Vídeo de Feliciano com Cabral gera repercussão nas redes sociais

por Luis Soares

Sérgio Cabral não economizou elogios a Marco Feliciano em sua campanha a deputado federal, em 2010: “É tudo o que o povo brasileiro precisa, de gente de bem, que ama o povo”. O pastor hoje é alvo de protestos pelo Brasil por conta de seus posicionamentos homofóbicos e machistas

No início de março, o deputado e pastor evangélico Marco Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos. Sua eleição causou indignação de diversos setores da sociedade. Ele é acusado de racismo e homofobia por declarações públicas em relação a negros e homossexuais.

vídeo feliciano cabral

Marco Feliciano e Sérgio Cabral. Governador do RJ rasgou elogios ao pastor em 2010 (Assista ao vídeo abaixo)

Desde então, protestos contra a eleição estão sendo realizados em várias cidades do Brasil, até em Paris e Berlim.

Em sua campanha para deputado em 2010 no entanto, Feliciano recebeu diversos elogios do governador Sérgio Cabral (PMDB), em um vídeo:

“Eu fico muito feliz em ver o Marco Feliciano apostando na vida pública. É tudo o que o povo brasileiro precisa, que a Câmara Federal precisa. De gente de bem, de gente séria, de gente honesta, de gente que ama o povo e que quer fazer o bem para o povo. Portanto, São Paulo tem uma oportunidade maravilhosa de levar à Câmara Federal um homem como Marco Feliciano…”, disse Cabral.

“Com uma palavra dessa, Brasília me espera”, encerra Feliciano.

Em nota, a assessoria de imprensa do governador Sérgio Cabral afirmou que, ao gravar as imagens, em 2010, o peemedebista não conhecia “a posição do deputado Feliciano”. A nota destacou ainda iniciativas do governador contra ahomofobia.

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“O governador é defensor de iniciativas a favor de minorias, como sistema de cotas no estado, direito a pensão para companheiros de mesmo sexo no serviço público do estado, conforme o caso, tal qual é concedido a heterossexuais. O governador é contra o preconceito. Ele desconhecia a posição do deputado Feliciano. A vida pública e iniciativas concretas do governador são claras”, diz o texto.

Assista:

com Brasil 247. Edição: Pragmatismo Politico

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4 horas atrás

Academia Brasileira de Letras: João Ubaldo Ribeiro vs. FHC

por Luis Soares

João Ubaldo Ribeiro já garantiu que FHC só se tornaria membro da Academia Brasileira de Letras por cima de sua vaga. À época, pelo menos um opositor o ex-presidente tinha. Mas agora, como colunista de O Globo e possivelmente com outros interesses, Ubaldo vai continuar a fazer oposição?

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez uma frase sua entrar para a história: “Esqueçam tudo o que eu escrevi”. Agora, porém, o que o tucano escreveu poderá levá-lo ao topo da glória com uma indicação à Academia Brasileira de Letras (ABL), que está prestes a se concretizar, já que FHC não deve ter candidato à altura para a cadeira de João de Scantimburgo.

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João Ubaldo Ribeiro já disse que FHC só entraria na Academia Brasileira de Letras por “cima de sua vaga”. E agora, o discurso mudou? (Foto: Reprodução / Web)

Hoje FHC tem o lugar praticamente garantido, e já recebe o apoio do ex-presidente e também membro da ABL José Sarney. Mas nem sempre foi assim. Em outubro de 1998, quando o tucano acabava de vencer a reeleição, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, também membro da Academia, se declarou fortemente contra a ideia de um dia o então presidente se candidatar à ABL. E garantiu, por meio de um artigo, que faria de tudo para que isso não ocorresse.

“(…) se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais”. O texto de João Ubaldo, que traz duras críticas ao presidente, foi feito para o jornal O Estado de S.Paulo – para onde o jornalista escrevia – e a princípio censurado, uma vez que a imprensa da época era totalmente favorável ao governo do PSDB. Acabou sendo publicado uma semana depois no próprio Estadão, mas tornado conhecido apenas entre as redações e os intelectuais.

Leia abaixo a íntegra do artigo de João Ubaldo Ribeiro publicado em 1998 e resgatado por Leandro Fortes, da Carta Capital, em julho de 2010, quando saíram as primeiras notícias sobre a candidatura de FHC à ABL.

