A DIREITA CHORA POR THATCHER

por Betho Flávio
 
 

 

Paulo Moreira Leite

Thatcher e a direita “de verdade”

Nosso complexo de vira-lata é tão grande que já surgiram cronistas conservadores para lamentar que Margaret Thatcher não era brasileira.

O argumento é dizer assim: “Ah, aquilo sim é que era uma pessoa de direita… Não tinha escrúpulos nem queria se fazer de moderada…”

Conclusão: o Brasil é tão ruim e tão atrasado que nem possui uma direita que preste…

É uma reação característica. Pensadores importantes já chegaram a lamentar que, durante o império de Pedro II, nossos liberais não eram verdadeiros liberais porque conviviam pacificamente com a escravidão. Diziam que a prática não combinava com a teoria, que as ideias estavam fora do lugar.

É chique, é sofisticado. É complexo, como está na moda dizer, em Higienópolis e nos Jardins, mas é errado.

A verdade é que as noções políticas raramente estão fora do lugar, como lembrou o professor Venício Lima, em debate recente.

Não custa lembrar uma realidade até banal: ideias não são realidades com vida própria que saem dos livros para a vida concreta, nem obra de pensadores em seus escritórios high-tech, mas instrumentos que servem à luta social de homens e mulheres.

Quem estava fora do lugar eram nossos comentaristas e observadores, que enxergavam um liberalismo idealizado, postiço, ideológico – sem base na realidade. Construíam um mundo imaginário, procurando adaptar a realidade a seus pensamentos.

Deixando de lado casos patológicos e datados, a direita brasileira nunca teve a fisionomia de Thatcher por que sua realidade era diferente. O programa conservador britânico tinha uma função: quebrar o bem estar social, reduzir os direitos dos trabalhadores e destruir instrumentos do Estado para regulamentar a selvageria da economia de mercado. O objetivo era eliminar as instituições que permitiam ao Estado controlar os impulsos irracionais da economia de mercado, que haviam gerado a crise de 1929, efetivando políticas de garantia de crescimento e proteção do emprego que duraram mais de 30 anos.

Num resumo simplificador, pode-se dizer que, com menos Estado, Thatcher pretendia concentrar a renda com o argumento que seria uma forma de estimular o investimento, inclusive externo, e criar empregos. Pagando salários menores e oferecendo menores garantias, os empresários teriam maiores estímulos para investir, dizia o thatcherismo. Para tanto, era preciso eliminar os sindicatos, que garantiam uma jornada de trabalho mais suave, com pausa para o chá, vencimentos razoáveis e um sistema de saúde pública com uma eficiência sem igual no mundo desenvolvido.

Importando o debate para o Brasil, a pergunta é: como se poderia fazer isso, num país que já construiu, espontaneamente, digamos assim, uma das sociedades mais desiguais do planeta, onde ainda no início do século XXI se denuncia a existência de formas atualizadas de trabalho escravo?

Como fazer um programa extremo numa realidade já por si extrema?

Não havia e nunca houve um Estado de bem-estar no Brasil, motivo pelo qual não poderia surgir uma direita thatcherista, movimento de caráter regressivo. Havia  fantasmagorias, como a República Sindical e a ameaça subversiva que a imprensa adorava denunciar em 64.

Mas o programa do golpe tinha um caráter preventivo, destinado a impedir mudanças que nem sequer haviam ocorrido ou se encontravam apenas em gestação muito inicial.

A desigualdade e o atraso eram tão grandes que Washington impôs ao governo de Castello Branco um compromisso de realizar a reforma agrária – que jamais saiu do papel, evidentemente, mas pode ser visto como uma demonstração do abismo social absoluto em que o país se encontrava.

Do ponto de vista da direita, não havia o que mudar. Havia o que conservar.

A situação é diferente, hoje. O modestíssimo mas real conjunto de políticas de distribuição de renda e melhorias sociais iniciado no país a partir da década passada colocou de pé um sistema de garantias e proteção social que, mesmo minúsculo em relação às necessidades reais, já é considerado insuportável pelos barões históricos.

Nos últimos anos eles se dedicam a construir templos de oração aos economistas da chamada escola austríaca. Inspiradores de Margaret Thatcher, eles consideravam os Estados de bem estar social como a antessala do comunismo.

Nossos conservadores assinam manifestos radicais, escrevem livros de baixo conteúdo e alta sonoridade. Seus autores mais ativos têm espaço garantido na maioria dos meios de comunicação. Combateram a política de cotas, denunciaram o Bolsa-Família como estímulo à preguiça, condenam o juro baixo e, quando não pega mal, já se mostram preocupados com o desemprego baixo e o salário mínimo alto.

Revelando compromissos superficiais com a democracia, questionam a ocorrência de tortura durante a ditadura e sempre dão um jeito que dizer que o golpe de 64 evitou um mal maior…

Não é preciso se impacientar, minha gente. O thatcherismo está vindo aí.

Depois de ajudar a forjar a crise que desabou em 2008, mantém-se no controle dos governos europeus, que aplicam programas de destruição de conquistas dos assalariados e da população pobre construídos no pós-Guerra.

