4 horas atrás

Thatcher: um terror sem um átomo de humanidade

por Esquerdopata
 
O cantor Morrissey, da banda seminal dos anos 80 The Smiths, reage à notícia da morte da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

The Daily Beast

Thatcher é lembrada como A Dama de Ferro porque só possuía traços completamente negativos, como a teimosia persistente e a recusa de ouvir aos outros.

Cada movimento que fazia era carregado de negatividade; ela destruiu a indústria manufatureira britânica, odiava os mineiros, odiava as artes, odiava os combatentes da liberdade irlandeses e permitiu que eles morressem, odiava os ingleses pobres e não fez nada para ajudá-los, odiava o Greenpeace e ambientalistas, foi a única líder política da Europa que se opôs a uma proibição do comércio de marfim,  não tinha nenhuma sagacidade e nenhum calor a ponto de seu próprio Gabinete demiti-la. Ela deu a ordem para explodir o Belgrano, mesmo estando fora da zona de exclusão das Malvinas – e navegando em direção oposta ao das Ilhas!  Quando os jovens argentinos a bordo do Belgrano sofreram  uma morte terrível e injusta, Thatcher fez sinal de positivo  para a imprensa britânica.    
De ferro? Não. Bárbara? Sim.  Ela odiava feministas apesar de ter sido em grande parte devido ao avanço do movimento de mulheres que o povo britânico permitiu-se a aceitar que um primeiro-ministro pudesse  ser do sexo feminino. Mas por causa de Thatcher, pode ser que nunca mais haja uma outra mulher no poder na política britânica. Em vez de abrir a porta para outras mulheres, ela fechou. 
Thatcher só será lembrada com carinho por sentimentalistas que não sofreram sob a sua liderança, mas a maioria dos trabalhadores britânicos já a esqueceu e as pessoas da Argentina devem estar celebrando sua morte. Os fatos mostram, sem sombra de dúvida, que Thatcher era um terror sem um átomo de humanidade. 
Morrissey.

6 horas atrás

Kennedy Alencar entrevista José Genoino

por Esquerdopata
 

Segunda parte AQUI

Terceira parte AQUI

7 horas atrás

FHC terá concorrente de peso na ABL

por Esquerdopata
 
Autor de ‘A Privataria Tucana’ vai disputar Academia Brasileira de Letras com FHC 

Um grupo de jornalistas, intelectuais e professores universitários progressistas lança nesta segunda-feira (8) uma campanha para defender o nome do jornalista Amaury Ribeiro Júnior para a Academia Brasileira de Letras (ABL).

Jornalista premiado, hoje funcionário da TV Record, Ribeiro Jr. é autor do best-seller “A privataria tucana”, livro-reportagem denuncia irregularidades na venda de empresas estatais durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

A candidatura de Ribeiro Jr. visa se contrapor à do próprio Fernando Henrique, que está inscrito para disputar a cadeira de número 36, que está vaga desde que o jornalista e escritor paulista João de Scantimburgo morreu, em 22 de março passado.

As inscrições de candidaturas na ABL podem ser feitas até 26 de abril. Depois deste prazo, a entidade marca em até 60 dias uma reunião para a eleição, em que o novo imortal deve ter a metade mais um dos votos dos atuais imortais para ser eleito para a cadeira.

Leia, aqui, o manifesto da candidatura de Amaury Ribeiro Jr. Para assinar, clique aqui.

8 horas atrás

Margaret On The Guillotine

por Esquerdopata
 

Margaret On The Guillotine
Morrissey

The kind people
Have a wonderful dream
Margaret On The Guillotine
Cause people like you
Make me feel so tired
When will you die ?
When will you die ?
When will you die ?
When will you die ?
When will you die ?

And people like you
Make me feel so old inside
Please die
And kind people
Do not shelter this dream
Make it real
Make the dream real
Make the dream real
Make it real
Make the dream real
Make it real

9 horas atrás

A maior vitória de Margaret Thatcher

por Esquerdopata
 
Thatcher morreu como a mãe do 1% e a madrasta dos 99%
Paulo Nogueira

O modelo político que na década de 1980 ela ajudou tanto a espalhar resultou no mundo de extrema desigualdade de hoje.
 A maior vitória de Margaret Thatcher, morta hoje aos 87 anos depois de um derrame, foi não ter assistido à formidável falência do mundo que ela ajudou tão poderosamente a construir na década de 1980. 
Fazia anos que Thatcher sofria de problemas mentais. Conforme relatou num livro sua filha Carol,  ela chamava com frequência seu marido Denis, morto há muitos anos. 
Ela não viu a desagregação do que se convencionou chamar de neoliberalismo – um sistema que acabou levando ao célebre mundo dos 99% versus 1%. 
Thatcher de um lado do Atlântico e Ronald Reagan de outro comandaram com influência mundial – sentida no Brasil de Collor e mais ainda de FHC – modelos econômicos que acabaram privilegiando enormemente os superricos e as grandes corporações. 
A grande crise econômica do final da década passada mostrou o quanto era insustentável este modelo,  a começar pelo fato de que os cofres públicos em tantos países se esvaziaram  por conta de políticas que permitiram aos bilionários e às multinacionais encontrar formas legais – embora imorais – de reduzir a quase nada os impostos a pagar. 
Thatcher viveu pela política, e começou a morrer quando foi traída por companheiros do Partido Conservador e derrubada depois de 11 anos de poder, em 1990. 
A mulher que em 1979 se instalou no Número 10, como os ingleses chamam a casa do primeiro ministro, era uma força da natureza. Chegou declamando São Francisco de Assis, mas agiu como uma ninja no poder. 
Derrotou os sindicalistas superpoderosos que frequentemente paravam o Reino Unido, deu uma surra fulminante nos militares argentinos que queriam tomar as Malvinas, ajudou a cravar os pregos no caixão da União Soviética e liderou um movimento global de privatização e desregulamentação com resultados que o tempo provou serem catastróficos. 
Margaret Thatcher pareceu, em certos momentos, maior que o Reino Unido. Seu único rival em prestígio, entre os líderes globais, era Reagan.  Mas, se Reagan parecia um ator de Hollywood fazendo o papel de presidente americano, Thatcher era 100% realidade, ele embalagem, ela conteúdo. 
Thatcher agarrou-se desesperadamente ao poder quando já era uma primeira ministra morta em atividade.  Desafiada na liderança dos conservadores em 1990, não conseguiu a os votos necessários para permanecer como líder, embora tenha vencido seu oponente. Foi uma vitória inútil, mas Thatcher não quis ver isso. 
No Reino Unido, o poder fica na mão do líder do partido mais votado. Os companheiros de partido podem, em situações extremas, desafiar a liderança.  Foi isso que tirou da Thatcher do poder.  Seus liderados entre os conservadores já não suportavam sua brutalidade como chefe, e um deles a desafiou. 
Thatcher, sem votos suficientes para permanecer a despeito de ter batido o desafiador, ainda relutou durante dias em deixar Downing Street. Queria ir para a segunda e decisiva votação. Era formalmente uma possibilidade, mas na verdade é uma atitude não aceita na política britânica, pelo desrespeito implícito à vontade coletiva do partido. Foi a rainha Elizabeth quem afinal convenceu Thatcher a renunciar. 
Os problemas mentais ceifaram depois seu projeto de fazer fortuna com palestras e, muito pior para ela, a impediram de lutar no campo das idéias pela essência do thatcherismo: um Estado mínimo, com a menor regulamentação possível. 
Em 2011, a convite do premiê conservador David Cameron, ela visitou pela última vez Downing Street, o lugar de onde ela exerceu influência mundial durante  onze anos. 
Andava com dificuldade e acenava confusamente, como se de alguma forma tivesse em sua mente destruída retornado aos dias em que foi conhecida como Dama de Ferro. 
Morreu como a mãe do 1% e a madrasta dos 99%.

9 horas atrás

Como Margaret Thatcher deu uma mãozinha a Pol Pot

por Esquerdopata
 
Lamento não ter disposição para traduzir esse texto, mas é relevante saber que a Dama de Ferro não apoiava açougueiros só por motivos ideológicos. Qualquer motivo é bom para um liberal apoiar ditaduras.

