Ronaldo Fenômeno está certo quando diz que o futebol precisa se renovar, mas não será com ele

KIKO NOGUEIRA 7 DE ABRIL DE 2013 4

As declarações do ex-jogador e empresário contra Marin devem ser ouvidas com três pés atrás.

Com o padrinho Ricardo Teixeira

Com o padrinho Ricardo Teixeira

 

O colunista Ilimar Franco, do Globo, escreveu que o governo Dilma estaria interessado em se livrar do presidente da CBF, José Maria Marin. A imagem dele seria ruim para a Copa. Ilimar fala numa operação casada com o presidente da Fifa, Joseph Blatter. O nome em que eles apostam, segundo a coluna: Ronaldo Fenômeno, com sua “boa imagem internacional e o carisma”.

Vamos supor que a nota esteja correta (ainda que 398 cronistas esportivos já tenham dito que a Fifa não ouve governo nenhum e que a CBF tentará emplacar o cartola Marco Polo Del Nero, enquanto outros 962 mencionam Andrés Sanchez).

Mesmo assim: Ronaldo pode ser quase tudo, mas não é renovação. É mais do mesmo.

Seu candidato para o lugar de Marin é o amigo Andrés Sanchez, que o levou para o Corinthians na fase gorda. Andrés é um homem de Ricardo Teixeira, que indicou Ronaldo para o cargo no Comitê Organizador Local do torneio, o COL.

Suas críticas a Marin devem ser ouvidas com dois pés atrás. “Não sei até onde pode haver mudanças com este movimento”, disse ele a respeito do abaixo assinado organizado pelo filho do jornalista Vladimir Herzog, Ivo, e Romário, pedindo a saída de Marin. “O que eles querem é o que eu também quero. Um choque de ordem no futebol brasileiro. Tem muita coisa que não queremos mais ver: falta de transparência, calendários ruins, brigas de torcidas… E se o Marin não consegue fazer isso… Tem de trocar. E tem de entrar alguém capaz de pôr tudo isso em prática. A CBF precisa se modernizar. O futebol precisa de pessoas jovens e dinâmicas, de ideias novas”.

Falta transparência, sem dúvida. Ronaldo vai comentar em junho a Copa das Confederações. É o mais novo contratado da TV Globo. Três clientes de sua 9ine estão entre possíveis convocados: Neymar, Lucas e Leandro Damião. A questão não é se ele será isento e sensato nos comentários. Suponhamos que seja. Mas o conflito de interesses claro deveria impedi-lo a priori. Ou, durante a transmissão, aparecerá uma faixa dizendo, a cada vez que Neymar pegar na bola: “Este jogador é agenciado por Ronaldo Fenômeno”? Na condição de membro do comitê, ele também poderá opinar sobre a organização do Mundial.

“Na última viagem a Brasília, o ministro Aldo Rebelo, do Esporte, conversando comigo, falou que tenho qualidades para ser um ótimo político. Tenho outra missão”, afirmou Ronaldo. “Quero fazer a politicagem dentro do esporte, porque acho que o futebol tem muito o que melhorar. Seria um desafio incrível também entrar na política”.

Se o problema do futebol é a politicagem, por que precisaríamos de mais politicagem? Ronaldo está certo quando diz que temos muito o que melhorar. Mas não será com ele.

 

Sobre o autor: Kiko NogueiraVeja todos os posts do autor 
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

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