Resta perguntar por seus compromissos democráticos.

A dificuldade da direita brasileira em apresentar um candidato para 2014 reside aí. Ela tem vários nomes à disposição. Também sabe, muito bem, o que pretende fazer, caso retorne ao Planalto.

Só não sabe como fazer isso por meio do voto. Este é o ponto em que a vida real se encontra. A população tem deixado claro, a cada levantamento, que aprova o que está aí e não vê razão para mudar.

Se o ambiente permanecer assim, a disputa do ano que vem aponta para a quarta vitória consecutiva de Lula e Dilma.

Os antecedentes do thatcherismo, nos países ao sul do Equador, chegam a ser horripilantes.

Falando sério. Apenas uma visão seletiva e instrumental de democracia explica o apoio absoluto a Augusto Pinochet, que Thatcher assegurou até o fim dos dias, inclusive quando todos os crimes da ditadura chilena se tornaram conhecidos – e se descobriu até que o general havia acumulado uma imensa fortuna clandestina em casa.

Nostalgia? Incoerência?

39 minutos atrás

Manoel de Barros

por Betho Flávio
 

 

O rapaz e a carroça 2

MANOEL DE BARROS

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que

eu sei.

Meu fado é de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as

insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado e chorei.

Sou fraco para elogios.

2 horas atrás

Loja ‘Black Store’ vende vírus e hospedagem para fraudes

por Betho Flávio
 

 

Servidores de DNS e programação personalizada também estão à venda.

Modalidade de e-commerce entre criminosos é conhecida como C2C.

Este é o primeiro texto de uma série sobre o cibercrime brasileiro.

Tudo o que um cibercriminoso novato ou inexperiente precisa para começar na “profissão” é dinheiro, nada mais. Não é necessário conhecimento técnico. Isso porque os criminoso mais experientes oferecem “serviços” ou mão de obra especializada que os novatos podem comprar ou alugar. Até então a “venda” desses serviços era limitada a contatos pessoais feitos em canais IRC, porém a demanda por tais produtos tem levado vários cibercriminosos brasileiros a criar sites de e-commerce onde eles vendem esses produtos e serviços para novatos no cibercrime.

Essa modalidade de venda é chamada de C2C (cybercrime to cybercrime), numa alusão às siglas B2C1 (bussines to consumer) e B2B2 (business to business).

A existência desses serviços apontam para a profissionalização e especialização do cibercrime brasileiro, seguindo os mesmos passos do crime organizado visto em outros países, especialmente no leste europeu. Nessa linha já foi noticiado um serviço de “SPC” dos criminosos, uma base de dados onde os maus pagadores eram listados, um sistema de reputação para evitar o “lote” (calote).

As lojas do cibercrime são públicas, o que demonstra a certeza de impunidade dos seus criadores, onde os “produtos” são oferecidos com descrições detalhadas, vídeos explicativos, com a possibilidade de suporte para os compradores.

Black Store

Mercadorias da Black Store

Blackstore - Crypto

Black Store - DNS

Crypter, para programadores de vírus, promete deixar a praga digital indetectável por antivírus.

Serviço de DNS para redirecionar internautas. Custa R$ 5 mil.

Black Store - Hospedagem

Black Store - Java Applet

Hospedagem de arquivos maliciosos e páginas falsas, contando também com a possibilidade de envio de spam (o ‘inbox’).

Site vende o sistema mais utilizado de infecção, por Java, por R$ 80.

Viral Facebook

Black Store - Spam VPS

Por R$ 70, criminoso pode disseminar praga pela rede social.

Por R$ 70 é possível obter um servidor pronto para o envio de até 400 mil e-mails por hora.

Black Store - Testador de Cartão

Black Store - Programação

Para quem pratica fraude de cartões, software testador é vendido por R$ 400.

Serviço de programação personalizado sai por R$ 500.

A BlackStore está no ar há alguns meses. A loja vende serviço de suporte para os compradores, softwares, código fonte de ladrões de senhas bancárias,cryptors, serviços de hospedagem, e até o serviço de disseminação de códigos maliciosos via Facebook, chamado de “viral”. As compras podem ser pagas através de boleto ou depósito bancário.

Recibo da Black Store. (Reprodução)

Recibo de compra na Black Store. (Reprodução)

Para os interessados em códigos maliciosos as ofertas são diversas. Há um ladrão de senhas bancárias chamado de “KL 3″, que acompanha um painel de controle para gerenciamento dos dados roubados e estatísticas. Custa R$ 900,00. Applets em Java maliciosas são vendidas por R$ 80.

Para os “coders” — criminosos que programam seus próprios códigos maliciosos — há a venda de cryptors: softwares que realizam a criptografia dos programas maliciosos para deixá-los indetectáveis aos programas antivírus, ao custo de R$ 100. A hospedagem dos arquivos é ofertada por R$ 50 e tem “inbox liberado” — o que significa que o criminoso pode usar programas para envio de spam pelo servidor.

