Marco Feliciano ou Renan Calheiros? Isso é escolha que se faça?

por literatortura
 

 

Por Cecíclia Garcia,

Sim, sim. Feliciano já é um caso quase batido – mas nada abate o homem, que é mais firme que muito presidente por aí.  É praticamente impossível frequentar certos círculos – como a internet – e não ver comentários de repulsa a ele. No entanto, o que salta aos olhos é a existência de um discurso reacionário, que condena os protestos que são feitos com base no mote “Feliciano ainda não fez nada/Isso foi feito de propósito para as pessoas esquecerem o Calheiros”. A pena que me dá é o fato de vivermos uma realidade tão apodrecida e murcha no Brasil em que sente-se a necessidade de escolher contra qual mal lutar, como se fosse impossível combater mais de uma injustiça ao mesmo tempo.

Renan Calheiros ainda está na presidência do Senado? Sim! Isso é ultrajante? É claro que sim. Ele é um corrupto daqueles descarados e continua mamando dinheiro público e usando o povo como um tipo de piada pessoal. Ninguém gosta de sofrer este tipo de “bullying”. O que me preocupa é o discurso que existe – online, na rua, na chuva, na fazenda, sempre – de que Marco Feliciano é só alguém “inconveniente”. Ora, acho que, neste caso, cabe relembrar:

  1. Uma mulher que defenda (ou simplesmente pense que ele é o “menor” dos problemas) Feliciano deve, imediatamente, sair da faculdade ou renunciar seu cargo no trabalho. O caro deputado declarou que mulheres no mercado de trabalho aumentam o homossexualismo, não são de Deus e etc.
  2. Um negro ou gay que tenham o mesmo tipo de postura de “não se deixar afetar por ‘isso’ quando tem tantas outras coisas mais importantes acontecendo” precisam saber que contam com a misericórdia de Feliciano que os atenderá “como se fossem pessoas normais” – coisa que, lexicalmente analisando, ele entende que não são
  3. Um brasileiro que reduza Feliciano a um mero problema ideológico precisa torcer pra não ter mulher empregada, nem negros nem gays na família. Do contrário, não dá pra contar com Feliciano.

Da mesma forma que um Senado presidido por um corrupto é uma palhaçada, um Estado que se diz laico ter um pastor homofóbico, racista e sexista cuidando dos Direitos Humanos é motivo de risada. É um retrocesso na busca pela igualdade e é exatamente por saber da quantidade de pessoas que acham que o ideológico é só questão de opinião que certas ideologias, como as dele, têm espaço.

Culturalmente falando, somos representados por alguém guiado por valores fanáticos e seletores. É isso que somos? Além de sermos enganados por políticos, somos ainda insensíveis às minorias e suas necessidades – mesmo quando essa minoria já constitui parcela considerável na população? Alguém que afirme em uma rede social que a AIDS é o câncer gay, que negros são descendentes inferiores e que mulheres se tornam lésbicas ao buscarem seu espaço no mercado de trabalho é realmente um problema inferior a Mensalão, Cachoeira e Calheiros? Ora, e mais ainda, alguém que não cede à nenhum tipo de pressão ou protesto, por qualquer suporte ou instância, e deixa escancarada a sua falta de bom senso pode sair dessa impune por que “professores ganham mal, hospitais estão caindo aos pedaços, etc.?” Não! É claro que não! Feliciano é mais um problema a ser combatido, sim! Ele ofende a democracia de todas as formas possíveis, assim como todas as outras agressões que sofremos. Ele não é mais ou menos relevante: ele é tão pauta quanto qualquer outro político mal-eleito de Brasília.

É um vício típico de “brasileiro-classe média” ficar de braços cruzados reclamando que “beijaço é só farra”, “protesto online é uma droga” e que “Feliciano não é nem tão ruim assim, ruim mesmo é o ônibus lotado que eu pego todo dia”. Não é questão de um protesto ser válido ou conseguir tirar Feliciano de lá – a questão é não legitimar o discurso podre do pastor. Beijaço global, Cauã Reymond com plaquinha, Jean Wyllys e Erundina protestando não deram certo, mas isso não invalida nenhum dos movimentos. Inválido é cruzar o braço e resmungar que tudo está uma droga, que aqui é só farra. Sabe por que acham que brasileiro é bagunça? Porque é só aqui mesmo pra ficar disputando qual é o pior problema ao invés de habilitar para lutar contra qualquer um deles.

 

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Cecilia Garcia é formada em Linguística pela Unicamp e pós-graduada em Jornalismo pela PUC-Campinas. Atualmente estuda Letras na Unicamp e tem convicção de que é através do debate que a cultura se expande e que a tolerância é a palavra-chave para repensar o mundo contemporâneo. Apaixonada por Literatura Inglesa, tem diálogos imaginários com Jane Austen – mas não é esquizofrênica, até que se prove o contrário.

 

 

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5 horas atrás

O Velho Charles Bukowski e seu Papel na Literatura;

por literatortura
 

 