Senhor Presidente – João Ubaldo Ribeiro

25 de outubro de 1998

Senhor Presidente,

Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública – o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vag abundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.

Brasil 247

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4 horas atrás

Vamos taxar as grandes heranças por um Brasil menos desigual?

por Luis Soares

Alguns dirão que isso é inveja de pé-rapado ou uma glutona sanha comunista devoradora de criancinhas. Mas o Brasil deveria, urgentemente, ressuscitar o debate sobre a introdução de um imposto decente sobre grandes heranças

Leonardo Sakamoto, em seu blog

É justo que todos que suaram a camisa e conseguiram guardar algum queiram deixar uma vida mais confortável para seus filhos e netos. Contudo, a partir de uma determinada quantidade de riqueza, o que seria apenas garantir conforto transforma-se em transmissão hereditária da desigualdade social e de suas conseqüências.

Nesse sentido, quem tem muito deveria, ao passar desta para a melhor, entregar a maior parte do possuía para proporcionar oportunidades a quem tem menos. Atenção: não estou dizendo para entregar dinheiro vivo a quem não tem nada, caros leitores que não gostam de ler. Estou falando em usar os recursos para a execução de políticas públicas de educação, cultura, lazer, moradia, alimentação, enfim, vocês entenderam, direitos básicos. Afinal de contas, como é possível que, por lei, todos nasçam iguais em direitos se alguns vêm ao mundo sistematicamente “mais iguais” que outros?

Dessa forma, dentro de algumas gerações, conseguiríamos suavizar esse degrau brutal entre as diferentes castas brasileiras. Novamente, não estou sugerindo que todos usem uniforme caqui, morem em alojamentos coletivos e cozinhem ensopado de batata. Pois o ultrajante não é alguém morar em um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro vive em um de 40. O que me desconcerta é alguém desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto outro apanha da polícia para manter seu barraco em uma ocupação de terreno, seja em São José dos Campos, Eldorados dos Carajás, São Paulo, onde for.

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O então senador Fernando Henrique Cardoso, antes de pedir que esquecessem o que ele escreveu, defendeu a taxação de grandes fortunas no Congresso Nacional. Luiz Inácio Lula da Silva, antes de se tornar querido do mercado, também defendia abertamente a redução na jornada de trabalho.

Alguns vão dizer que estou louco, que isso vai contra a ideia de propriedade privada, pilar sobre o qual nossa civilização está (infelizmente) construída. E que, sem a possibilidade de herança, tudo vai desmoronar, ninguém vai querer investir no desenvolvimento do país, viveremos em cavernas plantando juta para roupas costuradas com espinho de peixe e faremos chá de capeba ou pariparoba para curar todas as doenças.

Mas vejamos o que acontece lá fora. Não precisamos ir muito longe, é só procurar um país socialista. Os Estados Unidos, por exemplo. Lá, os impostos de herança podem devorar até 40% dos bens se a pessoa for muito rica. Até porque há uma progressividade: quanto mais rico, maior a porcentagem cobrada. E há uma teto de isenção de cerca de 5 milhões de dólares por pessoa.

Para quem não sabe, uma das razões que leva aos bilionários norte-americanos a criarem fundações e transferirem seus fundos a elas é que essa doação conta com isenção tributária. Além disso, o doador pode continuar usando o valor doado em vida de forma isenta. Ou vai para a caridade ou para o Estado. Melhor, porém, do que ir para a própria prole. Ainda mais quando ela não respeita a vida humana e é do tipo que atropela ciclista em alta velocidade com um Mercedes-Benz SLR McLaren.

Por aqui, nós temos o Imposto sobre Transmissão, Causa Mortis e Doação (ITCMD), que pode adotar valores como 2,5%, 4% ou 6, com tetos de isenção que chegam a algumas centenas de milhares de reais, variando de Estado para Estado. Mas isso ainda é muito pouco. Quase não faz cócegas, quando não é subnotificado e sonegado.

A força de um futuro imposto sobre heranças, que morda progressivamente, na proporção do tamanho da fortuna, não reside apenas nos recursos que ele é capaz de arrecadar, mas no simbolismo de um Estado que assume o papel de corrigir distorções históricas e de tratar desiguais de forma desigual.