Mesmo que o criminoso interessado não tenha experiência em programação, há a venda de serviço de programação por R$ 500, como uma consultoria na criação de um trojan bancário.

Há ainda a oferta de produtos especializados para spammers interessados no envio em massa de emails maliciosos, seja via forms PHP (geralmente em sites que foram invadidos)  ou de serviços dedicados, chamados de VPS.

Um “viral” no Facebook pode ser adquirido por R$ 70, com direito a hospedagem de código malicioso.

Para os cibercriminosos especializados na clonagem de cartões de crédito, os “carders”, há a oferta de um software para testar os dados dos cartões roubados. O software é chamado de “Carder Test” e pode ser obtido por R$ 400.

Software para teste de cartão de crédito. (Reprodução)

Software para teste de cartão de crédito custa R$ 400. (Reprodução)

Software para teste de cartão de crédito. (Reprodução)

O objetivo do programa é determinar quais cartões já foram bloqueados. (Reprodução)

O produto mais caro oferecido pela Black Store é o serviço de DNS malicioso, ao preço de cinco mil reais. Após ter o computador infectado, os servidores DNS da vítima são mudados para um controlado pelo cibercriminoso, que pode assim coletar todos os dados trafegados pela máquina, fazer alterações nas páginas visitadas, injentando códigos como iframes ou scripts que modificarão o que é visto pelo navegador da vítima.

Para “vender” o serviço de DNS malicioso há um vídeo em que os responsáveis pela loja detalham o funcionamento do mesmo.

O projeto completo é vendido por 15 mil reais. O executável da infecção por 8 mil. Se o comprador quiser apenas a hospedagem das páginas falsas (geralmente de banco) pagará R$ 7 mil. Caso não esteja interessado na compra, há ainda a modalidade de aluguel: 2 mil reais por semana.

Após efetuar a compra há a emissão do recibo com os dados para o depósito bancário.

Continuaremos no próximo post mostrando outras lojas de e-commerce usadas pelo cibercrime brasileiro.

  1. Produtos e serviços para o mercado consumidor. 

  2. Produtos e serviços direcionados ao mercado corporativo. 

Via Linha Defensiva

3 horas atrás

FHC, O ENGANADOR

por Betho Flávio
 

Sofismas neoliberais

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Rodolpho Motta Lima

Sem medo de cometer injustiças, mas sempre no exercício livre da opinião, afirmo que Luís Fernando Veríssimo é o maior e melhor dos cronistas em atividade na mídia nacional, não apenas pelo sabor que imprime ao seu texto, mas também pela visão do mundo que revela, como alguém permanentemente atento à realidade e às suas estranhas – e muitas vezes perversas – contradições.

Estava aqui relendo uma crônica que ele escreveu em 24.03.2000 – lá se vão 13 anos – , intitulada “Silogismo”. Veríssimo tratava, então, de um posicionamento do governo tucano de FHC, que assegurava não poder dar aos trabalhadores um salário-mínimo que corrigisse as perdas de então, porque isso “comprometeria o programa de estabilização do Governo, quebraria a Previdência, inviabilizaria o país”. Era o mantra neoliberal daquela época, que rotulava de irresponsáveis e demagogos quem pensava o contrário.

Veríssimo argumentava, então, com o que denominou “um silogismo bárbaro”: se o salário-mínimo concedido não dava para boa parte da população viver dignamente e se não havia como mudar o panorama (na visão do Governo), uma parcela ponderável do povo estaria condenada “a uma subvida perpétua”, por força de uma política que, subserviente a interesses financeiros internacionais, fundamentava-se na miséria…

Essas e outras visões do pessoal tucano acabaram por desmascarar os milagres que então se apregoavam. Um deles: um “plano real” que era apresentado como produto genuinamente nacional – com direito a heróis e tudo mais – quando, na realidade, era uma necessidade/imposição do mercado globalizado, tanto que, em um passe de mágica, todas as economias de alguma relevância no planeta tiveram então a inflação estabilizada…

Os governos que se seguiram – fruto da saudável decisão popular nas urnas que, quando convém, os demotucanos esquecem – não chegaram a inverter , infelizmente, essa postura de subserviência a um mercado infame em que especuladores, empreiteiros e banqueiros ainda dão as cartas. Conseguiram, no entanto, medidas pontuais que, aqui e ali, estão atuando no sentido de diminuir a perversidade do sistema entre nós, com políticas públicas que apontam para a preocupação com os menos favorecidos. Estão aí as diversas “bolsas” que a direita tanto abomina (“Como podem gastar o meu dinheiro com esse bando de desocupados?”); está aí o sistema de cotas que provoca a ira pouco santa das elites (“Isso está estimulando o preconceito racial !”); estão aí, agora, os direitos concedidos às empregadas domésticas secularmente exploradas (“Mas isso vai provocar muitas demissões e um descontrole no âmbito familiar!”).