How Thatcher gave Pol Pot a hand
Almost two million Cambodians died as a result of Year Zero. John Pilger argues that, without the complicity of the US and Britain, it may never have happened.
BY JOHN PILGER PUBLISHED 17 APRIL 2000
New Statesman

On 17 April, it is 25 years since Pol Pot’s Khmer Rouge entered Phnom Penh. In the calendar of fanaticism, this was Year Zero; as many as two million people, a fifth of Cambodia’s population, were to die as a consequence. To mark the anniversary, the evil of Pol Pot will be recalled, almost as a ritual act for voyeurs of the politically dark and inexplicable. For the managers of western power, no true lessons will be drawn, because no connections will be made to them and to their predecessors, who were Pol Pot’s Faustian partners. Yet, without the complicity of the west, Year Zero might never have happened, nor the threat of its return maintained for so long. 
Declassified United States government documents leave little doubt that the secret and illegal bombing of then neutral Cambodia by President Richard Nixon and Henry Kissinger between 1969 and 1973 caused such widespread death and devastation that it was critical in Pol Pot’s drive for power. “They are using damage caused by B52 strikes as the main theme of their propaganda,” the CIA director of operations reported on 2 May 1973. “This approach has resulted in the successful recruitment of young men. Residents say the propaganda campaign has been effective with refugees in areas that have been subject to B52 strikes.” In dropping the equivalent of five Hiroshimas on a peasant society, Nixon and Kissinger killed an estimated half a million people. Year Zero began, in effect, with them; the bombing was a catalyst for the rise of a small sectarian group, the Khmer Rouge, whose combination of Maoism and medievalism had no popular base.
After two and a half years in power, the Khmer Rouge was overthrown by the Vietnamese on Christmas Day, 1978. In the months and years that followed, the US and China and their allies, notably the Thatcher government, backed Pol Pot in exile in Thailand. He was the enemy of their enemy: Vietnam, whose liberation of Cambodia could never be recognised because it had come from the wrong side of the cold war. For the Americans, now backing Beijing against Moscow, there was also a score to be settled for their humiliation on the rooftops of Saigon. 
To this end, the United Nations was abused by the powerful. Although the Khmer Rouge government (“Democratic Kampuchea”) had ceased to exist in January 1979, its representatives were allowed to continue occupying Cambodia’s seat at the UN; indeed, the US, China and Britain insisted on it. Meanwhile, a Security Council embargo on Cambodia compounded the suffering of a traumatised nation, while the Khmer Rouge in exile got almost everything it wanted. In 1981, President Jimmy Carter’s national security adviser, Zbigniew Brzezinski, said: “I encouraged the Chinese to support Pol Pot.” The US, he added, “winked publicly” as China sent arms to the Khmer Rouge. 
In fact, the US had been secretly funding Pol Pot in exile since January 1980. The extent of this support – $85m from 1980 to 1986 – was revealed in correspondence to a member of the Senate Foreign Relations Committee. On the Thai border with Cambodia, the CIA and other intelligence agencies set up the Kampuchea Emergency Group, which ensured that humanitarian aid went to Khmer Rouge enclaves in the refugee camps and across the border. Two American aid workers, Linda Mason and Roger Brown, later wrote: “The US government insisted that the Khmer Rouge be fed . . . the US preferred that the Khmer Rouge operation benefit from the credibility of an internationally known relief operation.” Under American pressure, the World Food Programme handed over $12m in food to the Thai army to pass on to the Khmer Rouge; “20,000 to 40,000 Pol Pot guerillas benefited,” wrote Richard Holbrooke, the then US assistant secretary of state. 
I witnessed this. Travelling with a UN convoy of 40 trucks, I drove to a Khmer Rouge operations base at Phnom Chat. The base commander was the infamous Nam Phann, known to relief workers as “The Butcher” and Pol Pot’s Himmler. After the supplies had been unloaded, literally at his feet, he said: “Thank you very much, and we wish for more.” 
In November of that year, 1980, direct contact was made between the White House and the Khmer Rouge when Dr Ray Cline, a former deputy director of the CIA, made a secret visit to a Khmer Rouge operational headquarters. Cline was then a foreign policy adviser on President-elect Reagan’s transitional team. By 1981, a number of governments had become decidedly uneasy about the charade of the UN’s continuing recognition of the defunct Pol Pot regime. Something had to be done. The following year, the US and China invented the Coalition of the Democratic Government of Kampuchea, which was neither a coalition nor democratic, nor a government, nor in Kampuchea (Cambodia). It was what the CIA calls “a master illusion”. Prince Norodom Sihanouk was appointed its head; otherwise little changed. The two “non-communist” members, the Sihanoukists, led by the Prince’s son, Norodom Ranariddh, and the Khmer People’s National Liberation Front, were dominated, diplomatically and militarily, by the Khmer Rouge. One of Pol Pot’s closet cronies, Thaoun Prasith, ran the office at the UN in New York. 
In Bangkok, the Americans provided the “coalition” with battle plans, uniforms, money and satellite intelligence; arms came direct from China and from the west, via Singapore. The non-communist fig leaf allowed Congress – spurred on by a cold-war zealot Stephen Solarz, a powerful committee chairman – to approve $24m in aid to the “resistance”. 
Until 1989, the British role in Cambodia remained secret. The first reports appeared in the Sunday Telegraph, written by Simon O’Dwyer-Russell, a diplomatic and defence correspondent with close professional and family contacts with the SAS. He revealed that the SAS was training the Pol Pot-led force. Soon afterwards, Jane’s Defence Weekly reported that the British training for the “non-communist” members of the “coalition” had been going on “at secret bases in Thailand for more than four years”. The instructors were from the SAS, “all serving military personnel, all veterans of the Falklands conflict, led by a captain”. 
The Cambodian training became an exclusively British operation after the “Irangate” arms-for-hostages scandal broke in Washington in 1986. “If Congress had found out that Americans were mixed up in clandestine training in Indo-China, let alone with Pol Pot,” a Ministry of Defence source told O’Dwyer-Russell, “the balloon would have gone right up. It was one of those classic Thatcher-Reagan arrangements.” Moreover, Margaret Thatcher had let slip, to the consternation of the Foreign Office, that “the more reasonable ones in the Khmer Rouge will have to play some part in a future government”. In 1991, I interviewed a member of “R” (reserve) Squadron of the SAS, who had served on the border. “We trained the KR in a lot of technical stuff – a lot about mines,” he said. “We used mines that came originally from Royal Ordnance in Britain, which we got by way of Egypt with marking changed . . . We even gave them psychological training. At first, they wanted to go into the villages and just chop people up. We told them how to go easy . . .” 
The Foreign Office response was to lie. “Britain does not give military aid in any form to the Cambodian factions,” stated a parliamentary reply. The then prime minister, Thatcher, wrote to Neil Kinnock: “I confirm that there is no British government involvement of any kind in training, equipping or co-operating with Khmer Rouge forces or those allied to them.” On 25 June 1991, after two years of denials, the government finally admitted that the SAS had been secretly training the “resistance” since 1983. A report by Asia Watch filled in the detail: the SAS had taught “the use of improvised explosive devices, booby traps and the manufacture and use of time-delay devices”. The author of the report, Rae McGrath (who shared a joint Nobel Peace Prize for the international campaign on landmines), wrote in the Guardian that “the SAS training was a criminally irresponsible and cynical policy”. 
When a UN “peacekeeping force” finally arrived in Cambodia in 1992, the Faustian pact was never clearer. Declared merely a “warring faction”, the Khmer Rouge was welcomed back to Phnom Penh by UN officials, if not the people. The western politician who claimed credit for the “peace process”, Gareth Evans (then Australia’s foreign minister), set the tone by calling for an “even-handed” approach to the Khmer Rouge and questioning whether calling it genocidal was “a specific stumbling block”. 
Khieu Samphan, Pol Pot’s prime minister during the years of genocide, took the salute of UN troops with their commander, the Australian general John Sanderson, at his side. Eric Falt, the UN spokesman in Cambodia, told me: “The peace process was aimed at allowing [the Khmer Rouge] to gain respectability.” 
The consequence of the UN’s involvement was the unofficial ceding of at least a quarter of Cambodia to the Khmer Rouge (according to UN military maps), the continuation of a low-level civil war and the election of a government impossibly divided between “two prime ministers”: Hun Sen and Norodom Ranariddh. 
The Hun Sen government has since won a second election outright. Authoritarian and at times brutal, yet by Cambodian standards extraordinarily stable, the government led by a former Khmer Rouge dissident, Hun Sen, who fled to Vietnam in the 1970s, has since done deals with leading figures of the Pol Pot era, notably the breakaway faction of Ieng Sary, while denying others immunity from prosecution. 
Once the Phnom Penh government and the UN can agree on its form, an international war crimes tribunal seems likely to go ahead. The Americans want the Cambodians to play virtually no part; their understandable concern is that not only the Khmer Rouge will be indicted. 
The Cambodian lawyer defending Ta Mok, the Khmer Rouge military leader captured last year, has said: “All the foreigners involved have to be called to court, and there will be no exceptions . . . Madeleine Albright, Margaret Thatcher, Henry Kissinger, Jimmy Carter, Ronald Reagan and George Bush . . . we are going to invite them to tell the world why they supported the Khmer Rouge.” 
It is an important principle, of which those in Washington and Whitehall currently sustaining bloodstained tyrannies elsewhere might take note. 

