GRANDE MÍDIA CRIA “NERDS” PARA EVITAR A “VINGANÇA” DOS NERDS BRASILEIROS

por Alexfig
 
 
Por Alexandre Figueiredo

“Vamos virar nerds antes que os nerds os sejam”. É esse o mandamento da grande mídia e do mercado brasileiros, e mais uma vez um pretenso “nerd” dá as caras usando e abusando do termo, aproveitando-se do modismo lançado mundialmente por eventos tipo Comic Con.

Depois da Editora Abril, através da revista Info Exame, ter dito que o “humorista” Rafinha Bastos é “nerd”, é a vez de O Globo vir com o “nerd assumido” Eduardo Spohr, autor do blogue Jovem Nerd e escritor de livros, em entrevista publicada anteontem.

O texto começa infeliz, pois, querendo “fugir dos estereótipos” nerds, investe num estereótipo pior ainda, já definido na citação de um depoimento do autor: “Se um cara sabe tudo sobre o Flamengo, por exemplo, sabe a escalação do time em 1937 e todos os gols jamais feitos pela equipe, ele é um nerd”.

Spohr se afirma, e insiste em ser reconhecido como um “nerd autêntico”. Mas, observando o perfil dele e do tipo de nerd que ele deseja difundir, um estereótipo “livre de estereótipos” que encaixa bem numa sociedade de uma intelectualidade cultural “sem preconceitos” mas muito preconceituosa, dá para perceber que Eduardo Spohr é tão nerd quanto Eike Batista é um trotskista.

O “nerd” sonhado por Eduardo Spohr, diferente dos “estereótipos” difundidos por filmes como Vingança dos Nerds e o seriado Big Bang Theory, na verdade possui caraterísticas que soam muito estranhas para o verdadeiro nerd, e se encaixam mais em fraternidades de atletas fortões que praticam bullying.

Mais próximo do perfil de rapaz “desajeitado” (mas nada nerd) de filmes como Se Beber Não Case e de comerciais de cervejas Nova Schin e Skol, o “nerd brasileiro” é fanático por futebol, por filmes de pancadaria e seu sucesso com as mulheres chega a ser demasiado positivo para a realidade de um nerd médio, principalmente no Brasil. 

Se fosse personagem de Vingança dos Nerds, Eduardo Spohr seria seguramente um membro da fraternidade Alfa-Beta, a dos atletas valentões, até porque ele demonstrou ser fanático por esportes, filmes violentos, e tudo o mais, como deixou claro em várias postagens do Jovem Nerd.

A única coisa que une esses pretensos nerds e os nerds verdadeiros é a fixação por informática e histórias em quadrinhos. Mas isso é insuficiente para definir os pretensos nerds “cervejão” como autênticos. Seria como se classificássemos um neoliberal como “guevariano” só porque ele urina num banheiro público.

Há uma obsessão nos brasileiros em serem o que não são, de serem até o oposto do que realmente são. Metade dos jovens neoliberais brasileiros se dizem “de esquerda”. Em São Paulo, uma “rádio rock” na verdade não passa de uma emissora pop como qualquer outra, mas cheia de pretensões. As mulheres-objetos que servem à mídia machista se autoproclamam “feministas” e por aí vai.

A grande mídia festeja com exemplos tipo Eduardo Spohr – que nada tem a ver com o tipo de nerd clássico nem de nerd flexível, ele na verdade é um pseudo-nerd – , com obsessão com o termo nerd mas com o interesse de desvirtuar os conceitos originais da palavra, porque desse modo os verdadeiros nerds (aqueles que têm mais a ver com Lewis Skolnick e Leonard Holfstadter) acabam perdendo seu espaço.

No fim, os pretensos nerds acabam fazendo bullying nos nerds verdadeiros. Vai que os nerds verdadeiros são “premiados” pelos pretensos nerds brasileiros a virarem gandulas de futebol, a ganharem trotes de valentões ou a namorar boazudas descerebradas de corpos siliconados.

