A BANALIZAÇÃO DO “MAU GOSTO” E DA POLÊMICA

por Alexfig
 
 
Por Alexandre Figueiredo

A tal “ditabranda do mau gosto”, incapaz de trazer algo relevante para a cultura popular, tenta se promover através de falsas polêmicas, como se quisesse fazer Contracultura num copo d’água.

Dois episódios marcaram o brega-popularesco e a vulgaridade feminina, num confronto entre os contextos da intelectualidade e da chamada “cultura de massa”, onde os pretextos de “provocação” e “polêmica” são usados para defender a cafonice como algo “triunfantemente vanguardista”.

Um é a escolha de uma turma de estudantes da Universidade Federal Fluminense, de Niterói, que decidiram ter a funqueira Valesca Popozuda como patronesse de sua formatura. Normalmente, nas formaturas, se escolhe um patrono ou patronesse de uma turma a partir de celebridades acadêmicas. A turma escolheu Valesca Popozuda por representar a “baixa cultura” e a “cultura de massa”.

O grupo fez o curso de Estudos de Mídia da UFF cuja caraterística, em tese, é de “estudar novas tendências, mídias e movimentos culturais”. Os professores não se opuseram a iniciativa e até apoiaram. E, pelo jeito, a Fundação Ford, que investe na instituição e é historicamente ligada à parceria com intelectuais neoliberais como Fernando Henrique Cardoso, adorou mais ainda.  

Para piorar, a própria funqueira começou a exibir pretensiosismo ao declarar-se surpresa com a homenagem”: “Acredito que dará um ótimo estudo! Tenho certeza que eles irão explorar o fato de eu ser mulher, trabalhar com funk, falar de forma liberal sobre o sexo e ser feminista”.

Que “feminismo” defende a tal Valesca Popozuda é um mistério, uma vez que ela, na verdade, está associada a um universo machista enrustido, marcado pelas mulheres-objetos e que, associado ao “funk carioca”, investe num simulacro de ativismo que não possui qualquer fundamento.

Outro episódio foi o “encontro” entre o diretor teatral Gerald Thomas – conhecido por suas temáticas “pós-modernas” –  e a recém-regressa integrante do Pânico da Band, Nicole Bahls, outro símbolo das mulheres-objetos.

Gerald estava na sessão de autógrafos de seu livro Arranhando a Superfície, quando Nicole chegou para entrevistar o diretor. Devido ao “generoso” vestido azul da moça, Gerald agarrou a moça e enfiou a mão por baixo do vestido. Nicole tentou resistir, mas só depois Gerald parou o assédio. Enquanto Nicole declarou, depois, que ficou “muito triste” com o episódio, o diretor afirmou que gostaria de gerar um filho com ela.

ESGOTAMENTO POP 

Assim como no caso da patronesse funqueira, o “mau gosto” tenta forjar polêmicas para dizer que é avançado. Não é. No Brasil soterrado pela breguice cultural que é apoiada até por intelectuais dominantes a serviço (por eles não-assumido) da ditadura midiática, os valores da cultura pop são bastante desgastados.

A impressão que o brasileiro médio tem do brega-popularesco é que ele é a última definição do pop mundial, que inclui elementos pós-modernos associados à polêmica e ao liberalismo comportamental. Só que, numa observação mais cautelosa, esse repertório de comportamentos e atitudes “modernas”, que se alternam com outros mais “tradicionais”, são coisas muito gastas pelo pop lá de fora.

Se o Brasil se acha numa posição “de ponta” na cultura pop e nas vanguardas pós-modernas, então lhe falta discernir melhor as coisas. Afinal, a banalização do “mau gosto” e da polêmica esvaziam qualquer sentido de rebelião realmente provocativa, já que no nosso país as diferenças entre o “novo” e o “velho” não se encontram muito claras, sobretudo em expressões derivadas do brega.

O “sexismo pós-moderno” de Gerald Thomas sobre o falso feminismo “indefeso” de Nicole Bahls nada traz de realmente revolucionário. É apenas um exagero machista de um diretor “pós-moderno” e um exagero machista de uma paniquete exibir o corpo a toda hora, “sensualizando” na marra. Tinha que dar nesse resultado todo, mesmo.

Da mesma forma, nada existe de revolucionário ou transgressor estudantes universitários escolherem uma funqueira (que por sinal sintetiza a grosseria de Tati Quebra-Barraco e a vulgaridade de Carla Perez dos primórdios do É O Tchan) como patronesse de sua formatura.

O status quo acadêmico não foi abalado e o “funk carioca” nunca incomodou o “sistema”, sendo um ritmo que cresceu com o apoio das Organizações Globo, que juntamente com o Grupo Folha construiu esse discurso falsamente ativista para o gênero.

Portanto, que “estudos de mídia” são esses que tão somente reafirmam o estabelecido? A atitude de escolher Valesca Popozuda como patronesse, na verdade, nada tem de anti-convencional. O “sistema” adora essas falsas transgressões, bem mais inócuas do que se imagina.