10 horas atrás

Finalmente reunidos

por Esquerdopata
 
 
11 horas atrás

Homenagem à Dama de Ferro

por Esquerdopata
 

The Fletcher Memorial Home
Pink Floyd

Take all your overgrown infants away somewhere
And build them a home, a little place of their own.
The Fletcher Memorial
Home for Incurable Tyrants and Kings.

And they can appear to themselves every day
On closed circuit T.V.
To make sure they’re still real.
It’s the only connection they feel.
“Ladies and gentlemen, please welcome, Reagan and Haig,
Mr. Begin and friend, Mrs. Thatcher, and Paisly,
“Hello Maggie!”
Mr. Brezhnev and party.
“Who’s the bald chap?”
The ghost of McCarthy,
The memories of Nixon.
“Goodbye!”
And now, adding color, a group of anonymous latin-
American Meat packing glitterati.

Did they expect us to treat them with any respect?
They can polish their medals and sharpen their
Smiles, and amuse themselves playing games for awhile.
Boom boom, bang bang, lie down you’re dead.

Safe in the permanent gaze of a cold glass eye
With their favorite toys
They’ll be good girls and boys
In the Fletcher Memorial Home for colonial
Wasters of life and limb.

Is everyone in?
Are you having a nice time?
Now the final solution can be applied.

12 horas atrás

Morre a musa neoliberal Margaret Thatcher

por Esquerdopata
 
Margaret e um amigo querido

Morreu nesta segunda-feira (8) aos 87 anos Margaret Thatcher, primeira mulher a se tornar primeira-ministra britânica, cargo no qual ficou por três mandatos consecutivos, entre 1979 e 1990.

O porta-voz da família de Thatcher informou ela morreu em consequência de um acidente vascular cerebral.

Margaret Hilda Roberts nasceu em 13 de outubro de 1925 em Grantham, Lincolnshire. Seu pai era pastor e membro do conselho da cidade.

Ela estudou química na Universidade de Oxford, onde presidiu a tradicional Associação Conservadora, composta por alunos. Ela estudou direito enquanto trabalhava e se formou advogada em 1954.

Em 1951, se casou com Denis Thatcher, um rico homem de negócios, com quem teve dois filhos gêmeos, Carlo e Mark.

12 horas atrás

Eduardo Campos usa Diário Oficial para promoção pessoal

por Esquerdopata
 
Montagem do D. O. de Pernambuco ‘Diário Oficial’ de PE faz promoção pessoal de Campos

Cotado para disputar a Presidência, governador do PSB esteve em 47 das 58 capas publicadas de janeiro a março

Textos trazem elogios ao pernambucano, o que a lei proíbe; secretário afirma que caráter é ‘informativo’

Daniela Lima, Falha de S. Paulo

“O governador sempre ouve e, mais do que isso, se engaja na nossa luta. São fantásticas as ações que estão sendo tomadas”. A frase, atribuída a um ciclista de Recife, aparece em um dos três textos publicados no “Diário Oficial” de Pernambuco do último dia 19 que destacam atos de Eduardo Campos (PSB). 
Vedado pela Constituição, o elogio ao governador no DO não é caso isolado. Levantamento feito pela Folha mostra que Campos, potencial candidato do PSB à Presidência, aparece na capa de 47 das 58 edições do “Diário Oficial” do Estado editadas de janeiro a março deste ano. 
Ele é majoritariamente identificado pelo primeiro nome nas manchetes e tem aspas elogiosas ao próprio governo destacadas nas chamadas do jornal. 
O secretário de Imprensa de Campos, Evaldo Costa, diz discordar da interpretação de que há promoção pessoal do governador e afirma que as notícias veiculadas têm caráter informativo. “Não focamos a pessoa do governador, mas sua ação política e administrativa.” 
O DO tem tiragem de até 2 mil exemplares ao dia e é distribuído em secretarias e outras repartições e escolas no interior do Estado. 
A legislação diz que a publicidade de atos, programas, obras e serviços de órgãos públicos deve ser “educativa, informativa ou de orientação social […] dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades”. 
“A opção editorial do DO tem dado ênfase a fatos e imagens do governador. Isso não é ilícito por si só, dada a função da autoridade”, avalia o presidente da Sociedade Brasileira de Direito Público, Carlos Ari. “Mas, na edição do dia 19 de março, houve claro excesso. Há texto de promoção pessoal, sem caráter informativo”, conclui, numa referência ao relato do elogio feito pelo ciclista a Campos. 
Só nas 20 edições do mês de março, foram publicadas 33 fotos de Campos. O volume é superior ao dos governadores dos três maiores Estados do Sudeste. Foram examinados os DOs de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais no mesmo período. 
Os textos do DO de Pernambuco abordam agendas de Campos dentro e fora do Estado, encontros com empresários e políticos. As menções ao governador se intensificaram este ano, mas já eram frequentes em 2012. 
De janeiro a março do ano passado, Campos esteve na capa do DO em 47 das 62 edições (76%). Foi mencionado pelo primeiro nome, “Eduardo”, 229 vezes. No mesmo período deste ano foram 297. 
TEMAS NACIONAIS 
O noticiário em 2012 já era positivo. “Eduardo Campos recebe troféu de empreendedor do Nordeste”, diz manchete do dia 27 de março. Há no texto elogio do governador de Alagoas, Teotônio Vilela (PSDB): “O Eduardo é um baluarte em defesa do Nordeste”. 
O que mudou de lá para cá foi a forma como Campos se refere a temas nacionais. 
Em 2012, o noticiário destacou a visita da presidente Dilma Rousseff à obra da transposição do rio São Francisco. “Transposição: Dilma cobra velocidade às empreiteiras”, diz manchete de 9 de fevereiro de 2012. No dia seguinte, o assunto ainda é a visita.”Eduardo: ‘visita de Dilma dá novo ritmo às obras'”. 
Neste ano, quando cresceram as especulações sobre uma provável candidatura de Campos à Presidência, Dilma esteve com o governador pernambucano dia 25 de março. 
O encontro continuou sendo destaque, mas o protagonista passou a ser o governador. “Eduardo com Dilma diz que água é também cidadania”. O Nordeste vive sua pior seca nos últimos 20 anos. 
Campos também adotou tom mais crítico. Em 21 de fevereiro, por exemplo, o destaque do DO era a entrega de casas populares do programa federal Minha Casa Minha Vida, com o seguinte título: “Durante a entrega de casas, Eduardo alerta para a falta de habitação no Brasil”. 

7 de Abril de 2013 22:00

O processo contra Lula e a força do simbolismo

por Esquerdopata
 
Como Getúlio e Juscelino, cada um deles em seu tempo, Lula é símbolo do povo brasileiro. Acusam-no hoje de ajudar os empresários brasileiros em seus negócios no Exterior. O grave seria se ele estivesse ajudando os empresários estrangeiros em seus negócios no Brasil. 
Mauro Santayana 
O Ministério Público do Distrito Federal – por iniciativa do Procurador Geral da República – decidiu promover investigação contra Lula, denunciado, por Marcos Valério, por ter intermediado suposta “ajuda” ao PT, junto à Portugal Telecom, no valor de 7 milhões de reais. 
O publicitário Marcos Valério perdeu tudo, até mesmo o senso da conveniência. É normal que se sinta injustiçado. A sentença que o condenou a 40 anos de prisão foi exagerada: os responsáveis pelo seqüestro, assassinato e esquartejamento de Eliza Salmúdio foram condenados à metade de sua pena. 
Assim se explica a denúncia que fez contra o ex-presidente, junto ao Procurador Geral da República, ainda durante o processo contra dirigentes do PT. 
O Ministério Público se valeu dessas circunstâncias, para solicitar as investigações da Polícia Federal – mas o aproveitamento político do episódio reclama reflexões mais atentas. 
Lula é mais do que um líder comum. Ele, com sua biografia de lutas, e sua personalidade dotada de carisma, passou a ser um símbolo da nação brasileira, queiramos ou não. Faz lembrar o excelente estudo de Giorg Plekhanov sobre o papel do indivíduo na História. São homens como Getúlio, Juscelino e Lula que percebem o rumo do processo, com sua ação movem os fatos e, com eles, adiantam o destino das nações e do mundo. 
Há outro ponto de identificação entre Lula e Plekhanov, que Lula provavelmente desconheça, como é quase certo de que desconheça até mesmo a existência desse pensador, um dos maiores filósofos russos. Como menchevique, e parceiro teórico dos socialistas alemães, Plekhanov defendia, como passo indispensável ao socialismo, uma revolução burguesa na Rússia, que libertasse os trabalhadores do campo e industrializasse o país. Sem passar por essa etapa, ele estava convencido, seria impossível uma revolução proletária no país.  
É mais ou menos o que fez Lula, em sua aliança circunstancial com o empresariado brasileiro. Graças a essa visão instintiva do processo histórico, Lula pôde realizar uma política, ainda que tímida, de distribuição de renda, com estímulo à economia. Mediante a retomada do desenvolvimento econômico, com a expansão do mercado interno, podemos prever a formação de uma classe operária numerosa e consciente, capaz de conduzir o processo de libertação. 
Não importa se o grande homem público brasileiro vê assim a sua ação política. O importante é que esse é, conforme alguns lúcidos marxistas, começando pelo próprio Marx, o único caminho a seguir. 
Como Getúlio e Juscelino, cada um deles em seu tempo, Lula é símbolo do povo brasileiro. Acusam-no hoje de ajudar os empresários brasileiros em seus negócios no Exterior. O grave seria se ele estivesse ajudando os empresários estrangeiros em seus negócios no Brasil. 
Lula não é uma figura sagrada, sem erros e sem pecados. É apenas um homem que soube aproveitar as circunstâncias e cavalgá-las, sempre atento à origem de classe e fiel às suas próprias idéias sobre o povo, o Brasil e o mundo. 
Mas deixou de ser apenas um cidadão como os outros: ao ocupar o seu momento histórico com obstinação e luta, passou a ser um emblema da nacionalidade. Qualquer agressão desatinada a esse símbolo desatará uma crise nacional de desfecho imprevisível. 
7 de Abril de 2013 18:52