Ele tem o mesmo DNA de projetos como a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, aumento da licença maternidade, taxação de grandes fortunas, correção dos índices de produtividade da terra, entre outros, que são tratados por muitos como o tabu de dormir com a mãe.

O então senador Fernando Henrique Cardoso, antes de pedir que esquecessem o que ele escreveu, defendeu a taxação de grandes fortunas no Congresso Nacional. Luiz Inácio Lula da Silva, antes de se tornar o queridão do mercado, também defendia abertamente a redução na jornada de trabalho. O poder muda as pessoas, é fato. O pior é ter que ouvir dos próprios que eles não mudaram, apenas ganharam uma consciência ampliada a partir da cadeira que ocuparam.

Já disse aqui e repito: isso me leva a crer que a culpa por tudo isso é da maldita cadeira do Palácio do Planalto. Ela tem um encosto e precisa de uma sessão de descarrego antes que faça novas vítimas. Urgentemente.

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5 horas atrás

Vírus da dengue: a confusão na hora de diagnosticar a doença

por Luis Soares

Vírus dissimulado. É comum confundir os sintomas da dengue com os de uma simples gripe, por isso é preciso estar atento aos sinais da doença

Por Drauzio Varella

São quatro os vírus causadores da dengue: sorotipos 1, 2, 3 e 4. A infecção por um sorotipo confere imunidade duradoura contra ele, mas não protege contra os demais. A infecção sequencial por sorotipos diferentes aumenta o risco de formas graves da doença. A gravidade está ligada ao comprometimento da função do endotélio, camada que reveste a parte interna dos vasos sanguíneos. A infecção rompe o equilíbrio por meio do qual essa camada regula o tráfego de moléculas para dentro e para fora dos capilares. Como consequência, a albumina e outras proteínas do sangue extravasam para os tecidos vizinhos (espaço extravascular), eventualmente causando queda de pressão e choque.

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Drauzio Varella é um médico oncologista, cientista e escritor brasileiro (Foto: Reprodução)

A maioria dos casos é assintomática. Quando presentes, os sintomas podem simular quadros gripais ou evoluir para complicações com risco de morte. Quando há queda da pressão arterial, a dengue recebe o nome de hemorrágica, denominação imprópria porque um doente pode entrar em choque sem sofrer hemorragia, enquanto outro apresenta sangramento sem alteração da pressão arterial.

Essa inadequação levou a OMS a propor a classificação da doença em duas categorias: dengue sem complicações e dengue grave, esta quando há extravasamento de plasma, que leva ao choque, acúmulo de líquido na pleura ou no abdome, sangramento grave ou falência de órgãos.

O período de incubação é de três a sete dias. Os sintomas se instalam de forma abrupta, com febre alta e calafrios. A evolução compreende três fases: febril, crítica e de recuperação. Na fase febril, picos que ultrapassam 38,5 graus são acompanhados de dor de cabeça (que se inicia atrás dos olhos), vômitos, dores nos músculos e articulações, e áreas de eritema na pele. Podem surgir hematomas e pontos hemorrágicos no corpo (petéquias). O hemograma mostra queda do número de glóbulos brancos e de plaquetas. Essa fase dura de três a sete dias, depois dos quais a maioria dos pacientes se recupera sem complicações.

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A fase crítica aparece entre quatro e sete dias depois do primeiro sintoma, durante o período de efervescência. É caracterizada pelo extravasamento de líquido e de proteínas para fora dos capilares, aumento da concentração dos glóbulos vermelhos no sangue, derrame pleural e ascite. Na tentativa de preservar a irrigação dos órgãos, o pulso fica mais acelerado e a frequência cardíaca aumenta.

O problema se agrava quando a pressão arterial cai, a circulação periférica entra em colapso e se instala o choque, que torna mandatória a internação em -unidade de terapia intensiva. Os sinais que permitem suspeitar da iminência de choque são: dores abdominais persistentes, vômitos, ascite, derrame pleural, sangramento nas mucosas, agitação e letargia.

Esse período crítico termina entre 48 e 72 horas, com a reversão espontânea do extravasamento capilar e melhora do estado geral. Na fase de recuperação pode reaparecer na pele o eritema da fase febril, seguido de descamação. Pacientes adultos eventualmente se queixam de fadiga intensa com semanas de duração.