Num país em que antigos símbolos de modernismo cultural hoje remanescentes, de Ferreira Gullar a Marcelo Tas, descambaram para o direitismo ideológico, é bom desconfiar desses episódios falsamente transgressores. O mercado está rindo daqueles que viram alguma rebelião popular surgir nesses dois episódios, o da UFF e o do Gerald thomas, mas ela não aconteceu.

Em compensação, o “deus mercado” e os barões da grande mídia estão felizes, com essas duas manifestações de puro sensacionalismo, que mantém a imbecilização cultural intata e inabalável.

5 horas atrás

GLOBO APOSTA EM “FUNK” E AXÉ REAFIRMAR SEU PODER

por Alexfig
 
 
Por Alexandre Figueiredo

Enquanto, no âmbito jornalístico, as Organizações Globo tentam reafirmar seu poder às custas dos processos judiciais movidos por Ali Kamel, a Rede Globo, principal braço da emissora, mais uma vez aposta no “funk carioca” e na axé-music como forma de reforçar seu poderio no ramo do entretenimento.

Pode parecer rotina, mas tais manobras sempre são acionadas pela rede, que também empurra seus astros televisivos feito gado para apreciar ídolos emergentes do brega-popularesco, como Thiaguinho e MC Naldo, com plateias lotadas de atores de prestígio.

Agora a emissora, depois de tanto tempo, trocou a voz do tema do seriado A Grande Família, gravado pelo sambista Dudu Nobre, pela versão da mega estrela da axé-music Ivete Sangalo, contrariando a herança que o falecido cepecista Oduvaldo Vianna Filho deixou para a emissora, por ele ter sido o criador da série original de 1973. Dudu Nobre estaria mais de acordo com a proposta de Vianinha.

Na referida versão, Ivete, evidentemente, eliminou o clima noelroseiro que Dudu procurou assimilar e inseriu uma tropicalidade americanizada para turista ver. Ela começou até bem, cantando a estrofe docemente, mas arriscando em maneirismos vocais que a baiana não tem, o refrão é cantado num falsete forçado que cria um sério contraste com o vocal que ela deu na estrofe.

Desse modo, a voz de Ivete brigou mais do que a “família unida que briga por qualquer razão”, mostrando que sua reputação é muito mais fruto de marketing do que do talento em si. Ivete não é má cantora, mas possui limites vocais, e quando ela tenta ultrapassá-los, desafina, como nos agudos da música “A Lua Que Eu Te Dei”, composição de Herbert Vianna.

Quanto à postura, sabe-se que Ivete Sangalo é oportunista e, de forma bem piorada que Caetano Veloso, tenta vincular sua imagem a tudo quanto é música brasileira, boa ou ruim, seja de qualquer ritmo. Se julga a “dona da MPB”, o que lhe valeu uma unanimidade forçada sustentada à custa de troleiros oficiais que espalharam terror pela Internet em defesa alucinada da cantora baiana.

No resto da axé-music, uma reportagem do portal G1 mostrou um rapaz fanático por micaretas, desses que gastam muito dinheiro para assistir aos ídolos da axé-music em várias partes do país, numa clara propaganda para fazer os foliões competirem com ele nesse ritual consumista em que a “alegria” é reduzida a uma mera mercadoria sem verdadeira relevância, já que os fãs de axé-music, uma vez criticados, se irritam facilmente. 

Já o “funk carioca” promete mais uma novela como propaganda, desta vez Sangue Bom, que substituirá Guerra dos Sexos, que obrigará até mesmo a Ellen Rocche rebolar até o chão, ela que está se esforçando como atriz. Afinal, o “funk” parece ter sido criado pelas Organizações Globo, tal a presença em seus veículos, em que pese a choradeira de intelectuais que dizem que o ritmo é “discriminado pela grande mídia”.

Embora todo o “funk carioca” receba todo o apoio protetor dos irmãos Marinho – os filhos do “doutor” Roberto – , já dá para perceber que as apostas mais recentes estão no “funk melody”, considerado “mais família”, a julgar pelos investimentos que são feitos para a popularização de MC Naldo e MC Anitta, esta uma solução de emergência para substituir a religiosamente convertida MC Perlla.

Os dois são construídos da mesma forma que qualquer ídolo do hit-parade norte-americano, com todas as estratégias de marketing possíveis. Não são artistas na concepção verdadeira do termo, mas o que nos EUA se chama de entertainers, atrações comerciais ligadas ao espetáculo lúdico de juntar coreografias, playback, tecnologia e factoides na imprensa de celebridades.

Faz sentido. Como grande corporação da indústria do entretenimento, a Globo não iria deixar de promover tais ídolos dessa forma, junto à indústria fonográfica. A grande mídia e as grandes gravadoras continuam expressando seu poder, querendo substituir, na marra, a cultura popular pelo hit-parade, evitando assim a verdadeira emancipação das classes populares. “É a grande mídia, estúpido!”. E o “deus mercado” ainda não morreu.

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