Que Verdade é Essa?

por Esquerdopata
 
A Comissão chamada a desenterrá-la até agora não produziu coisa alguma 
Por Leandro Fortes

Da África do Sul do Apartheid aos vizinhos do Cone Sul vitimados por ditaduras sangrentas como a nossa, 40 nações pagaram no século passado seu tributo à memória e à justiça. O Brasil tenta desde março do ano passado, quando oficialmente foi criada a Comissão Nacional da Verdade, instituída para investigar e relatar os crimes contra os direitos humanos cometidos pelo aparato repressor do regime, dobrar esse cabo rumo à modernidade. É uma tentativa tardia de integrar o grupo de quem prestou contas do passado. E, para muitos críticos, além de atrasado, o comitê reúne todos os elementos para se tornar um fiasco. 
Na segunda-feira 1˚, data do 49˚ aniversário do golpe de 1964, um grupo de militares do Levante Popular da Juventude e do Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça aproveitou a cerimônia de abertura dos arquivos secretos da repressão da Delegacia Estadual de Ordem Política e Social (Deops) de São Paulo para colocar o dedo na ferida. Diante do coordenador da comissão nacional, Paulo Sérgio Pinheiro, de autoridades do PT e do PSDB, os jovens leram o depoimento de uma militante torturada nas dependências do Deops e emendaram um manifesto no qual criticaram o ritmo lento dos trabalhos e a falta de transparência nas investigações. “A Comissão da Verdade é um avanço na política brasileira, porém, é necessário continuar os trabalhos e criar mecanismos de participação da sociedade nesse processo para garantir que os seus objetivos sejam cumpridos”, avisou Carla Bueno, da coordenação do Levante Popular. A reação dos militantes coincidiu com a impaciência da própria presidenta Dilma Rousseff, uma vítima da ditadura. Na sexta-feira 29, ela exigiu a exposição de resultados práticos, de forma a garantir a “comoção nacional”necessária ao bom resultado da investigação. Entende-se a impaciência. A comissão tem pouco mais de um ano para apresentar um relatório final. Há uma quantidade enorme de documentos a serem analisados, dificuldades incompreensíveis de acessar arquivos nos estados, um escopo desnecessariamente amplo de apuração e uma cautela até agora inexplicável dos conselheiros, ainda que, com boa vontade, possa se dar um voto de confiança ao esforço dos 60 técnicos envolvidos no trabalho. 
Após um ano de trabalho praticamente nada de relevante veio à tona. Uma rara notícia nova (nem tão nova, na verdade) foi a comprovação de que o deputado Rubens Paiva morreu sob tortura. Na versão dos militares, Paiva havia sido resgatado por militantes de esquerda. A melhor informação brotou, porém, da comissão paulista, que atua de forma diferente da nacional, a começar pela transparência da investigação. Foi o comitê de São Paulo que divulgou a lista de empresários e jornalistas frequentadores das dependências do DOI-Codi, possivelmente para um tour pelas sessões de tortura. 
Para piorar, o grupo nacional tem a intenção de apresentar apenas um relatório em 2014. Nem um mísero relatório parcial. Isso quer dizer que pouco ou quase nada será informado a respeito da apuração, uma bela forma de sufocar qualquer interesse da sociedade pelo assunto. 
A comissão brasileira tem, porém, um desafio nada trivial, por comparação. Os comitês na Argentina, Uruguai e Chile atuaram por menos tempo, mas produziram resultados incontestes. A Justiça argentina condenou mais de 200 militares e civis por envolvimento em prisões, torturas, desaparecimentos e mortes durante a ditadura que vigorou de 1976 a 1983 e matou 30 mil cidadãos. A punição alcançou os mais altos escalões das Forças Armadas, entre eles, ditadores como Rafael Videla, condenado à prisão perpétua. 
No Chile, a mobilização para punir os responsáveis por crimes começou antes do fim da ditadura de Augusto Pinochet, encerrada em 1990. Criada em 2003, A Comissão da Verdade sobre Prisão Política e Tortura ouviu mais de 35 mil testemunhas de abusos. No último relatório, entregue em agosto de 2011 ao presidente Sebastián Pinera, a comissão apontou 40 mil vítimas oficiais da ditadura (3.225 mortos e desaparecidos). No Uruguai, onde os processos continuam, mesmo com as limitações impostas pela Lei de Anistia, dez militares foram condenados. Na lista, o ditador Gregorio Alvarez e o ex-presidente Juan María Borbaderry. 
No Brasil, onde a Lei da Anistia revalidada pelo STF em 2010 tornou-se um empecilho a processos judiciais contra ex-torturadores, os sete conselheiros da Comissão da Verdade formam um mosaico de “notáveis”, termo caro à política e ao academicismo nacional, cuja principal consequência foi a proliferação de um ambiente onde não há hierarquia, muito menos consenso. Sem falar na briga de egos. Dilma decidiu por um equilíbro entre poucos militantes de esquerda e outros mais conservadores, emobra todos com histórico pessoal de luta pelos direitos humanos. Entre eles, dois ex-ministros da Justiça: José Carlos Cavalcanti, do governo Sarney, e José Carlos Dias, da administração de FHC. 
O atual coordenador do grupo, Paulo Sérgio Pinheiro, foi secretário especial de direitos humanos de FHC e representa a ala tucana que, nos anos 1990, deu o pontapé inicial para as investigações oficiais dos crimes cometidos contra a ditadura. Também estão na lista o ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles, a psicanalista Maria Rita Khel, o ministro Gilson Dipp, do STJ e Rosa Maria Cardoso da Cunha, advogada de presos políticos, entre elas a presidenta, durante a ditadura. 
Desde o início as coisas não andam bem. Com pouco dinheiro e muito trabalho, a comissão demorou a montar uma equipe de técnicos para realizar a monumental tarefa de escarafunchar documentos perdidos e escondidos por quase 50 anos. Segundo o secretário-executivo da comissão, Pedro Pontual, apenas do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) há 16 milhões de documentos ainda em fase de catalogação e digitalização. O trabalho, diz Parente, deve terminar em julho. Por causa do enorme lapso de tempo entre os fatos e a apuração, há muita dificuldade em obter testemunhos, dada a idade avançada tanto de vítimas quanto de algozes ainda vivos. 
Até agora, a Comissão realizou 13 audiências públicas pelo País e ouviu 130 vítimas da ditadura. Em sessões excluivas, foram ouvidas 59 testemunhas. Dessas, 18 foram agentes da repressão. Outros 250 depoimentos estão programados, mas o número deverá aumentar diante da possibilidade de o prazo de investigação ser estendido para além de maio de 2014. Para facilitar as investigações, foram criados 12 grupos, divididos entre os conselheiros para tratar de temas específicos, como índios, sindicatos e a Operação Condor, a tenebrosa aliança formada no Cone Sul para perseguir adversários políticos das diversas ditaduras da região. Remontar toda essa história não erá fácil. 
Uma das peculiaridades da estrutura, o rodízio de coordenadores, mostrou-se um problema para a continuidade dos trabalhos. O primeiro coordenador do grupo, o ministro Gilson Dipp, ficou menos de dois meses na função. Um problema de saúde, ainda não totalmente sanado, o afastou. Já o ex-ministro Cavalcanti ficou afastado para produzir uma pesquisa sobre Fernando Pessoa. Sua ausência atravancou o avanço de alguns grupos de trabalho.

