Movimento contra a homofobia no futebol começa em BH e se espalha pelo país

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Página do Galo Queer no Facebook conta quase 4 mil pessoas

Felipe Prestes

Uma página criada por torcedores do Atlético-MG foi o início de um movimento que pode ser o início do fim da forte homofobia que permeia o futebol brasileiro, dos cânticos das torcidas à perseguição de jogadores supostamente homossexuais. Nesta terça (9), um grupo de atleticanos criou a página do Galo Queer no Facebook, que diz ser “o movimento anti-homofobia e anti-sexismo no futebol dos torcedores do Atlético Mineiro”.

Mais de 3,6 mil pessoas curtiram a página até a tarde desta sexta (12). A repercussão também foi grande fora das redes sociais, tornando-se notícia em diversos veículos de comunicação. Além disto, torcedores de outros grandes clubes do país também estão criando páginas e se organizando pela causa. Torcedores do rival do Atlético-MG, o Cruzeiro, foram os primeiros a aderir e sua página já tem mais de 1,4 mil curtidores. Já há páginas de pelo menos outras quatro torcidas até o fechamento desta matéria: CorinthiansPalmeiras, Grêmio (duas páginas:http://goo.gl/t2hld e http://goo.gl/hXc0U) e Internacional.

“Sou atleticana desde que me entendo por gente, mas recentemente comecei a estudar gênero e teoria feminista e, por isso, da última vez que fui ao estádio, fui com um outro olhar, e fiquei muito incomodada com a homofobia e o machismo generalizados e naturalizados por todos, mesmo por parte de pessoas que, fora do estádio, têm outra  postura em relação à diversidade, uma postura de respeito. Dessa angústia surgiu a ideia de fazer um movimento e várias pessoas gostaram da ideia e se juntaram a ele”, conta uma das organizadoras do Galo Queer.

Ela prefere não se identificar, porque além da repercussão positiva, também houve torcedores do Atlético-MG que não lidaram bem com o tema. Já foram feitas, inclusive, ameaças. “A repercussão surpreendeu muito. Fiz a página apenas para divulgar entre meus amigos, pensando que algum dia poderíamos nos organizar pra fazer algo maior. Acho que atendemos a uma demanda silenciosa. Pelo visto, muita gente que gosta de futebol já queria dar esse grito contra o machismo, a homofobia e a intolerância. Infelizmente, houve também muita repercussão negativa, mas isso já era esperado, já que estamos mexendo em um terreno muito machista e conservador. O problema são as ameaças que estamos recebendo. As pessoas se oporem ao movimento é totalmente aceitável, mas ameaças não. Se continuar assim, teremos, infelizmente, que denunciar à polícia”.

Na página do Galo Queer, torcedores registraram que foram expulsos da torcida organizada Galo Toora por apoiarem o movimento contra a homofobia. Um deles, inclusive, era fundador da torcida organizada. Por outro lado, a diretoria do Atlético-MG manifestou, em reportagem feita pelo Globo Esporte, que é “a favor de qualquer iniciativa que venha a combater todo tipo de preconceito”. “Ainda não entramos em contato com a Diretoria do time, por falta de tempo mesmo, mas pretendemos entrar. Ficamos sabendo, no entanto, através da reportagem, que a Diretoria é favorável ao movimento e ficamos muito felizes de ver que o nosso time tem essa postura de respeito à diversidade e combate ao preconceito”, afirma a organizadora do Galo Queer.

Para a atleticana, o futebol hoje é uma “arena de exceção” onde o preconceito e a intolerância são permitidos. “O sexismo e a homofobia no futebol são gigantes e temas totalmente intocados. Enquanto existirem essas arenas de exceção onde o preconceito é permitido, o preconceito e a intolerância nunca acabarão. Discutir machismo e homofobia no futebol é uma questão urgente”, afirma.

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“Houve uma abertura para as torcedoras, mas na questão da homofobia nos estádios não se avançou um centímetro” | Foto: SC Internacional

Queremos levar a discussão até as arquibancadas, afirma criador de página do Inter

O sociólogo Diego Dresch, que foi um dos criadores da página do Internacional, cujo nome atual é QUEERlorado (pessoas que aderiram sugeriram outros nomes, como Colorido), conta que a ideia surgiu depois de ler sobre a Galo Queer. “Tive uma conversa com uma amiga colorada que também debate temas como homofobia e sexismo, é mestra em gênero, e concluímos que está na hora de iniciar esta discussão no Internacional”.

O objetivo inicial, de acordo com Diego, é fazer com que a página ganhe visibilidade (até o fechamento desta matéria 200 pessoas tinham curtido) e estimule o debate. Num segundo momento, é fazer com que chegue às arquibancadas, embora ele esclareça que não se trata de uma torcida organizada. “A página é uma ferramenta para o debate, não um fim. Queremos levar esta discussão até onde pudermos. Vamos tentar levá-la às arquibancadas, a começar por discutir os cantos homofóbicos, e também dialogar com a direção, para que sejam feitas campanhas”.

O sociólogo acredita que a questão da presença feminina nos estádios evoluiu bastante, ao contrário da homofobia, em que não houve qualquer avanço. “Até o final dos anos 1990, as mulheres ainda eram hostilizadas quando iam aos estádios. Houve uma abertura para as torcedoras. Infelizmente, na questão da homofobia nos estádios não se avançou um centímetro. Ainda é o principal tema dos xingamentos a adversários”.

Diego acredita que a discussão nos estádios pode influenciar bastante o combate à homofobia na sociedade como um todo. “É um micro-espaço em que diferentes camadas da sociedade estão representadas. Há pessoas de diferentes classes sociais, regiões da cidade e até do estado. Então, se você for fazer uma campanha contra a homofobia na zonal sul de Porto Alegre, por exemplo, você vai falar apenas para as pessoas que vivem lá. No estádio, não terá esta limitação”, exemplifica.

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Fac simile da edição 681 da Revista Placar, de 10 de junho de 1983

Torcidas gays no Brasil acabaram sendo vítimas da homofobia

Os atuais movimentos não são torcidas organizadas. Ainda assim, vale recordar que o país já teve torcidas formadas por gays. No final dos anos 1970, surgiram a Coligay, do Grêmio; e a FlaGay, do Flamengo. A primeira delas foi a do clube gaúcho, que apareceu pela primeira vez em um Grêmio x Santa Cruz pelo campeonato estadual, em 9 de abril de 1977, segundo a Revista Placar.

Um grupo de torcedores gays que há muito tempo frequentava o Estádio Olímpico decidiu formar a torcida. Segundo a revista, eram cerca de sessenta torcedores. O nome Coligay derivava da boate Coliseu, que era frequentada pela comunidade LGBT. A torcida virou motivo de piadas homofóbicas por parte de torcedores do Internacional, o que ajudou a gerar uma repressão velada de torcedores gremistas e da direção do clube. Assim, a torcida não durou muito, embora tenha ensaiado voltar nos anos 80.

A FlaGay foi criada em 1979 e também durou poucos anos nos estádios, embora oficialmente ainda exista. Em 2003, após 20 anos fora das arquibancadas, o presidente da torcida, Raimundo Pereira, anunciou o retorno do grupo. Entretanto, a Associação das Torcidas Organizadas do Flamengo (AtorFla) ameaçou barrar a FlaGay. “Pode chamar de discriminação, mas não aceitamos ‘viadagem’ na nação rubro-negra”, disse à época José Carlos Peruano, então presidente da AtorFla. A torcida também recebeu ameaças de skinheads e acabou desistindo do retorno.

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