Entendemos, através da sociologia, que, assim como a essência do falso é se passar por verdadeiro e acusar o autêntico de ser uma “fraude”, os falsos nerds, estereotipados pela mídia, é que chamam os verdadeiros nerds de “estereotipados”. Sheldon Cooper não iria com a cara de Eduardo Spohr.

Houve um tempo em que nerd tinha um sentido pejorativo. Hoje virou modismo, com as tais “novas tonalidades”, dentro de um Brasil que constrói o novo em bases velhas, e iria construir mesmo a “cultura nerd” através de valores deixados pelos valentões do bullying.

Hoje pretensos nerds querem tomar o lugar dos autênticos, só porque gostam de quadrinhos e informática. Mas qualquer um gosta de quadrinhos e informática, qual é a diferença? Daqui a pouco vão dizer que até Reinaldo Azevedo é nerd. Aí vai virar bagunça.

6 horas atrás

O GLOBO E A SUA CONCEPÇÃO DE “REGULAÇÃO DA MÍDIA”

por Alexfig
 
 
Por Alexandre Figueiredo

O editorial de anteontem do jornal O Globo dá o tom falsamente “imparcial” da posição que os barões da grande mídia têm a respeito da regulação da mídia. Desqualificando a mobilização que se vê na blogosfera progressista, o editorial, como em toda manifestação do nível, acusa toda a campanha por uma regulação democrática dos meios de comunicação de “mera militância petista”.

Enquanto isso, o editorial defende o ministro das Comunicações Paulo Bernardo (na direita da foto, ao lado de Cândido Vaccareza), que, apesar de ser ligado historicamente ao PT, decidiu se opor à qualquer hipótese de regulação midiática, algo que anda afetando sua reputação nos meios esquerdistas.

A defesa do editorial de O Globo é tal que o texto leva a sério a patética declaração do ministro: “(…) algumas pessoas veem a capa da revista, não gostam e querem que eu faça um marco regulatório. Isso não é possível porque a Constituição não prevê esse tipo de regulação para a mídia escrita”.

Entre outros argumentos politicamente corretos como sugerir que “há muita coisa a discutir: a atuação de sites controlados do exterior no jornalismo e entretenimento; a necessidade de produção local; o papel das telefônicas no processo de fusão de mídias, entre outros temas”, o texto ainda faz a defesa do monopólio do grupo Clarín na Argentina.

“Em nome da necessidade de se estimular a concorrência no mercado de imprensa e entretenimento — como se ela já não existisse no país —, força-se a quebra de conglomerados de comunicação, para que eles passem a depender de verbas públicas, o fim de sua independência”, diz o texto do editorial, usando o pretexto da “livre iniciativa” para defender a hegemonia midiática do grupo Clarín na Argentina.

O que sabemos, fora da restritiva órbita midiática, é que a regulação da mídia nada tem a ver com receituário político-partidário, mas de um controle social que pretende frear os abusos cometidos pelo poder midiático, que geralmente adotam visões preconceituosas e estereotipadas da realidade. A grande mídia diz “defender” a regulação, mas desde que mantenha seu poderio de dominar e manipular a sociedade.

Num tempo em que as Organizações Globo, através de um de seus chefes jornalísticos, Ali Kamel, aciona processos judiciais contra blogueiros progressistas, a regulação midiática deveria ser uma solução. Mas infelizmente não é. E o que vemos é a grande mídia ampliando cada vez mais seu poder, através das mais diversas maneiras.

A grande mídia fala de uma “democracia” que, na verdade, é defendida por grupos privados no qual os interesses não são da maioria das pessoas ou dos segmentos sociais envolvidos, mas do poder de visibilidade dos veículos privados de comunicação.

O que a proposta de regulação da mídia quer fazer é evitar que prevaleça essa visão nada democrática de “democracia”. É recuperar o interesse público e deixar que as classes populares deixem de ser meras espectadoras e consumidoras do espetáculo midiático, mas cidadãos capazes de dizer não aos abusos e imposições do poderio midiático, através de uma regulação democrática e constitucional.

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