Por essas e outras, um movimento interno pretende manter Pinheiro à frente da comissão até o fim dos trabalhos. O consenso não agrada, porém, à ala à esquerda do governo e parte dos movimentos civis de direitos humanos. A próxima a assumir a coordenação seria Rosa Cardoso, figura ligada aos movimentos sociais e sintonizada com a preocupação de Dilma de criar uma comoção na opinião pública. 
A posição de Pinheiro é diferente. Para o diplomata, a confidencialidade de boa parte dos depoimentos é a única maneira de alcançar o objetivo proposto: apontar os responsáveis pelos crimes. Isso inclui não só os torturadores nos porões, mas a cadeia de comando e os colaboradores e patrocinadores civis. Empresários e políticos serão ouvidos. Um dos primeiros a serem convocados será Paulo Egydio Martins, ex-governador de SP. “Não há forma de concluir o trabalho a contento sem a tomada de depoimentos discretos e a reunião de provas e indícios”, argumenta Pinheiro. “Esta é a Comissão da Verdade do Brasil. Dificilmente haverá outra. Temos um compromisso histórico”. 
Segundo ele, todas as mais de 40 comissões da verdade instaladas até hoje trabalharam em sigilo, ao menos em parte. Ele cita ainda a dificuldade de obter acesso aos documentos estaduais e de órgãos federais. “Os arquivos do Itamaraty, por exemplo, só agora estão sendo analisados”. O coordenador tem no conselheiro José Carlos Dias aliado poderoso. “Não podemos colocar em risco o resultado do trabalho, a validade de nossas investigações, com a pressa em satisfazer a curiosidade da mídia e da sociedade”, diz o ex-ministro de FHC. 
A experiência histórica no Brasil alimenta o ceticismo. O argumento da cautela e da responsabilidade invariavelmente serve ao arreglo. E este sempre a favor de quem detém o poder. Se depender do estilo de Pinheiro e Dias, o mais provável é o Brasil desperdiçar a única chance de oferecer às gerações futuras a verdade sobre os fatos e a compreensão de um momento histórico vergonhoso que não pode ser repetido. Como era de se esperar, a comissão precisa também administrar o melindre da caserna. A insatisfação dos militares começou no fim de 2009, quando o governo Lula aprovou a terceira edição do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), um conjunto de propostas que simplesmente aprimorava as duas edições anteriores, ambas publicadas durantes os governos de Fernando Henrique Cardoso e sob a batuta de Pinheiro. Na versão petista, contudo, a previsão de criação da Comissão da Verdade soou mais que bravata. À época, o secretário nacional de Direitos Humanos era Paulo Vanucchi, odiado nos quartéis.

Ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Vanucchi coordenou, nos anos 1980, o projeto Brasil: Nunca Mais, operação sigilosa que resultou em um livro homônimo essencial para a compreensão da história recente do País, e base de diversas ações de resgate da memória nacional dos anos de chumbo. Publicado em 1985, o Brasil: Nunca Mais foi o primeiro esboço de uma comissão da verdade nacional. A partir de processos do Superior Tribunal Militar, desmontou a versão oficial da ditadura para a morte de dezenas de militantes de esquerda e relatou quase 2 mil casos de tortura a cidadãos brasileiros levados a cabo por agentes da repressão. 
O temor dos militares fora exagerado. Vanucchi não resisitu às pressões coordenadas pelo então ministro da Defesa, Nelson Jobim, e cedeu. Os principais pontos do plano foram bombardeados, após a ameaça de Jobim e de alguns comandantes da Forças Armadas se demitirem. Um acordo de bastidores encerrou a crise a partir de modificações pontuais, mas ladinas, no texto, basicamente com a retirada do período específico determinado para a investigação de casos de tortura durante a ditadura (entre 1964 e 1985), para estendê-lo de 1946 a 1988, período entre as duas Constituições redigidas em normalidade democrática. Trocou-se o específico pelo genérico, artifício igualmente usado para viabilizar a instalação da Comissão Nacional da Verdade em 16 de março de 2012. 
A birra dos militares empenhados na defesa da ditadura ou, na palavra deles, da “revolução”, dizia respeito ao “Eixo Orientador VI” do PNDH-3 sobre “Direito à Memória e à Verdade”. Na chamada “Diretriz 23” havia sido definido que o Estado brasileiro iria “promover a apuração e o esclarecimento público de violações de direitos humanos praticados no contexto da repressão política ocorrida no Brasil entre 1964 e 1985”. Mais ainda: falava em “identificar e tornar públicas as estruturas utilizadas para a prática de violações de direitos humanos, suas ramificações nos diversos aparelhos de Estado e em outras instâncias da sociedade”. A reação vai além do simples desejo de evitar a exposição pública dos algozes. O objetivo é evitar justamente a identificação da cadeia de comando, uma nova brecha para futuros processos judiciais contra militares. 
A comissão, ao menos em um ponto, não cederá à pressão da direita. Os crimes cometidos por grupos de esquerda durante a luta armada não serão investigados. E por um motivo óbvio: os militantes já foram punidos (torturados, assassinados ou submetidos a julgamentos de fancaria em tribunais de exceção). Muitos réus estavam mortos quando foram levados “à revelia”aos tribunais, parte da farsa montada para apresentá-los como condenados, a fim de esconder o fato de que haviam sido assassinados nos porões. Foi o caso do estudante Stuart Angel, torturado a mando do brigadeiro João Paulo Burnier, na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Depois de submetido a espancamentos e choques elétricos no pau de arara, Angel foi arrastado pelo pátio do quartel com a boca presa a um cano de descarga de um jipe militar. Morto em consequência da asfixia por monóxido de carbono, acabou na lista de desaparecidos políticos da ditadura. 
Por lei, a comissão não tem poder de tribunal. Ou seja, não pode punir os envolvidos em violações a direitos humanos. Apenas sistematizar as informações e reuni-las em um relatório final a cargo da historiadora Heloísa Starling, da Universidade Federal de Minas Gerais, assessora especial da comissão. Mas até os generais de pijama perceberam que por trás da aparente pacificidade da missão se esconde um mundo de possibilidades, todas contrárias a seus interesses. Ao concluir a identificação individual dos agentes da repressão, a comissão vai criar um fato novo com enorme potencial para reabrir as discussões sobre a validade da Lei da Anistia. A esta altura, seria um avanço.  

7 de Abril de 2013 13:12

Maluquices

por Esquerdopata
 
 Luís Fernando Veríssimo

O filme “Borat” era um pseudo-documentário mostrando a ida de um maluco do Casaquistão aos Estados Unidos para fazer uma reportagem sobre a vida americana. O personagem “Borat” era fictício, mas todas as pessoas com quem ele interagia e, muitas vezes, escandalizava, na América, eram reais. Quem se lembra do filme lembra que o único lugar em que ninguém estranha ou repele a maluquice de “Borat” é a assembleia de uma igreja pentecostal, onde estão em curso exorcismos de grupo e curas pelo toque de mãos, e fiéis pulam e correm de um lado para o outro para se livrar dos maus espíritos – porque lá a maluquice de “Borat” não destoa da maluquice ambiente. “Borat” finalmente encontra uma loucura igual à sua. Ou maior, porque não é simulada. 
O anarquista Borat teria que se esforçar para igualar, em matéria de irracionalidade e desafios ao bom senso as crenças e os ritos de qualquer religião, não apenas das pentecostais. É curioso como as pessoas condenam o lamentável Marco Feliciano por coisas como a sua interpretação literal da Bíblia e sua evocação de Satanás, mas não estendem a crítica a outros, de outras religiões, que têm a mesma adesão aos dogmas da sua igreja que o lamentável tem aos da sua. Um católico convicto e praticante também deve suspender conscientemente a razão para aceitar os princípios metafísicos da sua religião, e também acreditar na Bíblia como verdade absoluta e na ação de Satanás no mundo. 
Eu sei, eu sei. A grita é contra o fato de o Feliciano, com todos os seus preconceitos e fobias, acabar presidindo uma comissão de direitos humanos. Mas aí não estamos mais tratando dos mistérios da fé, e sim dos mistérios do processo legislativo. Ninguém me perguntou, mas apoio qualquer movimento e assino qualquer manifesto contra o obscurantismo e o sono da razão, desde que a maluquice condenada seja a de todas as religiões, e de todos os seus deuses e demônios.. 
No filme, os pastores da tal igreja pentecostal tratam a loucura de “Borat” como uma manifestação de Satanás, e têm os passes e as palavras prontos para curá-lo. Depois o “Borat” – ainda mais louco do que antes, mas quem está ligando? – se abandona à convulsão geral, e também sai pulando… 

7 de Abril de 2013 11:07

Qual a contribuição do Estadão ao país?

por Esquerdopata
 
 A agonia do Estadão
Paulo Nogueira

O Estadão está virtualmente morto.

Está cumprindo todas as excruciantes etapas da agonia dos jornais (e das revistas) na era da internet: demissões, demissões, demissões. Menos páginas, borderôs menores.

E futuro nenhum.

Pode ser que, em breve, o Estadão circule duas ou três vezes por semana, como está acontecendo com tantos jornais no mundo.

A Folha, em outras circunstâncias, vibraria. Na gestão Frias, um dos dogmas na Barão de Limeira era que apenas um jornal sobreviveria em São Paulo.