O diagnóstico é confirmado pela presença de componentes do vírus no sangue ou indiretamente pela identificação de anticorpos contra eles, detectáveis a partir do quarto dia de infecção. Não existem medicamentos eficazes contra o vírus, embora haja alguns em fase de teste. O tratamento consiste em manter a hidratação e combater os sintomas com repouso, antieméticos e antitérmicos, como a dipirona.

Remédios que contêm ácido acetilsalicílico jamais devem ser administrados, porque aumentam o risco de sangramento. Como muitos deles são populares, é obrigatório conferir a bula.

Pacientes com dengue grave precisam ser internados para hidratação intravenosa, controles laboratoriais, administração de drogas para elevar a pressão, transfusões de sangue e outros cuidados intensivos capazes de reduzir a mortalidade dos casos mais graves para menos de 1%.

Não é possível acabar com a dengue, mas é vergonhoso conviver com índices de mortalidade altos como os nossos.

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5 horas atrás

“A noite que durou 21 anos”

por Luis Soares

A noite de 31 de março para 1º de abril de 1964 foi o começo da escuridão. As sombras da noite de vinte e um anos avançaram mais do que deviam sobre o amanhecer de um país que queria fazer seu futuro

Acabo de ver “O dia que durou 21 anos”, documentário de Camilo Tavares que expõe as vísceras podres da participação dos Estados Unidos no golpe de 64 e na ditadura militar. Converso com amigos, rememorando aquela fase que vivemos e sobrevivemos. O filme, como outros que tratam de diversos outros aspectos do período ditatorial, deveria se visto por muito mais gente do que o público que lotava o pequeno cinema onde passou. E, principalmente, deveria ser visto pelas gerações mais novas que nasceram durante aqueles anos ou depois. Essa história triste não pode ser repetida e, para isso, não pode ser esquecida. Os trabalhos e esforços da Comissão Nacional e das Comissões Estaduais da Verdade, com suas investigações e com os depoimentos tocantemente terríveis de vítimas das prisões e torturas, encontram, nesses filmes, um excelente complemento para trazer à tona o que aconteceu naqueles vinte e um anos.

Tenho apenas um reparo a fazer, quanto ao título do filme: preferia chamá-lo “A noite que durou 21 anos”, pois vivemos, durante aqueles anos, na escuridão da repressão, da censura e do retrocesso. E a noite de 31 de março para 1º de abril de 1964 foi o começo daquele tempo de escuridão.

dia que durou 21 anos

Capa do Filme “O dia que durou 21 anos” (Reprodução)

Durante todo o dia 31 sucediam-se os boatos e as notícias sobre um possível movimento militar. Em Porto Alegre, no início da noite, muitos militantes do movimento estudantil começaram a dirigir-se para o Restaurante Universitário, sede da FEURGS (Federação dos Estudantes Universitários da URGS – naquela época sem o F). Durante toda a noite, reuniões, notícias e, pela madrugada do dia 1º de abril, a confirmação do golpe. A impotência do “perigoso” movimento estudantil pode ser avaliado pela quixotesca tentativa de buscar, nas primeiras horas da manhã, alguns colegas em casa, para ir à Universidade “organizar a resistência”. E o dia da dessa resistência não amanheceu. Tudo estava muito bem preparado pelos militares e políticos coniventes, com o apoio forte e decidido do governo estadunidense, como se pode ver no filme de Tavares.

No início, muitos pensavam que a ditadura iria durar pouco, mas as opiniões mais pessimistas, do longo prazo, revelaram-se acertadas. Foi o início da longa noite e o fim da nossa juventude.

Hoje, tentamos desvendar, lembrar, denunciar, toda a perversidade do processo. As comissões da verdade trazem à luz documentos, depoimentos; as perseguições e as torturas são descritas e são essas as pontas mais visíveis e terríveis (por mais que negadas e sonegadas) do icebergue. O grande corpo de todo o mal que esse período deixou para nossa história também precisa vir à tona.

