Thatcher sem mistificações

por Betho Flávio
 

 

Paulo Moreira Leite

Desde janeiro de 2013, é diretor da ISTOÉ em Brasília. Dirigiu a Época e foi redator chefe da VEJA, correspondente em Paris e em Washington. É autor dos livros A Mulher que era o General da Casa e O Outro Lado do Mensalão.

  • Thatcher sem mistificações

    A morte de Margaret Thatcher tem sido ilustrada por balanços ambíguos e avaliações incompletas. É preciso falar claro: sua passagem pelo governo britânico e a influência internacional que adquiriu contribuíram para tornar o mundo pior.

    Sua contribuição ao debate de ideias é uma mistificação e o saldo final é um retrocesso.

    Foi a partir de Thatcher que o capitalismo voltou a aceitar com naturalidade o que antes era uma vergonha. Depois da construção do Estado de Bem-Estar Social, a partir dos anos 30 do século XX, já não era mais moralmente aceitável nem politicamente conveniente sacrificar os mais pobres e menos protegidos em nome do crescimento e da acumulação de lucros.

    Com Thatcher, valores como solidariedade social e responsabilidade do Estado passaram a ser tratados como estímulo à preguiça e à vagabundagem, sendo substituídos por um individualismo selvagem. O egoísmo passou a ser visto como benéfico para a economia e a sociedade – noção típica do capitalismo primitivo do século XVIII.

    A guerra contra os serviços públicos ingleses, que chegaram a ser um exemplo para o mundo desenvolvido, reduziu o padrão de vida da população britânica a um nível espantoso.

    A guerra contra os sindicatos só contribuiu para elevar a desigualdade e facilitar o enriquecimento dos mais ricos. A Inglaterra tornou-se o paraíso dos bancos e daquela clientela que enriquece a sua volta.

    A maior fonte de riqueza de sua passagem pelo governo consistiu na descoberta do petróleo do Mar do Norte, que ajudou os empobrecidos britânicos a pagar suas contas. (É curioso observar que, apesar disso, ela nunca foi acusada de fazer petro-populismo no estilo de… Hugo Chávez, certo?)

    Após um conjunto de medidas impopulares, Thatcher salvou-se graças à Guerra das Malvinas, travada como uma celebração colonial.

    A ausência de compromissos reais com a democracia ficou demonstrada pelo apoio incondicional a Augusto Pinochet, que manchou a história do Chile e da humanidade a partir do golpe que derrubou um presidente eleito em 1973. Com um empenho sem limites e sem escrúpulos, Thatcher manteve-se leal a Pinochet até o último momento.

    Na cena final, a ironia da história. Apresentada como defensora do cidadão, inimiga dos impostos, a madrinha do neoliberalismo foi forçada a deixar o governo. O motivo? Uma revolta popular contra impostos altos.

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