixo. O consumidor precisa dele para ir as compras. O empresário também conta com isso para novos investimentos. A certeza do dinheiro barato estimula o crescimento. A incerteza inspira a retirada, o medo. 

Não é preciso um aumento grande. Basta um movimento na direção aguardada. O impacto negativo será imenso e prolongado. 

Não se manipula com expectativas bilionárias impunemente, como num jogo de vídeo game. 

O problema é que imenso capital improdutivo brasileiro, aquele que é tão poderoso que tem tantas faces invisíveis – muitas só são reconhecidas quando autoridades aceitam bons empregos ao deixar o governo – não sabe viver de outra forma. Desfalcado de uma imensa receita assegurada no mercado financeiro, prepara a revanche. 

Está conseguindo colocar a inflação como ponto essencial da agenda. Quando isso acontece, o cidadão já sabe. A “defesa da moeda” é a senha cívica para menos empregos, menos crescimento, menos crédito e menos consumo. 

Do ponto de vista político, é uma armadilha para Dilma, que dentro de um ano e meio enfrentará as urnas onde vai buscar a reeleição. 

Do ponto de vista da sociedade brasileira, é um retrocesso a um modelo concentrador de renda. 

Do ponto de vista econômico, é um erro trágico e bisonho, que tem um antecedente mortífero. 

Em novembro de 2011, o BC brasileiro cedeu às pressões do rentismo e deu um salto para cima nos juros – jogando a economia, já em declínio em relação ao ano anterior, num mar de incertezas e desconfiança. Erro semelhante, no final de 2008, criou amarras desnecessárias no esforço para livrar o país da catástrofe que se iniciou em 2008. O país recuperou-se em 2010, mas pagou um sofrimento que poderia ter sido evitado. 
Ao explicar o colapso europeu dos últimos anos, o Premio Nobel Paul Krugmann vai direto ao ponto. Lembra que o Velho Mundo paga a conta de um Banco Central que fechava os olhos para o crescimento e tinha uma visão obsessiva pela redução da inflação. O resultado foi transformar a Europa num grande cemitério de empregos e esperanças. 

Não vamos nos enganar. O debate de 0,09% é político.

17 horas atrás

Ao perdedor, os tomates

por noreply@blogger.com (Miro)
 
 Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:

Os principais jornais de circulação nacional demonstram um entusiasmo quase triunfal pelas notícias sobre aumentos pontuais dos preços de certos gêneros alimentícios. Os índices anunciados no último mês realmente mostram um descompasso nos valores de alguns produtos, com especial destaque para o tomate, que se tornou até mesmo tema de anedotas nas redes sociais.

O movimento de alta produz sua consequência natural em qualquer economia: a queda nas vendas do varejo. A imprensa adora citar aquela frase famosa do estrategista do ex-presidente americano Bill Clinton, James Carville, anotada num quadro da sede da campanha eleitoral de 1992: “É a economia, estúpido”.

Na sexta-feira (12/04), porém, a reação natural dos consumidores faz os editores se esquecerem da lição contida na frase, justamente para fazer uso político de seu significado. O Globo e a Folha de S.Paulopareceram ter combinado. Com variação sutil, os dois diários anunciam em suas manchetes: “Alta de alimentos derrubavendas de supermercados”, disse a Folha; “Alta dos preços já derruba vendas em supermercados”, anunciou o Globo.

A análise da intencionalidade de uma frase, no caso das manchetes de jornais, virou brincadeira de criança, tamanha a falta de sutileza do texto jornalístico. Observem a leitora e o leitor, por exemplo, o uso do verbo “derrubar” em contexto que induz a certa dramaticidade, e, no caso do Globo, a inserção do advérbio “já”, de intensidade, que denota uma suposta antecipação da queda nas vendas do varejo, apresentada como fato incontornável.

O Estado de S.Paulo, que apesar dos pesares ainda preserva um texto mais elaborado, principalmente no noticiário econômico e no internacional, colocou o tema como anexo da manchete sobre custo da energia, mas repete o verbo impactante: “Alta de preços derruba vendas no varejo”.

O Valor Econômico, o principal jornal brasileiro de economia e negócios, posicionou o tema em contexto intermediário na primeira página, preferindo anunciar na manchete que o governo vai mudar regra de leilões no setor de energia. De qualquer modo, o jornal especializado faz uma abordagem mais serena da questão dos preços e, até por sua especialização, oferece uma leitura menos emocional dos fatos econômicos, anotando que a inflação deve desacelerar dos 0,47% em março para 0,45% em abril, caindo para 0,32% em maio.

A oferta e a procura

Por que, então, a histeria nos jornais chamados de genéricos, que compõem o “núcleo duro” da imprensa tradicional? Cada leitor dará uma sentença, conforme suas crenças e sua ideologia, mas podem-se fazer apostas baseadas na análise do discurso jornalístico.

Os três diários se concentram no fato de que houve uma retração anual nas vendas em fevereiro deste ano, comparando com o mesmo mês de 2012, mas destacam também a queda de 0,4% no comparativo mensal, entre janeiro e fevereiro deste ano, embora o bom jornalismo recomende evitar ponderações entre dados de contextos diferentes, que são influenciados por questões como sazonalidade, férias etc.

Seria aborrecido, complicado e inócuo fazer a releitura crítica de todos os textos, mas o leitor e a leitora atentos podem notar, em detalhes e no quadro geral, que a mídia tradicional parece festejar os números negativos da economia.

A imprensa brasileira, literalmente, “pisa no tomate”. Difícil é afirmar ou justificar suas razões. Mas há ocorrências que extrapolam até mesmo o senso básico, como no caso da pequena reportagem publicada pelo Estadão, na qual o repórter, a propósito de consolidar a ideia de uma carestia, apresenta o seguinte título: “Oferecer churrasco? Só para quem pode” – e segue uma tentativa de quantificar quão mais caro ficaria fazer um típico almoço brasileiro nestes tempos.

A reportagem, quase em tom de blague, começa afirmando que, “tirando a carne, que, em 12 meses, subiu 3,1%, bem menos que os 6,6% da inflação oficial…” e por aí vai. Ora, se o item predominante no churrasco é a carne, e o preço da carne subiu bem menos que a inflação, a reportagem morreu aí: na verdade, o churrasco está mais barato hoje do que no ano passado – os demais itens alinhados no texto, como o tomate, a farinha, o vinagre e outros ingredientes secundários, dos quais se usa pouca quantidade no churrasco, tiveram aumento de preços, mas seu peso no custo do almoço será relativo. Ou alguém pensou em fazer churrasco de tomate?

Pode-se, então, concluir que o interesse principal do conjunto noticioso, desde a manchete até essa reportagem, está viciado pela intenção de origem: apostar na deterioração da economia brasileira.

Aliás, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) avisa que os preços de alimentos subiram no mês passado em todo o mundo, mais que o dobro do que no Brasil, por conta de problemas climáticos, mas a tendência é melhorar ao longo deste ano.

Além disso, é de se perguntar o que há de tão insólito: se as mudanças climáticas afetam a agricultura, ou se a indústria de agrotóxicos quer vender novas drogas, se não houve investimento, ou seja lá qual for a causa do aumento de preços do tomate, trata-se da velha lei da oferta e da procura. Numa sociedade saudável, a reação natural é essa mesmo: ficou caro, não se compra.

Cai-se, então, na tentação de repetir a frase que a imprensa adora: “É a economia, estúpido!”

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