A ditadura foi eficaz em acabar com todas as tentativas de formular um projeto nacional. Os episódios traumáticos do suicídio de Vargas e da renúncia de Janio, a euforia dos anos JK, foram o pano de fundo do processo de uma nação que se modernizava, questionava sua história e queria agarrar seu futuro. Após a Legalidade, quando as forças retrógradas pareciam ter sido vencidas, no turbulento governo Jango, a crise pareceu transformar-se em grandes oportunidades. O golpe abortou esse futuro e colocou no seu lugar a continuidade da história colonial e a submissão à ordem da guerra fria e dos interesses econômicos externos.

Acabaram todas as experiências de cultura popular, de organização comunitária no campo ou na cidade, de novas propostas políticas, de novas concepções de educação e de universidade, de uma economia referida aos interesses e às potencialidades nacionais.

Além do esmagamento das organizações de trabalhadores urbanos e rurais, das organizações sindicais e estudantis, a vida política foi truncada. Foram cassadas todas as lideranças de oposição à ditadura (mesmo muitas de perfil conservador, mas formalmente democráticas ou outras moderadamente reformistas). Pior ainda, foi abortado o surgimento, a formação e consolidação de novos líderes, que começavam a emergir nas áreas sindicais e acadêmicas e na política partidária.

Um dos maiores crimes da noite ditatorial deu-se na área da educação. Os novos e revolucionários métodos e concepções que começavam a ser experimentados foram sumariamente extintos e a escola começou o triste caminho de decadência. A concepção de uma universidade criativa, crítica, verdadeiro centro da vida cultural, foi abatida e a instituição passou a ser um pobre simulacro de uma formadora deficiente de profissionais medíocres (com o agravante de intensa repressão às tentativas de reação a esse processo).

Nos anos setenta, no auge da escuridão, a ditadura acende a luz artificial do “milagre brasileiro” e uma minoria beneficiada agrupa-se em torno desse mito, enquanto, no lado escuro, cresce a pobreza e a repressão funcionaliza a morte e a tortura.

Durante essa longa noite, o Brasil povoou outras terras de milhares de exilados. Longos anos roubados do convívio com familiares, amigos, de impedimento de carreiras profissionais (com prejuízo não só pessoal, mas para o país). E sofrimentos, ausências, perdas. Ao mesmo tempo, tivemos o que se pode chamar de “exílio interno”, da enorme multidão que se viu sem vez e sem voz, impotente, com a frustração diária diante de um regime que não admitia a menor tentativa profissional, política ou cultural fora de seus critérios (ou da falta de critérios dos que compactuavam com a ditadura).

Enquanto isso, todos os que nasceram e cresceram durante essa noite autoritária, tiveram sonegados os mais significativos direitos à formação familiar, escolar e social para a cidadania democrática. Basta que imaginemos uma criança que cresce em meio à censura, ao medo e, talvez pior, ao contínuo convencimento de que esse regime de repressão é natural e apropriado. Foram os anos em que a educação para o pensamento crítico foi proibido, porque ele era sinônimo de subversão.
Foi noite e foram trevas. É impossível esquecer. A vida de quem viveu (e sobreviveu) esse período nunca mais foi a mesma. Além dos crimes, das mortes, das torturas, das prisões, das carreiras interrompidas e das sequelas individuais, físicas e psicológicas, que não podem ficar impunes, é preciso que toda a história dessa noite seja desvendada e que se tenha consciência de como ela exerce sua nefasta influência até os dias de hoje.

O período que se convencionou chamar de “redemocratização” poderia ser caracterizado como uma convalescença de uma doença grave, que deixa muitas sequelas.

A anistia “geral e irrestrita” foi arrancada como uma concessão de quem se sentia ainda com muito poder – e usada até hoje para isentar de culpa os responsáveis pelas mortes e torturas.

A transição política foi tutelada, depois a “abertura lenta e gradual”, de forma a impedir um reordenamento partidário democrático, sem as armadilhas e os freios que duraram até a reforma constitucional. Todas as salvaguardas foram adotadas para a sobrevivência do “fantasma” da ditadura. O imprevisto governo Sarney talvez tenha desarticulado um pouco a racionalidade do processo, mas seria certamente mais agravou do que amenizou as sequelas da ditadura.

