MAMA | Velhas fórmulas, novos sustos: a cara do terror da atualidade.

por literatortura
 

 

Por Maurício Vassali,

Sou fã confesso de filmes de horror. Pode ser de serial killer, alienígena, fantasma… o que for. Entretanto, é fato que o gênero chegou a um momento onde a originalidade é algo raro. Com variações quase imperceptíveis, os enredos, personagens, trilhas sonoras e artes se repetem incansavelmente, filme após filme. Qualquer indício de criatividade, assim sendo, merece ser reconhecido. Na falta de recursos realmente inventivos, muitos trabalhos se dedicam a identificar em longas de sucesso elementos que, juntos, dão origem a filmes teoricamente eficientes.

Que bom que Mama, que estreou na última sexta-feira (05/04) no país, apesar dos inúmeros problemas, se sai bem como um mosaico de fórmulas batidas, mas bastante funcionais. O longa, dirigido por Andres Muschietti, é baseado no curta-metragem Mamá, também dirigido por ele, e conta a história de Victoria e Lily, duas irmãs que, depois de uma crise do pai, permanecem desaparecidas na floresta por cinco anos. As meninas são encontradas em condições extremamente precárias, em posturas que beiram a selvageria. Após certo tempo em tratamento psicológico, as duas ficam sob a guarda do tio Lucas e sua noiva, Annabele. O que eles não sabem é que, durante este período, as crianças mantiveram um misterioso contato com uma entidade, a tal Mama.

Claro que a mama fantasma não aceita a nova condição, e cá estamos nós, espectadores, diante de um filme sobre uma família atormentada pelo além. E aí aviso de antemão o óbvio: ruídos estranhos, sustos provocados pela trilha sonora e bizarrices são constantes. Mama sofre com uma trilha quadrada e excessiva, personagens nem sempre muito desenvolvidos que tomam atitudes como investigar uma casa mal assombrada na calada da noite, ou mesmo roubar arquivos de um psicólogo dentro do seu próprio departamento.

Queixas à parte, o longa traz em sua primeira parte uma tensão constante. A iluminação e cores apagadas resultam em tons acinzentados que, junto do frio extremo apresentado pelas locações, colocam o público, de cara, num universo amedrontador. Somam-se a isso as admiráveis performances das garotinhas que interpretam Lilly e Victoria em idades distintas, além de Jessica Chastain mostrando mais uma vez sua versatilidade. Contudo, o longa consegue sustentar seu mistério justamente por esconder mais do que exibir. Evitando a transparência quase pornográfica que domina o cenário do horror desde Jogos MortaisMama funciona por investir muito mais no suspense do que no choque, mesclando um estilo mais clássico com elementos que lembram terrores japoneses.

É uma pena que, a partir de certo ponto, o filme resolve apresentar a figura de Mama constantemente e encontrar uma lógica espírita para explicar todo o fenômeno. Aí tem personagem que aparece só pra morrer, fugas mirabolantes, restos mortais do século retrasado, entre incontáveis clichês como o fato de o fantasma se esconder no armário e símbolos toscos que indicam sua presença.

De qualquer forma, essa nova produção de Guillermo Del Toro (de Labirinto do Fauno) conserva a identidade do cineasta Muschietti, mas apresenta também uma perceptível influência de Del Toro. Ao contrário do bobinho Não tenha medo do escuroMama consegue fazer o público pular da cadeira ao mesmo tempo em que toca no universo infantil através do conto de fadas.

Mesmo com tantos tropeços e furos do roteiro, a eficiência estética de Mama mantém a atmosfera sombria e garante os cagaços.

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Aos interessados, segue o curta Mamá:

 

 

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Maurício Vassali, mestrando em Ciências Ambientais pela UFRRJ, nasceu em uma cidade com 5 mil habitantes, viciado no termo gauchesco “bah” e tem uma dissertação pra escrever, mas não sai do cinema.

 

 

 

 

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