Não é preciso ser petista, lulista ou qualquer outro ista para perceber a diferença que existe entre o Brasil de hoje e o de então. E, invariavelmente, quando se tenta estabelecer esse paralelo, surge aquela pergunta orquestrada, para fugir do assunto: “Mas… e o mensalão?”.

A pergunta traz embutida, de modo subliminar, a tentativa de fazer vingar uma tese esquisita, beirando a paranoia : a de que o pessoal que se preocupa com as necessidades populares é essencialmente corrupto… A pergunta desconhece a história desse país, desde as Capitanias hereditárias, desconhece as folclóricas frases do “Roubo mais faço” de próceres paulistas, desconhece a corrupção no regime militar das obras faraônicas, desconhece (ou finge desconhecer) a Privataria tucana, o mensalão mineiro (também tucano); desconhece/esquece a nunca apurada, mas sempre denunciada, compra de votos para reeleição de um Presidente da República (o que equivaleu a quatro anos de poder e de manutenção de interesse econômicos que é fácil adivinhar…).

O perverso silogismo de Veríssimo volta a atacar, agora, sob nova roupagem, mas com os mesmos atores, diante de posturas e medidas governamentais. Se a Presidenta menciona que o mais importante para o país é a preservação e o incremento das conquistas sociais, as cassandras de plantão apontam para o “nervosismo do mercado”, que, “preocupado”, vê nessas palavras o perigo da “volta da inflação”… Uma chantagem, um estelionato ideológico, que a mídia comprometida repete à exaustão…

No momento em que o país atinge o menor nível de desemprego desde que ele é medido, esse dado, ao invés de ser tratado com o louvor que realmente merece, é sutilmente apresentado como “preocupante”, porque inibe a produtividade, vira custo para a indústria em função da valorização do empregado, “freia o PIB”, “trava o crescimento”. Ou seja, o pessoal neoliberal, coerente na sua perversidade, não muda mesmo. Para eles, o bom seria ter sempre à mão uma boa “reserva de mão de obra”, que alguns economistas de plantão a serviço dos exploradores chamam de “estoque”, reduzindo homens a coisas…

Felizmente, do lado de cá , o Veríssimo e sua visão do mundo também não mudam. E, como ele, pensam muitos dos cidadãos que, famosos ou desconhecidos, constituem o povo brasileiro. Se estivesse entre os vivos, Gonzaguinha responderia a esse pessoal que anseia pelo desemprego com os versos da sua composição “Um homem também chora”: “Um homem se humilha / Se castram seu sonho / Seu sonho é sua vida / E vida é trabalho / E sem o seu trabalho / Um homem não tem honra / E sem a sua honra / Se morre, se mata / Não dá pra ser feliz / Não dá pra ser feliz “.

VIA Democracia & Política »

3 horas atrás

Argentina: Depois das reforma política e da mídia, Cristina parte para mudar a justiça

por Betho Flávio
 

Do Café com Política

A Argentina, que já procedeu às reformas política e da mídia, consideradas das mais modernas (clique aqui para conhecê-las), desencadeou ontem a reforma da justiça, lá considerada muito aparelhada pelo poder econômico. Como também ocorre no Brasil, onde o governo leva de 10 a 20 anos para construir uma usina elétrica ou uma rodovia, e não consegue cobrar uma multa das empresas telefônicas, cujo montante estaria em torno de 15 bilhões de reais, por causa da guerra de liminares e da ação dos grandes escritórios de advocacia, na Argentina, a justiça entrou em guerra contra o governo.

Brindados com propinas, viagens internacionais e outros mimos, e incensados pelo (ainda) poderoso Grupo Clarín (jornais, rádios, TVs e internet), os juízes de variadas instâncias, vêm seguidamente embargando os atos presidenciais, o último dos quais foi a desapropriação do prédio da Sociedade Rural que abriga um parque de exposição do bairro Palermo, em Buenos Aires, cujo processo de desestatização, pelo governo Carlos Menem, em 1994, foi considerado danoso para o Estado. Antes, uma liminar já vinha impedindo há três anos e meio a aplicação de dois artigos da lei de Comunicação Audivisual (lei da mídia, ou dos medios, como se diz por lá), que quebra o monopólio midiático do Clarín.

 

Agora, um pacote de seis projetos de leis (nenhuma emenda constitucional), hoje encaminhados ao Senado e à Câmara, a presidenta Cristina Kirchner propõe a fixação em seis meses do prazo de duração das medidas cautelares contra o governo, aumenta de 13 para 19 o número dos membros do Conselho da Magistratura, responsável pela indicação e remoção de juízes, e torna obrigatória a realização de eleição popular para o preenchimento daqueles cargos. Outros itens obrigam os juízes a tornar públicas suas sentenças e declarações do imposto de renda, em site específico da internet.

Este projeto ainda impede práticas de nepotismo e corporativismo, pelas quais os secretários e sub-secretários, que se autonomeavam como magistrados, agora terão de fazer concurso. Todo novo postulante a um cargo no poder judiciário, deverá submeter-se a concurso, sem mais considerar o fato de ser integrante da chamada “família judicial”, como observou o jornal La Nación. Finalmente, pela reforma, os chamados juízes subrogantes, que assumem nos tribunais nos casos vacantes, não mais serão designados pelas respectivas Câmeras, e sim pelo novo Conselho da Magistratura.