O que é importante salientar é como esse período de “amanhecer” foi grandemente marcado por sombras da ditadura. Herdamos uma classe política viciada na subserviência, instituições moldadas pelo autoritarismo ausência de políticas públicas e, principalmente um baixíssimo nível de cidadania. Nem o processo constituinte, que mobilizou (e revigorou) alguns setores da sociedade conseguiu sensibilizar a grande maioria da população (propiciando, inclusive, uma rearticulação conservadora no famoso “centrão”), Tudo isso dentro de um quadro inflacionário em um mundo que começava a viver a euforia neoliberal do mercado onipotente. Nenhuma surpresa, portanto, com fiasco da esperada primeira presidência eleita diretamente.

A escuridão da madrugada pós-ditadura custou para dissipar-se. Depois do processo constituinte, um tímido raio de luz foi o impeachment, com o sinal de respeito à legalidade constitucional.

Mas a herança da ditadura continuou marcando a vida política, social e cultural do país, com o aumento da miséria, com o crescimento da violência urbana e a instalação do crime organizado, com o sistema de ensino e a universidade continuando em decadência, com a questão agrária se agravando. Mais ainda, vem à tona a crise ambiental já pressentida a partir da exploração desordenada do território, dos descaminhos do saneamento básico e da degradação das águas.

Mesmo que não se credite ao regime militar a totalidade da responsabilidade por esses problemas, os vinte e um anos de autoritarismo significaram um atraso fundamental no enfrentamento dos mesmos.

As sombras da noite de vinte e um anos avançaram mais do que deviam sobre o amanhecer de um país que queria fazer seu futuro. Foram ainda alimentadas pela hegemonia do neoliberalismo global, traduzido nas privatizações de setores estratégicos, nos anos noventa.

Ainda persistem essas sombras. Quem sabe quantos anos serão necessários, ou quantas gerações, para que elas se dissipem. O efeito das políticas sociais, a implantação de políticas compensatórias, o acesso e o exercício da cidadania plena, a recuperação da criatividade e da consciência crítica, a elevação do nível cultural e intelectual da população e tantos outros elementos de construção da justiça e do bem estar de uma nação, tudo isso não se faz sem exorcizar a lembrança e os efeitos da longa noite.

Luiz Antonio Timm Grassi, Sul21

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6 horas atrás

Os brasileiros no corredor da morte na Indonésia

por Luis Soares

Itamaraty teme por brasileiros no corredor da morte na Indonésia. Somente uma clemência presidencial poderá salvá-los do fuzilamento

A retomada das execuções de prisioneiros condenados à pena capital na Indonésia na semana passada levou o Ministério das Relações Exteriores a intensificar a atenção dada a dois brasileiros que estão no corredor da morte.

Marco Archer Cardoso Moreira e Rodrigo Muxfeldt Gularte foram condenados em última instância à pena de morte por tráfico de drogas e somente uma clemência presidencial poderá salvá-los do fuzilamento.

brasileiro condenado morte indonésia

Marco Archer Cardoso é um dos brasileiros que estão no corredor da morte na Indonésia (Foto: Agência Brasil)

“O governo brasileiro acompanha com atenção a situação dos presos brasileiros na Indonésia e, respeitando as leis do país e as diferenças culturais existentes, procura prestar toda a assistência consular possível, tendo em vista o caráter humanitário da questão”, afirmou a assessoria do Ministério das Relações Exteriores.

A preocupação se deve ao fato de o procurador-geral do país, Basrif Arief, ter afirmado à imprensa que o país irá fuzilar outros nove condenados até o final do ano e que até 20 presos poderiam vir a ter suas penas executadas antes de 2014.

Na quinta-feira da semana passada o africano do Malauí Adami Wilson foi fuzilado por tráfico drogas. Ele tentou entrar no país com um quilo de heroína em 2004 e foi acusado de coordenar uma gangue internacional de dentro da prisão.

Até então, a última vez que a Indonésia havia executado um condenado fora em 2008, quando os terroristas responsáveis pelo ataque a bomba à praia de Kuta, em Bali, foram fuzilados.

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“Estamos preocupados com os comentários do procurador-geral, de que pelo menos outras nove pessoas serão executadas”, disse  Josef Benedict, da ONG de Direitos Humanos Anistia Internacional.

Tecnicamente, os brasileiros ainda não poderiam ser fuzilados, pois o pedido de clemência presidencial ainda está sob avaliação, mas falta transparência quanto à situação dos presos que aguardam no corredor da morte.