Semimorto o Estado, ficaria a Folha, portanto.

Mas os problemas da Folha são exatamente os do Estado. Pela extrema má gestão dos Mesquitas, eles apenas estão levando mais cedo o Estadão ao cemitério.

Lamento, evidentemente, cada emprego perdido por jornalistas que tiveram o azar de estar na hora errada na redação errada sob a administração errada derivada da família proprietária errada. (Os demitidos, importante que eles se lembrem disso,  terão a oportunidade de respirar ares mais enriquecedores, sobretudo na mídia digital.)

Mas o jornal, em si, não deixará saudade.

Qual a contribuição do Estadão ao país?

O golpe de 1964, por exemplo. O Estadão, como o Globo, tem um currículo impecável quando se trata de abraçar causas ruins e misturar genuínos interesses privados com interesses públicos fajutos.

Ainda hoje, moribundo, gasta suas últimas reservas na defesa de um país em que o Estado (governo)  deve servir de babá para uma minoria que, no poder, fez do Brasil um dos campeões mundiais em desigualdade.
Que colunista se salva? Quem oferece uma visão alternativa? Quem quer um país melhor, menos injusto?

Dora Kramer? Pausa para risada.

Os editorialistas mentalmente decrépitos que davam conselhos à Casa Branca mas jamais conseguiram cuidar do próprio quintal? Nova pausa.

Articulistas como Jabor? Pausa mais longa, porque é gargalhada.

O Estadão pertence a um mundo em decomposição, e cujo passamento não deixa ninguém triste.

Combateu o mau combate. Perdeu, e se vai. Poderia ter ido antes. Muitas árvores teriam sido poupadas.

7 de Abril de 2013 09:39

Viaje mais, presidente

por Esquerdopata
 
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto 

Por Marcelo Odebrecht

O tratamento dado por muitos às viagens de Lula reforça a desconfiança. Quero minhas filhas orgulhosas do que temos feito mundo afora 
Minha tendência natural perante assuntos que despertam polêmicas, como as reportagens e os artigos publicados nas últimas semanas sobre viagens do ex-presidente Lula, é esperar a poeira baixar. 
Dessa vez, resolvi agir de modo diferente porque entendo que está em jogo o interesse do Brasil e o legado que queremos deixar para as futuras gerações. 
As matérias, em sua maioria em tom de denúncia, procuraram associar as viagens a propósitos escusos de empresas brasileiras que as patrocinaram, dentre elas a Odebrecht. 
A Odebrecht foi, sim, uma das patrocinadoras da ida do ex-presidente Lula a alguns dos países citados. E o fizemos de modo transparente, por interesse legítimo e por reconhecer nele uma liderança incontestável, capaz de influenciar a favor do Brasil e, consequentemente, das empresas brasileiras onde quer que estejam. 
O ex-presidente Lula tem feito o que presidentes e ex-presidentes dos grandes países do hemisfério Norte fazem, com naturalidade, quando apoiam suas empresas nacionais na busca de maior participação no comércio internacional. Ou não seria papel de nossos governantes vender minérios, bens e serviços que gerem riquezas para o país? 
Nos últimos meses, o Brasil recebeu visitas de reis, presidentes e ministros, e todos trouxeram em suas comitivas empresários aos quais deram apoio na busca de negócios. 
Ocorre que lá fora essas ações são tidas como corretas e até necessárias. Trazem ganhos econômicos legítimos para as empresas e seus países de origem e servem para a implementação da geopolítica de governos que têm visão de futuro, como o da China, por exemplo, que através de suas empresas, procuram, cada vez mais, ocupar espaços estratégicos além fronteiras. 
Infelizmente, aqui o questionamento existe, talvez por desinformação. Permitam-me citar alguns números. A receita da Odebrecht com exportação e operações em outros países, no ano de 2012, foi de US$ 9,5 bilhões e nossa carteira de contratos de engenharia e construção no exterior soma US$ 22 bilhões. 
Para atender a esses compromissos, mobilizamos 2.891 empresas brasileiras fornecedoras de bens e serviços. No conjunto, elas exportaram cerca de 60 mil itens. Dessas, 1.955 são pequenas empresas e, no total, geraram 286 mil empregos em nosso país. É uma enorme cadeia de empresas e pessoas que se beneficia de nossa atuação em outros países e, obviamente, se beneficia também do apoio governamental a essa atuação. Esse apoio se dá, dentre outras formas, com os financiamentos do BNDES para exportação que, no caso da Odebrecht, é bom que se frise, representam 18% da receita fora do Brasil. 
Estamos em 22 países, na grande maioria deles há mais de 20 anos, e exportamos para outros 70. Como ex-presidente, Lula visitou sete, e esperamos que ele e outros governantes visitem muitos mais. 
Esses números falam por si, mas decidi me manifestar também porque não quero que disso fiquem sentimentos de covardia ou culpa para as pessoas que trabalham em nossa organização. 
Quero minhas filhas e os familiares de nossos integrantes de cabeça erguida, orgulhosos do que nós e outras empresas brasileiras temos feito mundo afora, construindo a Marca Brasil para além do samba e do futebol, ao mesmo tempo em que contribuímos para a prosperidade econômica e justiça social nos países e comunidades onde atuamos. 
A inserção internacional nos tornou um país socialmente mais evoluído e comercialmente mais competitivo porque gerou divisas, criou empregos, permitiu trazer novas tecnologias e estimulou a inovação. 
O tratamento que está sendo dado por muitos às viagens do ex-presidente Lula é míope e reforça entre nós uma cultura de desconfiança. 
Caminhar na construção de uma sociedade de confiança, fundada no respeito entre empresas, entre estas e o poder público e entre o poder público e a sociedade será muito bom para todos nós. 
MARCELO ODEBRECHT, 44, engenheiro civil, é presidente da Odebrecht S.A., empresa holding da Organização Odebrecht 