O pacote, finalmente, cria três novas Câmaras de Cassação, última instância antes da Suprema Corte, destinadas a examinar casos no foro Civil e Comercial, Trabalhista e Contencioso Administrativo, que vão se somar à já existente em matéria penal. Seu o objetivo será desafogar a tramitação dos processos no Supremo, que tem levado anos para serem julgados.

Ao anunciar a reforma, denominada democratização da justiça, tendo ao lado o presidente do Supremo, Ricardo Lorenzettii, a presidenta Kirchner afirmou que as cautelares vinham interrompendo a aplicação de leis adotadas pelas autoridades (governo e Congresso) legitimamente eleitas”. Reiterou que o governo não é informado dessas liminares, que se espalham aos milhares pelas diversas instâncias, e que há sentenças em que implicaam perdas consideráveis para o Estado e que “fundamentalmente, têm se transformado em um grande negócio para os escritórios de advocacia”, segundo exemplificou.

4 horas atrás

Ex-presidente do BNDES sugere estatizar empresas de Eike Batista

por Betho Flávio
 

Segundo o ex-presidente do BNDES, empresário carioca é fruto de uma “bolha especulativa de proporções colossais”; como ele deve bilhões ao governo, deveria perder o controle de suas companhias, que seriam assumidas pelo setor público; Lessa, no entanto, afirma não saber se o governo “terá tutano” para fazer a coisa certa

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247 – Eike Batista está tecnicamente quebrado. Eike Batista deve bilhões ao governo e sua dívida está concentrada, sobretudo, no BNDES. Eike Batista, que ontem foi rebaixado por mais uma agência de risco, a Moodys, precisa de socorro oficial para não entrar em recuperação judicial. Qual a saída? Segundo Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, só há uma: estatizar as empresas do empresário carioca, que prometia ser o mais rico do mundo, fazendo com que ele saia definitivamente do controle de empresas como MMX, de mineração, e LLX, do logística.

“O governo deveria simplesmente estatizar o Açu e a mina de ferro para capitalizar a Vale com uma nova reserva e um novo porto para exportação”, disse Lessa à Agência Estado. “O grupo Eike foi criado por uma bolha especulativa de dimensões colossais. A estatização é uma solução bastante viável. Não debilita o BNDES, que é dono de parte das ações de controle da Vale, e aumenta a potência da mineradora no momento em que o mercado mundial assiste ela se enfraquecer cada vez mais diante da expansão da China”.

Outro economista, Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura, também condena o socorro do governo a Eike Batista. “O que não pode é a Petrobras colocar dinheiro em um lugar sem retorno, para ajudar uma empresa. Não é correto”, diz Adriano ele. “O grupo Eike é uma criatura do PT. Digo que a realização do PT no campo social é o Bolsa-Família. E no campo econômico, botar o Eike no pódio internacional das fortunas. A piada é muito boa, mas verdadeira. Doar mais dinheiro para o Eike? Sou contra. Só o porto não paga a dívida dele, não resolve o problema”, comentou.

4 horas atrás

“CQC” a velha máquina de humilhar

por Betho Flávio
 

 

Roberto Ferreira

Iscas mirins, repórteres dublês de humorista e câmeras escondidas são hoje as principais armas de uma onda de moralismo seletivo que domina as telas de TV, como no caso exemplar que envolveu o deputado José Genoino e o programa “CQC”. Mas há algo de mais profundo nessa onda moralizante do que o atual jogo de cena político-midiático. Por trás da onda de programas televisivos representado pelo “CQC” (programas, por assim dizer, “sensacionalisticamente corretos”) esconderia a própria natureza do funcionamento da indústria cultural que no passado pesquisadores como Adorno e Horkheimer tematizaram: a ritualização de uma espécie de correia de transmissão na sociedade onde “aquele que é duro contra si mesmo adquire o direito de sê-lo com os demais e se vinga da própria dor”. O sensacionalismo seletivo que prefere despejar toda indignação nos “pequenos” que desde o início já estão derrotados e condenados do que nos poderosos seria a ritualização de um prazer voyeurista e sádico do espectador.

O episódio que protagonizou o “repórter” mirim usado como isca para que o programa “CQC” (Custe O Que Custar da TV Band) arrancasse de José Genoino algumas palavras (ele se recusa a conversar com os dublês de repórter/humorista do programa) esconde algo de mais profundo. Condenado pelo julgamento do chamado “mensalão” e exposto extensivamente ao linchamento midiático como um caso exemplar da onda de defesa da moralidade que varre o país, há algo de simbólico na figura de um político acuado em sua sala no Congresso, a portas fechadas deixando entrar uma criança oferecida como isca a alguém isolado e, talvez, carente por simpatia – a criança se dizia filho de militante do PT.