“Nós estamos incertos sobre quem será o próximo a ser executado e quando. Pedimos ao governo da Indonésia que seja transparente e disponibilize qualquer informação à respeito das próximas execuções”, disse Benedict.

Execução

Em junho de 2012, a imprensa indonésia chegou a noticiar que Marco Archer Cardoso seria executado em julho, mas a informação foi desmentida pelo embaixador brasileiro após uma reunião pessoal com o procurador-geral Basrief Arief.

O carioca Marco Archer Cardoso Moreira foi preso em flagrante ao tentar passar a fronteira com 13 quilos de cocaína escondidos dentro dos tubos estruturais de uma asa-delta, em 2004.

Igualmente esportista, o surfista catarinense Rodrigo Muxfeldt Gularte foi pego ao tentar trazer cocaína dentro da prancha.

O advogado indonésio que defende os dois brasileiros, Riak Akbar, disse em janeiro à BBC Brasil que o processo de pedido de clemência não foi concluído e que havia esperança de que a pena de morte pudesse ser convertida em prisão perpétua.

“Eu espero que ambos sejam perdoados pelo presidente Susilo Bam-bang Yudhoyono e tenham a pena alterada”, disse Akbar.

Em dezembro de 2012, 113 presos aguardavam no corredor da morte na Indonésia – deste, 71 condenados por tráfico de drogas e muitos deles estrangeiros.

BBC

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6 horas atrás

Angela Davis: “racismo de hoje é mais perigoso”

por Luis Soares

“Enfrentamos hoje um racismo mais perigoso”. Confira a entrevista com a ativista, professora da Universidade da Califórnia e ex-pantera negra Angela Davis

Os gestos sutis e comedidos de Angela Davis, 68, enquanto conversa, quase não lembram a imagem que correu o mundo da jovem revolucionária que integrou os Panteras Negras, nos Estados Unidos. Sua prisão, após envolvimento numa ação para libertar jovens negros acusados de matar um juiz, mobilizou o mundo nos anos 1970.

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Angela Davis. (Foto: Raul Spinassé / A Tarde)

Tema de músicas de John Lennon e Yoko Ono (Angela), além dos Rolling Stones (Sweet Black Angela), a hoje professora da Universidade da Califórnia continua ativista. Seu espaço de luta é o movimento anticarcerário e a mobilização de mulheres. Em ambos, ela enfatiza que o racismo continua muito presente, mesmo no país que reelegeu como presidente Barack Obama. “Pessoas que estão encarceradas dizem que um homem negro na Casa Branca não é suficiente para anular um milhão de homens negros na casa-grande, ou seja, no sistema carcerário”. Ela conversou com a Muito na sua quarta passagem pela Bahia, onde teve como principal compromisso participar de um fórum na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira.

Como foi a sua experiência no Fórum 20 de Novembro, no campus da Universidade Federal do Recôncavo, em Cachoeira?

Fiquei bastante impressionada com o evento, mas também em perceber como a universidade se expandiu. É uma instituição pública federal majoritariamente negra, com ações afirmativas. Deveria ser um exemplo para os EUA. Lá, as ações afirmativas estão sendo questionadas e abolidas.

No Brasil, vivemos um momento em que o entendimento sobre a importância das ações afirmativas consolidou-se na universidade e nos movimentos sociais. Mas parte da sociedade e da mídia tem dúvidas. Qual a situação dessas medidas nos EUA?

No contexto atual, o Brasil está bem à frente dos Estados Unidos, no que diz respeito à implementação das ações afirmativas. Lá, nos anos 1990, vários programas nesse sentido foram juridicamente eliminados.

Quais as principais consequências desse processo?

Há mais homens negros encarcerados nos EUA do que nas universidades. Há um milhão de homens negros na cadeia. Temos que avaliar o que leva um homem negro a chegar a esse ponto.

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Se não há oportunidade para ingresso no setor da educação formal, se não há assistência à saúde, condições de habitação e de lazer, a prisão se torna a única alternativa viável. Fiquei muito feliz em saber que o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil manteve o programa de ações afirmativas nas universidades brasileiras.

Este é um ponto-chave para o combate às desigualdades?

