O domingo não dá folga aos corações – II

por xicosa
 

Você passa, de carona, involuntariamente, na frente da casa dela (e). O GPS do amor ainda mal-resolvido berra qual um cabrito montanhês desmamado.

Você acha que está resolvido(a) e encara, na buena, o almoço no restaurante que sempre ia com o(a) ex. Na sobremesa, a musse da melancolia amarga deveras no céu da boca.

É o domingo que pega da entrada ao café da despedida.

Repito: é o domingo que pega principalmente para quem perdeu o amor há pouco tempo.

É o domingo que lasca.

Você pega a bicicleta, ventinho no rosto, maior sensação de que está liberta, ali na rota da ilha do Recife Velho… Quando dá fé, o traste do ex, que nunca dera uma pedalada na vida ao seu lado, todo fosforescente na companhia de uma biscaite-sáude!

É o domingo que pega na ciclovia dos amores perdidos.

Não tem jeito.

Ficar guardado em casa é pior ainda. O(a) ex virá nas fibras óticas, na frase de um livro, nos objetos cortantes, nas peças de cama, mesa e banho.

A culpa é do domingo.

Durante o jogo de futebol, nós, os cavalheiros das mesas redondas, ainda abstraímos um tanto. O time do peito divide a caixa torácica com as sístoles e diástoles de um amor que nos bateu a porta.

Para a mulher, o domingo é ainda mais difícil. Mesmo que vá ao cinema com um delicado moço que tenta agradá-la e ocupar o posto dos combustíveis sentimentais da existência.

Alguma coisa muito besta do novo candidato não irá agradá-la. Ele come pipoca de um jeito horrível, por exemplo.

Se fosse outro dia qualquer, passava, mas acontece que é domingo.

É o domingo que fode, data vênia, com o devido perdão pelo verbo.

É o domingo que lasca feito maxixe cortado em cruz.

Não adianta disfarçar nos salões da SP Arte, como tentou uma amiga que acaba de me ligar em lágrimas. Óbvio que encontrou o vagabundo decifrando algum abstracionismo para a lesa Lolita do Liceu do bairro.

É o domingo que pega. Agora você devora a pizza da ansiedade e se ilude com folhinhas de rúcula por cima. Não adianta. Não é por estar cheinha ou magricela que a vida a desfavorece nessa maldita hora.

É o domingo que, no seu sonso e inocente silêncio, maltrata qual uma furadeira elétrica.

Para quem se achava curado(a) de um amor perdido, o melhor é que a maldita segunda-feira –o trabalho e os dias,santo Hesíodo!- dê logo as caras.

P.S. Se tiver nervos de aço, leia aqui “O domingo não dá folga aos corações I”.

4 de Abril de 2013 22:06

Dúvida cruel: o homem frouxo ou o canalha

por xicosa
 

Uma velha questão sempre discutida aqui nas noites da taverna voltou à baila, quando Carol, vestida nas suas calças vermelhas e com teses da mesma coloração, pediu a palavra:

“Pois saibam todos vocês: prefiro um bom canalha a um homem frouxo.”

A sentença da paulistana, sem deixar um farelo de dúvidas sobre a mesa repleta de bebidas e acepipes, fez com que alguns de nós levássemos a mão ao queixo, como se todos virássemos, naquele instante, ingênuos pensadores de Rodin. Pense!

“E querem saber mais? Só existem esses dois tipos mesmo de homem!”, arretou-se a dama.

A frase nem era para tanto, mas saiu tão afirmativa, tão sem dúvida ou vacilo, tão incendiária, que balançou até a plaqueta do “Fiado só amanhã” do boteco. A coisa fica forte conforme ela é dita, digo, conforme as labaredas do discurso.

Na boca de mulher bonita, então, vira imediatamente certeza absoluta.Essa capacidade que elas têm de acordar as mesas e fazer balançar, qual ventania mal-assombrada, as garrafas de cachaça com raízes ou cobras -sim, no botequim sem nome de ontem, na Bela Vista, havia aquelas garrafas envenenadas.

Carol se apegou ao recurso do conhecimento de causa, ao saber da rotina, à jurisprudência amorosa da sua trajetória.

“Pois saibam todos vocês: prefiro um bom canalha a um homem frouxo.”

O cearense dono do estabelecimento parou as suas atividades para ouvir a moça. A mulata da Vai-Vai também se ligou no discurso. Uns vagabundos deram pitacos. Como uma frase dita de forma convicta pode virar um Pentecostes em um simples pé-sujo de San Pablo.

Ela não repetiu a frase, não carecia, a frase ecoava como uma sentença romana e voltava a balançar as garrafas, a mexer com os presentes, os vivos e os que por ali passavam àquela altura.

O canalha, concluímos, sem que ela dissesse mais nada, merece mais respeito porque é mais explícito, a mulher já entra na história sabendo, e ainda pode ter momentos líricos, passionais, bonitos, pois todo canalha é, no fundo, um devoto, ajoelha-se diante de uma fêmea como um romeiro diante do seu santo predileto.

O frouxo representa, sem nenhum distanciamento, a maioria dos homens contemporâneos e o chove-não-molha da hora, o homem-de-Ossanha, aquele que diz vou e não vai, o indeciso, o confuso, melhor, o “cafuso”, como dizia o velho Didi Mocó.

O fraco não se apresenta para valer no jogo, titubeia, faz que vai e acaba não “fondo”, como dizia, no seu genial futebolês, o Dedeu, um desses tantos macunaímas da bola, cearense que brilhou (pelo menos na prosódia) no Clube Náutico Capibaribe.

Triste escolha essa: o canalha ou o homem frouxo.Pobre dicotomia alcóolica.

O mundo é bem melhor que isso, não acha, amiga?

Só sei que nada sei sobre esse assunto, como diria o grego complicado. Melhor ainda, como diria Roberto Carlos das antigas: “Só agora eu sei, o que aconteceu/quem sabe menos das coisas/sabe muito mais que eu!”

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