O CQC pareceu querer requentar uma notícia já passada, “chutar cachorro morto”, tentar tripudiar em cima de uma figura já julgada e condenada por chicanas jurídicas e pelo veredito midiático. Em outras palavras, ofereceu para os espectadores alguém supostamente fraco e derrotado para o deleite público da humilhação.

O sintoma mais profundo por trás do episódio pode ser encontrado em uma onda de programas televisivos atuais que não são mais regidos pelo velho modelo dos programas sensacionalistas do passado como “O Povo na TV” ou “Aqui e Agora”. “Profissão Repórter” da TV Globo, “Brasil Urgente” do José Luiz Datena da Band, “Polícia 24 Horas” também da Band e o próprio CQC fazem parte de uma tendência que, poderíamos chamar, de “programas sensacionalisticamente corretos”: aspiram a ser um canal de prestação de serviço comunitário, expõem casos exemplares de imoralidades da máquina pública ou de ações de má fé que prejudicam consumidores e cidadãos, expõem a transgressão de práticas anti-éticas ou que põem em perigo a convivência pública – guiar bêbado, andar de carro no acostamento, o achaque do fiscal da prefeitura a um pequeno comerciante, o baile funk barulhento que prejudica o sono dos vizinhos etc.

O que há em comum em todas as “denúncias” sensacionais de todas essas práticas negativas para a sociedade? Todas essas denúncias parecem ser sempre direcionadas a personagens supostamente em condição inferior a do espectador, seja no aspecto sócio-econômico, pela sua condição (a embriagada que faz um escândalo uma loja de conveniência em um posto de gasolina por problemas familiares) ou apenas por serem flagradas por meio câmeras escondidas que fazem a delícia do público – o prazer voyeurista do espectador em saber que a pessoa na tela não sabe que está sendo observada.

A indignação moral seletiva para o

socialmente inferior desde o início já culpado

pelo linchamento midiático

Em outras palavras mais diretas: esses programas parecem ter uma indignação moral bem seletiva ao apontar as câmeras para pessoas miúdas e, desde o início, já derrotadas ou culpadas por antecipação. Ou seja, inferiorizadas. Mas jamais as munições desses programas são detonadas sobre personagens graúdos, poderosos ou de alto prestígio midiático tal como empresários, alto executivos ou grandes corporações.

Matadouros e salsichas

Um flagrante exemplo: novamente o programa CQC volta sua mira para os rincões do interior da Bahia para denunciar as condições insalubres, imundas e desumanas de um matadouro público municipal. Para além da cantilena da má gestão da coisa pública e mostrar de forma sensacionalista pessoas humildes cuja única forma de ganha-pão é através daquilo que escandaliza nossos olhos politicamente corretos, uma questão incomoda: por que essa mesma indignação não se volta a grandes frigoríficos e não é mostrada, por exemplo, a matéria-prima de salsichas – mix de restos de vísceras e ossos dos mais variados lotes de animais, colorizados e aromatizados para se tornarem palatáveis?

O mesmo escândalo e perseguição por helicópteros, câmeras escondidas e de dublês de repórter/humorista não se verifica contra “supostos” criminosos de colarinho branco – lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, organização e pressão de lobbies de setores empresariais junto ao Legislativo, sonegação de impostos, ameaça à saúde pública por práticas sanitárias e tecnologias de produção de alimentos temerárias etc.

Essa fixação midiática em escandalizar pequenos, anônimos, derrotados e fragilizados não pode ser apenas compreendida apenas pelo jogo atual político-midiático da indignação seletiva: “aos amigos tudo, aos inimigos a Lei”. Há algo que pertence ao funcionamento da própria Indústria Cultural desde a sua consolidação no período nazi-fascista, tal qual discutido por autores como Walter Benjamin (a estetização da política na mídia) e por Adorno e Horkheimer – a Indústria Cultural como ritualização da “frieza” resultante dos indivíduos atomizados em uma “multidão solitária”.

A correia de transmissão

Em um pequeno texto chamado “Educação Após Auschwitz” Theodor Adorno nos dá uma pequena pista para entender essa questão ao explicar o principal traço da personalidade autoritária ou proto-fascista:

“Aquele que é duro contra si mesmo adquire o direito de sê-lo com os demais e se vinga da dor que não teve a liberdade de demonstrar, que precisou reprimir” (COHN, Gabriel. “Educação Após Auschwitz” In:Adorno. São Paulo: Ática, p.39).

A correia de transmissão produtora de “frieza”

e das relações humanas proto-fascistas

Para Adorno este seria o princípio da gestação de uma configuração totalitária nas relações humanas: o fascismo. Dentro de uma situação que sabem que não podem mudar, indivíduos frustrados, ressentidos e condenados à resignação passam a descontar no outro a sua dor. É o início de uma espécie de “correia de transmissão” que impulsionaria o autoritarismo e indiferença na sociedade.