As políticas de ações afirmativas, quando praticadas repetidamente, têm um poder de transformação bastante significativo. Existe a pressuposição de que as ações afirmativas estão beneficiando indivíduos de tal maneira que prejudicam outros. Mas essa é uma interpretação incorreta sobre as ações afirmativas. Essas ações não dizem respeito à ascensão individual. O objetivo é a ascensão de comunidades que foram afetadas desproporcionalmente por legislações e pelo racismo que remetem à época da escravidão.

Quando falamos em ações afirmativas, destacamos a formação de uma classe média negra. No Brasil, ela é incipiente. É possível fazer uma comparação com o contexto americano?

É uma comparação difícil, pois são contextos históricos diferenciados. A formação da classe média negra americana começou a ocorrer no período pós-abolição. No processo de segregação racial, houve uma relação íntima entre a classe trabalhadora e parte da população. Eram professores negros que davam aulas em escolas segregadas, por exemplo. O dinheiro circulava entre eles. A partir do momento em que houve um desmantelamento dessa estrutura formal de segregação racial, começaram a emergir negros e negras com alto poder aquisitivo.

Então, mesmo na sociedade americana, com uma classe média negra mais consolidada, os obstáculos persistem?

Sim. Ativistas mais radicais reconhecem que não é possível falar da comunidade negra da mesma forma que costumávamos falar antes. A questão política tornou-se hoje muito mais importante que o recorte racial. É importante estabelecer alianças com outras comunidades. Uma das lutas mais importantes pró-direitos civis nos EUA é o movimento em defesa dos imigrantes que estão ilegais no país. Há também a luta que surgiu a partir da fobia ao Islã, em função da guerra contra o terror. É preciso que haja o engajamento de negros progressistas que expressem sua solidariedade nesse âmbito.

A eleição e reeleição de Obama é vista no Brasil como indicativo de que o problema racial nos EUA foi superado. Essa impressão está correta?

Pessoas que estão encarceradas dizem que um homem negro na Casa Branca não é suficiente para anular um milhão de homens negros no sistema carcerário. É preciso enfatizar que muitos racistas continuam a protestar pelo fato de Obama ocupar essa posição. De vários modos, continuamos a experimentar, no século 21, um racismo muito mais perigoso do que o racismo institucional do passado. Trata-se de um racismo que está arraigado nas estruturas. É necessário elaborar um novo vocabulário para que possamos acessar as novas estruturas do racismo.

É este o cenário que a levou à luta contra o sistema carcerário?

Sim. Se observarmos os números desproporcionais de negras e negros nesse sistema, podemos constatar como o racismo direciona o que chamamos de complexo industrial carcerário. Não é somente em função de a prisão ser um espaço no qual se contêm aqueles que se tornaram supérfluos no contexto do modelo econômico contemporâneo. Esse processo americano tornou-se padrão, ele é pautado pelo racismo numa esfera global.

A senhora tem um ativismo brilhante também na área de gênero. Na Bahia, as mulheres sustentam ofícios em que são majoritárias, como baianas de acarajé e marisqueiras. Como esses saberes tradicionais podem auxiliar o movimento?

As mulheres tornaram-se líderes comunitárias e, cada vez mais, assumem cargos de liderança. É importante que acadêmicos treinados na estrutura da universidade reconheçam o conhecimento produzido para além das fronteiras dessas instituições. O feminismo, tanto no âmbito acadêmico, mas também como metodologia de luta, enfatiza um tipo de interdisciplinaridade. O conhecimento acadêmico deve estar em diálogo constante com as formas de luta. As pessoas associam o movimento pró-direitos civis dos EUA à imagem de Martin Luther King. Mas, na verdade, foram mulheres negras que iniciaram o movimento. Tratava-se, especificamente, de trabalhadoras domésticas. Foram elas que tiveram uma visão coletiva e acreditaram que era possível construir uma sociedade sem racismo. Em 1955, essas mulheres recusaram-se a utilizar um ônibus em Montgomery e esse boicote resultou no desmantelamento do racismo institucional no sul dos EUA. Devemos um tributo a essas trabalhadoras anônimas, domésticas e lavadeiras, que atuavam em casas de brancos.

Revista Muito

O post Angela Davis: “racismo de hoje é mais perigoso” apareceu primeiro em Pragmatismo Político.

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