7 de Abril de 2013 02:58

Entrevista de Nicolás Maduro

por Esquerdopata
 
 Maduro no volante Mônica Bergamo 
Folha – Como será o chavismo sem Chávez, que era formulador, estrategista e porta-voz do governo? 
Nicolás Maduro – O presidente Chávez fundou um movimento revolucionário e de massas na Venezuela. Deu a ele uma ideologia e uma Constituição. Nosso processo revolucionário está constitucionalizado. Ele nos dotou de um corpo de doutrinas e de princípios. Nos deixou um testamento político, o programa da pátria, com objetivos de curto, médio e longo prazos. E promoveu um nível de participação e de protagonismo das amplas maiorias como nunca se viu na história da Venezuela. Estamos preparados para seguir fazendo a revolução. Ele formou um povo. Nos formou para um projeto. 
Mas 44% dos venezuelanos, que votaram na oposição nas eleições presidenciais de 2012, não estão de acordo com esse projeto. E se, agora ou no médio prazo, vocês perderem uma eleição? 
Nós aceitamos todas as eleições que perdemos. A Venezuela tem governadores e prefeitos de oposição. Tem deputados, 40% do Parlamento. Se algum dia ganharem, coisa que eu duvido que se passe no século 21, bem, ganhariam e assumiriam a Presidência. E teriam que ver o que fazer com o país. A Venezuela tem um povo consciente e bases sólidas de país independente em vias do socialismo. 
Vocês falam muito de unidade. Mas há vários grupos no chavismo. Não pode ocorrer um racha, como houve com o peronismo na Argentina? 
O movimento revolucionário nacional está unido ao redor da imagem, da espiritualidade e da ideologia de Chávez. De um projeto de pátria. Pátria grande. Está unido ao redor de uma direção coletiva que ele construiu. E ao redor da designação do comandante Chávez da minha pessoa como condutor da revolução para essa etapa. Estamos unidos. 
Sem a figura incontrastável de Hugo Chávez, haverá alternância na liderança do chavismo? 
Nem um “pitoniso”, um bruxo, um vidente, ninguém pode saber o que nos reserva o destino. O que te digo é que neste momento histórico estamos solidamente unidos. E o mundo deve saber que essa direção coletiva já passou por várias provas de fogo. Estamos prontos para a vitória em 14 de abril e para governar muito bem o nosso país. 
Na Venezuela, canais privados de televisão fazem campanha para o candidato de oposição à Presidência, Henrique Capriles. E canais estatais fazem campanha para o senhor. Os canais públicos são de todos. Não deveriam ser neutros? 
Os canais públicos, em uma revolução como a que estamos vivendo na Venezuela, têm que formar o povo, educar o povo, prepará-lo para essa revolução. Têm que sair defendendo a verdade frente a uma ditadura midiática que promoveu um golpe de Estado [em 2002, as emissoras privadas apoiaram a tentativa frustrada de depor Chávez]. Foi o primeiro golpe de Estado dado por canais de televisão. É preciso buscar uma leitura mais próxima do que se passa na Venezuela. Os canais públicos têm sido o contrapeso necessário e são o sustentáculo para estabilizar a sociedade. Se tivessem desaparecido nos últimos seis anos, haveria uma guerra civil. Os canais privados nos teriam levado a uma guerra de todos contra todos. 
A Globovisión, emissora privada de oposição, está sendo vendida a um empresário amigo do governo. E assim é possível que quase todos os meios sejam favoráveis ao chavismo. 
Nós soubemos pela imprensa que a Globovisión estava sendo vendida. Em todo caso, é uma negociação entre empresários amigos. É problema deles, realmente. É preciso ver como termina. Quem sabe a mensagem mais poderosa da venda da Globovisión é a de que sabem que estão perdidos. 
Eles dizem que fizeram de tudo para eleger a oposição a Chávez, o que os levou a uma situação precária. 
A Globovisión simplesmente jogou para derrubar o governo e fracassou. E o fracasso político e de comunicação os levou a um fracasso econômico. Estão quebrados, dizem eles. E simplesmente estão separados da sociedade. Sabem que vamos governar este país por muitos anos, a revolução continua. E eu creio que estão cansados já. Se cansaram, se renderam. 
O candidato Capriles diz que não tem acesso às rádios porque as que dão abertura à oposição são perseguidas. Não é importante que as vozes divergentes tenham espaço? 
Bem, mas elas têm 80% dos meios de comunicação. Se você vai agora mesmo a qualquer lugar de Barinas e compra os jornais, verá que são privados e contra o governo. As televisões regionais, as rádios, 80% a 90% delas são contra o governo. Fazem seu negócio, vendem seu produto. Eles [oposição] têm todos os meios, nós temos um só: a consciência popular, que os derrota todos os dias. Quanto mais veneno jogam, mais as pessoas reagem. Você pode andar por qualquer lugar em Caracas. Encontrará um povo com consciência. Como se criou isso? Com a liderança do presidente Chávez, que era pedagógico, saía à rua, falava, formava as pessoas. 
Não há um culto à personalidade de Chávez na Venezuela? 
Não houve em vida e agora o que há é amor. Culto ao amor, ao agradecimento do povo a um líder que já é chamado na América de Cristo Redentor dos Pobres. Um homem que transcendeu as nossas fronteiras. 
A chamada “união cívico-militar” é um dos pilares do chavismo. Em um continente como a América Latina, com histórico de golpes militares, não seria melhor que as Forças Armadas estivessem afastadas do processo político? 
Nós temos Forças Armadas que resgataram os valores do libertador Simón Bolívar, que têm uma doutrina anti-imperialista e anticolonialista, latino-americana, própria. Você sabe que os EUA estão funcionando como um vampiro sedento, buscando as riquezas petroleiras e os recursos naturais do mundo com guerras, invasões. E as nossas Forças Armadas têm agora uma doutrina de defesa integral do país, das maiores reservas petroleiras do mundo. Defendem o nosso sonho, a nossa terra. 
Têm uma doutrina nacionalista, revolucionária, assumiram o socialismo como causa da humanidade para construir uma nova moral. Aqui se formavam oficiais com os manuais da Escola das Américas [financiada pelos EUA], que formou as Forças Armadas latino-americanas por cem anos. Ensinavam os nossos oficiais em inglês, quase sem tradução. É uma vergonha que não ocorre mais. 
No Brasil é considerado uma grande conquista o fato de as Forças Armadas não interferirem mais na política interna. Por princípio, não seria melhor que na Venezuela elas também estivessem nos quartéis e a disputa política ocorresse somente entre civis? 
Não, é um erro. As Forças Armadas não podem estar nos quartéis. Têm que estar nas ruas, na fábrica, nos bairros, com o povo, para poder defender a pátria. Não podem ser uma elite alijada. Não. Têm que fazer parte do mesmo povo. 
E com forte participação política? 
Bom, depende do que você entende por política. O que as nossas Forças Armadas não têm é formação partidária. Você não vai ver nenhum oficial mandando votar por nenhum partido político, nem fazendo campanha por um partido. 
Não, presidente? Quando o ministro da Defesa, Diego Molero, diz que as Forças Armadas tudo farão para atender aos desejos de Chávez, isso é interpretado como um pedido de voto para o senhor. 
Bem, o que as pessoas têm que saber, e oxalá se saiba no Brasil, é que o nosso almirante-em-chefe Molero deu essa entrevista um dia depois da morte do nosso presidente. E o candidato da oposição havia ofendido fortemente a família do presidente. Duvidou da morte do presidente. Colocou em questionamento a possibilidade de eu assumir a Presidência [Maduro era vice]. Nossos oficiais estavam indignados. E ele [Molero] então disse “respeitamos o nosso novo comandante-em-chefe Nicolás Maduro, presidente da República”. Foi um gesto constitucional e também moral. Não eleitoral. 
O governo do ex-presidente Lula diminuiu a pobreza mas nunca falou em mudar as estruturas capitalistas da sociedade brasileira, como pregava Hugo Chávez na Venezuela. O que o senhor acha de quando colocam o “lulismo” em contraponto ao “chavismo”? 
Cada país tem o seu ritmo. Eu fui testemunha de pelo menos 14 reuniões do presidente Lula com o presidente Chávez. E posso te dizer que eram dois irmãos. Os dois se entendiam perfeitamente. E os dois sabiam que tanto o que Lula fazia, como grande líder do Brasil, quanto o que Chávez fazia aqui era parte de um só processo, de libertação da América Latina. 
Não tem a esquerda boa, com Lula, e a esquerda má? 
Tentou-se por muito tempo [dizer isso]. Em 2007, havia toda essa campanha brutal contra o presidente Chávez. E Lula propôs, para que eles não brigassem… ele dizia assim: [imitando Lula] “‘Chávess’, vamos fazer uma coisa. Vamos nos reunir a cada três meses para acabar com a intriga”. E assim se fez. Foram mais de 14 reuniões a partir daí. Agora, sim, o que posso te dizer: Lula para nós também é um pai. Porque Lula é fundador das correntes de esquerda de novo tipo que surgiram nos anos 80 adiante. Nós nos inspiramos na ética de Lula, na energia dele, em sua liderança trabalhadora. 
Mas Lula, como eu disse, não fala em mudar o capitalismo. 
Cada um lidou com a circunstância histórica do seu país. E Lula empurrou o Brasil até uma grande onda progressista, de prosperidade, de desenvolvimento. 
O candidato Capriles diz que o modelo dele é Lula. 
Para a direita pega muito mal… para uma direita que nunca trabalhou pega muito mal colocar-se “barba a barba” com Lula. Lula ganhou trabalhando nos fornos da luta, da história. 
Ele elogia Lula por combater a pobreza sem mexer no setor privado. 
Se há algo a dizer de Lula, Néstor Kirchner, Cristina [Kirchner] e outros líderes é que são, na essência, antineoliberais. Libertaram nossos países do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. E essa direita que trata de se colocar disfarçada de Lula é, em sua essência, privatizadora, dependente da forma neoliberal e do FMI. Não têm nada que ver com o legado nem com o patrimônio político e cultural dos valores que Lula representa. 
No governo Chávez, a presença do Estado avançou. Mas o setor privado ainda representa 58% da economia. Se vitoriosos, vocês vão estatizar mais empresas, mais setores? Até onde vai o que chamam de “socialismo do século 21”? 
O socialismo do século 21 é diverso. Tem as particularidades e está enraizado na dinâmica verdadeira de cada país. Cada um tem a sua realidade. E não podemos achar que há menos ou mais socialismo porque o nosso, o boliviano, o equatoriano, o nicaraguense ou o cubano não se parecem com as experiências da antiga União Soviética ou da Romênia. 
Há lugar então para um setor privado forte? 
A história está por ser escrita. Há espaço para investimentos que venham a desenvolver um modelo produtivo e inclusivo. Lamentavelmente na Venezuela os cem anos de modelo de rentismo petroleiro não permitiram que surgisse um capital forte. No fundamental, o capital se articulou à renda petroleira sem gerar capacidade produtiva e desenvolvimento tecnológico. Esse capital não tem visão de país, nacionalista. 
É diferente do que se passou no Brasil ou na Argentina, por exemplo, que tiveram burguesias nacionais. Na Venezuela não há burguesia nacional. Nossas dificuldades são então maiores. Os setores que se dedicaram à atividade econômica privada têm laços de dependência muito forte com o capital estadunidense. 
É por isso que estão em todos os processos de sabotagem da economia e da política. Quem sabe agora comece a surgir, e vem surgindo, um setor misto de capital venezuelano e de investimentos de outras partes do mundo. Capital brasileiro, argentino, uruguaio, em aliança com um novo capital privado na Venezuela. 
Uma burguesia vinculada fortemente ao Estado? 
Todo esse modelo está em elaboração. Nesse momento estamos fazendo um chamado e buscando instrumentos para financiar e construir setores privados que sejam nacionalistas e que nos permitam diversificar a economia. 
Privado integralmente? 
Claro. Totalmente. Com financiamento, incentivo. De todos os tamanhos, pequeno, médio, grande, vinculado à tecnologia, à indústria, ao comércio. Vinculado ao capital de outras partes do mundo, Brasil, Argentina, Rússia, China. Capital estadunidense. 
Então Cuba é inspiração para o chavismo, mas não o modelo a seguir. 
Cada um tem suas particularidades. A Cuba coube viver uma história dos anos 60, 70, muito marcada pela chamada Guerra Fria. Bem, Cuba foi contra nossos antigos modelos políticos, sociais, econômicos. 
E está se abrindo. 
Cuba tem seu próprio processo de aperfeiçoamento do socialismo. Precisamente o bonito da Alba [Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, integrada por países como Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba e Nicarágua] é que nós todos temos formas diversas de economia. E diversos conceitos do que é o socialismo neste momento em cada país. E podemos andar juntos, e vamos aprendendo uns com os outros. 
Acredita que é possível o socialismo pela via democrática, como Salvador Allende [ex-presidente do Chile que sofreu um golpe militar em 1973] tentou, sem sucesso? 
Até agora, sim, creio que é possível. Creio inclusive que, salvo se o império estadunidense ficar louco e pretender nos derrotar pela via da força, ou invadir esse país, o caminho da Venezuela seguirá sendo a democracia ampla, profunda, de amplas liberdades e transformações pacíficas, que são as que de verdade deixam raízes. Toda transformação que se dá pela via do debate democrático e da decisão popular são decisões verdadeiras que têm solidez na soberania e na consciência dos povos. 
Se a Venezuela continuará a ter um setor privado forte, como se chegará então ao socialismo? 
O socialismo tem várias dimensões. A principal delas é a espiritual, a moral, a ideológica, de transformação do ser humano. E quando o ser humano dessa sociedade, por todo processo de educação, de nova cultura, de nova prática política, de participação, de novas relações econômicas, de produção, começa a funcionar de outra forma, então existem as condições para a sociedade socialista, que supere o individualismo, o desejo de riqueza individual. E, cavalgando junto, vão as transformações para um novo modelo econômico, que supere, no caso da Venezuela, o capitalismo rentístico, especulador. E que faça as bases de uma economia produtiva, diversificada, que crie riqueza para ser distribuída através da saúde, educação, alimentação, seguridade social, para que o povo tenha níveis de vida dignos, para que se supere a pobreza definitivamente. 
Quando Chávez morreu, a presidente Dilma Rousseff fez elogios, mas disse que em muitas ocasiões o governo brasileiro não concordou com o da Venezuela. 
Nós integramos a Unasul [União das Nações Sul-Americanas], o Mercosul, comunidades democráticas onde se debatem ideias. E quando se debatem ideias normalmente surgem opções. 
O Banco do Sul, por exemplo, do qual fariam parte os países da América do Sul, não foi aprovado ainda no Congresso brasileiro. Está lento. 
Você sabe que os temas que têm que ver com o parlamento sempre são lentos. Nós temos uma comissão já de caráter presidencial que reúne os delegados de cada presidente do Banco do Sul. Tudo está pronto. Só esperamos que o Congresso brasileiro o aprove para que entre em vigência de maneira rápida, automática. 
O Brasil também não integrou a TeleSur [emissora financiada por vários países latino-americanos], o projeto do gasoduto do sul [que ligaria Venezuela, Brasil e Argentina] não andou. 
Bem, são projetos sobre os quais têm havido debates. A TeleSur é uma linda realidade de comunicação alternativa que venceu a ditadura midiática das grandes cadeias de televisão. Quem sabe mais adiante [o governo brasileiro se integre ao projeto]. Seguramente as portas da TeleSur estão abertas para o governo da presidenta Dilma e de qualquer iniciativa que venha a fortalecê-la. 
E a refinaria Abreu e Lima [parceria da Petrobras com a petroleira venezuelana PDVSA que até agora, por divergências em relação ao financiamento, conta com recursos apenas do Brasil], como está? 
Não tenho os detalhes atualizados, mas sei que marcha agora melhor. E que vai ter um final feliz. 
A economia é considerada uma má herança de Chávez. A inflação é alta. Há um certo nível de desabastecimento, de 20%. E uma dependência muito grande do petróleo. Haverá ajustes no governo? 
No dia 22 de fevereiro, conversamos por cinco horas com o presidente Chávez sobre temas econômicos. E ele disse: “Veja, Nicolás, estamos em uma guerra econômica”. Porque, com a enfermidade do presidente, os interesses econômicos nacionais e internacionais se lançaram a desabastecer [o país] de produtos, a especular com os preços e com o valor do dólar. Eles acreditavam numa hecatombe econômica que chegaria a uma explosão social e a uma desestabilização política. Nós estamos enfrentando. Vamos torcer o braço do dólar paralelo, vamos torcer até lá embaixo. 
E a inflação? 
É um problema do funcionamento especulativo do capital. A inflação nos 14 anos antes do presidente Chávez foi de 34%. Nestes 14 anos com ele, baixou para 22%. Planejamos levá-la à metade nos próximos dez anos. Oxalá possamos chegar a um dígito. 
Haverá corte de gastos? 
O mais importante é que os gastos se convertam em investimento social para proteger o povo e econômico para girar riqueza no país. E isso é uma dinâmica bendita que vai gerando mudanças na estrutura econômica e vacinando o país da especulação como sistema de fixação de preços e de movimentos da economia. 
6 de Abril de 2013 19:00