Podemos descrever essa dinâmica da seguinte forma, tal como Adorno pressentiu à época da ascesão nazi-fascista: o chefe da empresa admira oFüher exposto massivamente pelo rádio e cinema. Frustrado por saber que jamais deixará de ser o que é (mais um admirador de Hitler na multidão solitária) desconta sua dor ao destratar e humilhar seu subordinado na empresa, um assalariado chefe de família. Este, humilhado e frustrado, volta para casa e também desconta na sua esposa com brigas e humilhações. Por sua vez, a esposa se vinga nos filhos com arbitrariedades e surras. Os filhos, sem a presença dos pais e, por isso, expostos a maior parte do dia aos meios de comunicação de massas, vão idolatrar o Füher pop star. E fecha-se o ciclo que se retro-alimenta continuamente.

Para Adorno, na massa todos nós nos sentiríamos “mal amados” – ecos no autor da concepção de Freud sobre as conexões existentes entre multidão e melancolia. Necessariamente, a frustração tem que ser repassada para alguém socialmente mais fraco, criando uma espécie de cadeia de pequenas vinganças movida pelo ressentimento e rancor diante da impotência social. Isso se manifestaria desde a instrumentalização de bodes expiatórios na propaganda política até a explosão de preconceito, intolerância e xenofobia.

Os antigos programas sensacionalistas pelo

menos não se escondiam por trás do álibi

do “sensacionalisticamente correto”

Os conteúdos da indústria cultural seriam, portanto, mobilizados para a ritualização dessas pequenas vinganças da dor de cada um: desde o riso voyeurista no desenho animado ao perceber que o Pica Pau continua a correr sem saber que o chão acabou e que ele está acima de um abismo, até o alívio em descobrir que existe gente em pior estado que você ao ver a alcoólatra da loja de conveniência ser levada pelos policiais em um programa do tipo “Polícia 24 Horas”.

Nessa perspectiva, a tendência atual de programas “sensacionalisticamente corretos”, sob a aparência de prestação de serviço e denúncia moralizante, reedita esse prazer sádico e voyeurístico em descontar no mais fraco a frustração consigo mesmo.

É claro que tripudiar sobre personagens miúdos que, desde o início, já estão condenados e derrotados significa menos trabalho para a produção dos programas de TV do que enfrentar os seguranças e o arsenal jurídico dos poderosos. E mesmo que um programa como o “CQC” começasse a perseguir poderosos com suas iscas, câmeras secretas e histéricos dublês de repórter/humorista, o prazer dos espectadores não seria mais o mesmo. Denunciar as mazelas de pequenos diabos resulta em prazer moralista e compensatório, ao passo que mirar nos poderosos exige um posicionamento ideológico muito mais sério e desgastante para o psiquismo do espectador.

Pelo menos nos antigos programas sensacionalistas como “O Povo na TV” o sadismo e voyeurismo eram mais brutais e evidentes, sem a necessidade do álibi atual da consciência politicamente correta que vê na mobilização de todo um arsenal midiático para denunciar pequenos escroques como o supra-sumo da consciência politizada.

4 horas atrás

Índios invadem hotel de luxo de ex-ministro

por Betho Flávio
 

ÍNDIO Foto Folha SP > montagem BL

Um hotel de luxo no sul da Bahia, à beira-mar e com diárias a partir de R$ 1.000, foi invadido por cerca de 70 índios tupinambás na tarde de domingo (7).

O grupo reivindica a demarcação de áreas próximas à propriedade, no município de Una (a 40 km de Ilhéus e 570 km de Salvador).

Segundo a Polícia Militar baiana, os indígenas chegaram armados com flechas e ordenaram que todos os funcionários se retirassem do hotel Fazenda da Lagoa. Não havia hóspedes do local.

Um dos sócios-fundadores do hotel é o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Inaugurada em 2005, o local tem 14 suítes e funciona numa fazenda de coco e de dendê, onde também há um spa. Entre as regalias oferecidas aos hóspedes, estão “sete quilômetros de praia privativa”, segundo o site do empreendimento.

Técnicos da Funai (Fundação Nacional do Índio) se deslocaram hoje (8) de manhã para o local. O coordenador regional do órgão, Edinaldimar Barbosa da Silva, no entanto, só irá se pronunciar sobre o assunto após receber dos técnicos um relato completo sobre a situação.

A Polícia Federal também já encaminhou agentes para o local, onde diz serem frequentes os protestos indígenas pela demarcação da área em litígio.

No hotel, uma pessoa que disse fazer parte do grupo de índios atendeu ao telefonema da reportagem. Informou que há pelo menos 30 manifestantes no local, que, segundo ele, estava vazio quando o grupo chegou.

“Havia só um vigia, mas ele foi embora assim que chegamos”, disse o homem, que se identificou como Ivo. Perguntado sobre sua etnia, ele não soube responder e pediu que a reportagem voltasse a ligar amanhã (9), quando o cacique Valdenilson Oliveira, que, de acordo com ele, está no comando do movimento, voltará ao hotel.

A administração da Fazenda da Lagoa, com sede no Rio de Janeiro, foi procurada pela reportagem, mas ainda não se manifestou.

4 horas atrás

Réu supremo do mensalão acusa ministro Fux de assédio moral

por Betho Flávio
 

Fux se tornou um embaraço para a justiça brasileira.