Por Thiago Jorge,  Hoje é quarta-feira, o clima na cidade é sempre o de expectativa pela chegada eminente do fim de semana. Tenho alguns livros espalhados pela mesa. Vejamos… Bukowski, Bolaño, Alan Pauls e Vinícius; os de sempre! Preciso escrever uma dissertação para a aula de LP III. Já sei, vou escrever sobre o Bukowski. Pausa para uma pesquisa… Pronto, li algo a respeito. Mais sobre a opinião da crítica literária na época do boom da sua literatura. Sobre a óbvia comparação que fariam dele com Jack Kereouc – e que, por sinal, o velho Buk detestava. Afinal, a libertinagem dele era machista, enquanto que o discurso escatológico dos beets era mais liberal e seus temas prediletos eram viagens e o jazz, enquanto que Buk sempre preferiu a verdade do cotidiano da classe operária. A forma de encarar a vida é amarga nos contos de Charles. O sexo e a bebida são como fugas, simples e eficazes, de uma organização social hipócrita e de guerras marcadas pela busca implacável do poder. Tudo bem, a pesquisa surtiu efeito, mas é necessário escrever algo mais específico. Talvez sobre a escatologia na obra de Charles Bukowski, ou sobre o caráter autobiográfico de sua obra, ou até mesmo sobre a figura masculina e os tipos burlescos de suas personagens centrais. Não sei… A autobiografia expressa em sua obra me parece legal. Posso até fazer uma brincadeira e encarnar o velho Buk – velho safado! -, dando a entender que a dissertação é escrita por ele mesmo. Mas, não. Dissertar é coisa séria, é escrever e emblematizar todas as três fases do signo, como disse o doido do Pierce. E, afinal, isso aqui é um trabalho acadêmico. Aliás, Charles mandava o academicismo e a adequação ao modelo literário vigente às picas. Detestava rótulos! Posso escrever sobre isso também. Mas prefiro ir a fundo à questão, quero falar sobre ele, Buk! Sua poesia, contos e romances são sinceros. Para a maioria dos escritores, escrever é uma necessidade no sentido mais intenso que essa palavra possa expressar; como água no deserto após horas e horas de sede e calor! E isso se torna vivificante para o leitor despreparado que se depara com a obra de Charles Bukowski. Ele escrevia sem almejar status nenhum, escrevia porque, talvez, fosse necessário, para jogar panos quentes na sua solidão. Algo que, provavelmente, o álcool e as corridas de cavalo não faziam totalmente. É sobre a expressão de sua condição e veracidade de sua obra que quero falar. E, talvez, traçar uma perspectiva de autores mais sinceros, mais comprometidos com a verdade. Ficção é e sempre será uma alegoria, uma metáfora da alma humana. E o velho Buk fez isso como poucos. Vamos ao texto! (Sem pensar que já nessa divagação toda aqui acima possa ser, veja bem, possa ser que tenha dissertado).   A DISSERTAÇÃO Apresentação do tema: Charles Bukovski e o caráter autobiográfico de sua obra. A limpidez suja da sua condição expressa sem vírgulas e meias palavras.              Desenvolvimento I: A crítica, a opinião. O que normalmente se espera dos escritores. O que diziam de Charles. Literatura comercial.              Desenvolvimento II: O papel da literatura versus a expressão do autor, tentando realizar aqui um contraponto com os argumentos do Desenvolvimento I.              Conclusão: A coragem do velho Buk em ser autêntico diante de uma nova ordem social que clama por chavões que entronizem seus modelos consumistas de vida. O título vem sempre por último, sempre!          O Velho Buk e o papel da Literatura Tratar de literatura é sempre prazeroso, mas torna-se libertino e obsceno (com o perdão à possível redundância, mas libertinagem e obscenidade querem apenas se casar neste contexto) quando a referência é Charles Bukowski. E se torna um soco no pé do estômago quando encaramos a veracidade da sua obra, a sua falta de meias palavras e a sua truculência crua e inequívoca, que expressou muito bem toda uma classe, um grupo significante de pessoas, aqueles que ficam à margem. Os críticos de literatura, alguns, pelo menos, querem elencá-lo ao lado de Kereouc e os beat’s, justamente por conta do jeito despojado de escrever, da bebida, a sensação de escória que o submundo descrito pode proporcionar ao leitor. Aliás, Bukowski passou muito tempo para ser descoberto, para ter a sua literatura aceita. Muito por conta de dois fatores: o primeiro é que a elite quer arte e inovação e excelência na norma. Outra, porque cresce, desde o pós guerra o interesse em livros comerciais e em literatura de auto-ajuda. E, nesses dois aspectos, o velho Buk em nada pode contribuir, segundo os críticos. O que se espera dos escritores são os traços estilísticos, a construção narrativa, um tema atual e aplicável à sociedade e, claro, o lucro. Isso nos faz pensar, em contrapartida, no papel da literatura. Lembremos aqui da entronização de Homero que, com literatura, trouxe a luz da metáfora para a construção do pensamento filosófico na antiguidade clássica. Charles nunca se preocupou com o academicismo, nem com a escola literária vigente, nem com os novos meandros estilísticos da literatura. Preocupou-se apenas em expressar, em descrever algo que fosse seu, que lhe pertencesse. Ambiente que se aproxima de outros dois autores, também norte americanos, Henry Miller e John Fante – escritores do submundo. Outra parte da crítica traça Charles como o escatológico, o machista, o anarquista, o politicamente incorreto. Seria correto afirmar tais adjetivos, mas até onde podemos adjetivar em se tratando de literatura? Devemos, sim, exaltar o velho Buk e sua coragem e nos perguntarmos, como ele quem é que deu a referência para sermos taxados de loucos. O submundo existe, bem como a exaltação à opulência e o incentivo à conduta consumista. Charles Bukowski sempre esteve à margem disso, e a sua literatura expressou, informou o mundo disso! O caráter autobiográfico de Bukowski existe em todos que se propõem à escrever ficção, porque as palavras não se dissociam dos dedos do autor e nem de suas experiência. Talvez, em Bukowski, devamos repensar o papel social e artístico da literatura.

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Thiago Jorge, nascido em 21 de fevereiro de 1989, é estudante de Publicidade e Propaganda  e redescobriu a literatura ao emprega-la nas técnicas de comunicação. Ele tem um blog (crueviscoso) onde resenha sobre literatura e arrisca alguns contos malogros. Acredita que quem ama leitura necessita, como água e comida, escrever.

 

 

 

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