Ratoeira capitalista

por Esquerdopata
 
 
6 de Abril de 2013 18:00

Polícia para quem ?

por Esquerdopata
 
 
6 de Abril de 2013 13:00

Falta a mídia na Comissão da Verdade

por Esquerdopata
 
 A mídia na ditadura
Mauricio Dias

Falta um tema na variada agenda da Comissão Nacional da Verdade. Criada com a finalidade de apurar as violações dos direitos humanos, ela não incluiu na pauta de trabalho a análise do papel da imprensa, como é feito com a Igreja, por exemplo, durante a ditadura, articulada e sustentada por civis e militares. 
A imprensa foi arauto da trama golpista contra o presidente João Goulart. Sempre conservadores, os “barões da mídia” brasileira agem na fronteira do reacionarismo. Apoiar golpes, por isso, não chega a ser exatamente novidade. Alardeiam o princípio do liberalismo sem, no entanto, se comprometer com a democracia. Assim promovem feitiços, como o de 1964, e tornam a própria imprensa vítima da feitiçaria. 
Patrões e empregados são testemunhas importantes de uma história que precisa ser passada a limpo. É necessário ir além do que já se sabe. Isso só ocorrerá com o depoimento daqueles que viveram os episódios ou estiverem próximos deles. 
A ditadura “exerceu o terror de Estado e provocou medo na sociedade civil. Não há indícios, porém, de que o medo fosse a razão do consentimento” que a imprensa deu aos generais, como anota a cientista política Anne-Marie Smith, no livroUm Acordo Forçado. 
Ela põe o dedo na ferida ainda aberta: “E se outros jornais tivessem protestado quando o general Abreu proibiu qualquer publicidade do governo no Jornal do Brasil em 1978?” E se aproxima da resposta: “Os obstáculos à solidariedade não foram criados, nem reforçados, nem explorados pelo regime. A falta de solidariedade foi uma desvantagem gerada pela própria imprensa”. 
No governo Geisel, o ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira, vetou novas concessões ao nascente Sistema Globo por receio de que Roberto Marinho chegasse ao monopólio da opinião pública. Ele então foi ao ministro da Justiça, Armando Falcão, e falou “do constante apoio” que deu ao governo. 
“Disse também que o comportamento da Rede Globo deveria fazê-la merecedora de atenção e favores especiais do governo”, registra o livro. 
Marinho apelou sem constrangimentos. Ameaçou vender a Rede Globo, caso não tivesse apoio para continuar a crescer. O resto da história todo mundo sabe. 
A mídia reage, hoje, ao projeto sobre a -atualização das leis de comunicação com o argumento falso e insensato de que o objetivo é censurar. No entanto, em plena ditadura, adotou a inércia e o silêncio diante dos atos concretos de restrição à liberdade de escrever. Não de escrever sobre tudo, mas somente sobre certos assuntos como tortura e assassinato nos porões da ditadura. Essa é a diferença em relação à genérica denúncia de restrição à festejada liberdade de imprensa. 
A censura, nesse contexto, cumpria outro papel. Excluía a responsabilidade direta dos donos da mídia e de muitos editores autoritários coniventes, que sempre se desculparam ao apontar a censura governamental como a razão do silêncio. 
A ditadura seria outra – talvez ditabranda – contada a partir do que foi publicado na ocasião. 
Para a imprensa conservadora, reacionária nos anos de chumbo, esse tema dói. É um nervo exposto.

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