Por Paulo Nogueira

A entrevista de Dirceu à Folha mostra que algo de urgente deve ser feito para que o Supremo não fique desmoralizado.

Fux fez uma louca cavalgada em busca do STF, e uma parada vital foi em Dirceu

Fux fez uma louca cavalgada em busca do STF, e uma parada vital foi em Dirceu

Feliciano pode continuar onde está?

Os brasileiros parecem ter a resposta já consolidada para isso.

E o juiz Luiz Fux, pode?

Esta é outra discussão que deve ser travada em caráter de urgência pela sociedade brasileira, dada a importância do Supremo Tribunal Federal, do qual Fux é um dos integrantes.

A entrevista que a Folha publica hoje com José Dirceu, o réu entre os réus do Mensalão,  grita isso – que se verifique se Fux pode permanecer no Supremo.

Um juiz desmoralizado desmoraliza o STF: este é o ponto.

Na entrevista, Dirceu afirma que Fux o procurou durante seis meses em busca de apoio para sua nomeação para o STF.

Fux estava um degrau abaixo, no STJ. Dirceu era então um homem de grande influência no governo, e Fux tinha uma ambição desmedida.

Segundo Dirceu, quando o encontro foi enfim realizado, Fux  prometeu a ele que o absolveria no julgamento.

Deu no que deu.

Dirceu parece ter decidido atirar

Dirceu parece ter decidido atirar

As acusações de Dirceu, evidentemente, têm que ser investigadas. Mas seja lembrado que à mesma Folha ele admitiu já ter sim corrido atrás de Dirceu na sua louca cavalgada pelo Supremo.

Escreveu a Folha depois de ouvir Fux, há alguns meses:  no último ano do governo Lula,  “Fux “grudou” em Delfim Netto. Pediu carta de apoio a João Pedro Stedile, do MST. Contou com a ajuda de Antônio Palocci. Pediu uma força ao governador do Rio, Sergio Cabral. Buscou empresários. E se reuniu com José Dirceu, o mais célebre réu do mensalão.”

Fux admitiu,  para a Folha, a reunião. “Eu fui a várias pessoas de SP, à Fiesp. Numa dessas idas, alguém me levou ao Zé Dirceu porque ele era influente no governo Lula.”

O contato mais explosivo, naturalmente, foi o com Dirceu. Na época, as acusações contra Dirceu já eram de conhecimento amplo, geral e irrestrito. E Dirceu seria julgado, não muito depois, pelo STF para o qual Fux tentava desesperadamente ser admitido.

Tudo bem? Pode? É assim mesmo que funcionam as coisas?

Fux afirma que quando procurou Dirceu não se lembrou de que ele era réu do Mensalão. Mesmo com o beneficio da dúvida, é uma daquelas situações em que se aplica a grande frase de Wellington; “Quem acredita nisso acredita em tudo”.

Fux demostra uma falta de equilíbrio inaceitável para o Supremo. Considere a narração dele próprio do encontro que teve com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, no qual acabaria recebendo a notícia de que atingira o objetivo: estava no STF.

“Aí eu passei meia hora rezando tudo o que eu sei de reza possível e imaginável. Quando ele [Cardozo] abriu a porta, falou: “Você não vai me dar um abraço? Você é o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal”. Foi aí que eu chorei. Extravasei.”

Fux, no julgamento, chancelou basicamente tudo que Joaquim Barbosa defendeu, para frustração e raiva das pessoas que ele procurara para conseguir a nomeação, a começar por Dirceu.

Fux é, em si, uma prova torrencial de quanto o STF está longe de ser o reduto de Catões que muitos brasileiros, ingenuamente, pensam ser.

O caso Fux tem outros desdobramentos, naturalmente.

O país tem que encontrar, urgentemente, fórmulas para desvincular a Justiça e o Executivo.

Se com sua espantosa fraqueza emocional Fux chegou afinal ao STF não foi por ter impressionado pela obra, pelo saber e pelo caráter.

Foi — como sugerem fortemente os depoimentos à Folha de Dirceu e dele mesmo, Fux — por ter dito o que os que definiriam a escolha queriam ouvir.

Não é um bom critério. Não é um critério justo.

A Justiça tem que manter distância altiva da política — e da mídia, igualmente. As fotos de alegre cumplicidade de integrantes do STF com jornalistas como Merval Pereira e Reinaldo Azevedo são moralmente repulsivas. Que isenção se poderia esperar do STF ao julgar eventuais causas que envolvam não exatamente tais jornalistas, peixes pequenos, mas as empresas para as quais trabalham? E que tipo de tratamento jornalístico os leitores devem esperar de uma relação tão camarada?

Relações complicadas

Relações complicadas

Como Feliciano em outra esfera, Fux representa, hoje, uma crise moral na justiça brasileira, um embaraço.

Como ele não se autonomeou, é preciso não esquecer que para consolidar a justiça brasileira – e a democracia — os métodos de nomeação devem ser urgentemente aprimorados.