Para Feliciano, morte de John Lennon foi vingança de Deus

por Daniel Dantas Lemos
 
O absurdo do deus de ódio pregado por Marco Feliciano, que já havia dito que Deus matou os Mamonas Assassinos porque Dinho era um crente desviado, é essa mensagem.
Falando de John Lennon, o pastor diz que queria estar lá quando descobrissem o corpo do ex-Beattle: “Me perdoe, John, mas esse primeiro tiro é em nome do Pai, esse é em nome do Filho e esse do Espírito Santo”.
Que deus é esse que Marco Feliciano prega?

E por que Marco Feliciano não obedece à sua própria sugestão?
Ele diz nesse vídeo que “crente foi chamado para duas coisas: servir a Deus, pregando o evangelho, ganhando almas e aguardar o retorno do Senhor em santidade”.
O que então, pastor, o senhor e a bancada dita evangélica está fazendo no Congresso Nacional e na Comissão de Direitos Humanos?
11 horas atrás

Culinária infantil para pais idiotas: Receita de Gagau de Farinha Láctea

por Daniel Dantas Lemos
 
Por Conceição Oliveira No Blog Maria Fro

Um advogado trabalhista segundo minhas fontes, que em tese existe pra defender os direitos dos trabalhadores que no Brasil são assegurados pela CLT escreve um texto vergonha alheia no facebook contra a PEC das empregadas. Recuso-me a reproduzir o chorume idiota e escravagista, mas quem quiser avaliar com seus próprios olhos acesse aqui.

Aconselho ‘dicumforça’ a esta classe média que arrota Europa e grita contra o pagamento de FGTS às domésticas (o INSS já era obrigatório e espero imensamente que um advogado trabalhista saiba disto) que invista seu dinheiro na produção e luvas, certeza que vão me agradecer futuramente. Mas Humberto E. Nadamais certamente com dó do rebento do advogado trabalhista (eu por mim comunicava ao conselho tutelar que o advogado trabalhista não sabe fazer um mísero mingau para o seu rebento nem botar pra dormir a sua cria) resolveu ensinar o pai advogado trabalhista a fazer um gagau. Como é uma receita de utilidade pública nestes tempos de segunda abolição da escravatura, reproduzo aqui. Bom proveito classe média futura consumidora de luvas.

 Culinária infantil para pais idiotas: Receita de Gagau de Farinha Láctea
Por: Humberto E. Nadamais, via Facebook e O Correio da Elite
Dado que muitos pais não têm competência técnica, ética, moral e outros quesitos necessários para cuidar de seus filhos e, por isso, estão terceirizando os cuidados da prole a domésticas, empregadas, babás, professores e avós, este blog resolveu dar uma ajudazinha para eles, pais. Na redes sociais encontramos milhares de testemunhos de pais despreparados. Não queremos que as crianças padeçam de fome por causa do desconhecimento paterno sobre como preparar pratos sofisticados como o que segue. Assim, os pais ainda aproveitam para desfrutar os raros momentos com seus filhinhos nesta vida tão corrida, que tem nos impedido de curtir situações de carinho e amor que só alcançamos no convívio com nossos entes queridos. Não se apavore e vá em frente. Imagine que você está se emprenhando para cumprir as metas definidas pela empresa:

Ingredientes ( você sabe o que é “ingrediente”, não? ):
500 ( é o que vem depois do 499 ) ml ( mililitros, uma medida de quantidade ) de leite ( aquilo que sai das fêmeas dos mamíferos; geralmente se usa leite de vaca. Sim, vaca, aquele bicho que faz “Muuuu!”; Veja a foto aqui ) quente ( contrário de “frio” )
10 ( uma dezena, vem depois da unidade 9 ) colheres ( colher, amigo, isso que você pegou é um coador de café… não, cacete, isso aí é um garfo… alí, ó, do lado da faca, issooooo! ) de sopa ( esqueci de dizer, a colher é a de sopa; essa aí é de sobremesa, a de sopa é aquela ali ó…essa mesma! Como assim, “por quê elas têm esses nomes?” Sei lá, oras! ) de Farinha Láctea ( Isso, essa lata sobre a mesa, eu deixei aí prá facilitar para você. Abra a tampa e… CUIDADO, NÃO VAI SE CORTAR!! Isso, beleza! Viu como não foi difícil? )
3 ( vem depois do 2 ) colheres de sopa ( essa você já aprendeu ) de açúcar ( aquele pó branco que… NÃO, CARAMBA, ESCONDE ISSO, QUE DÁ CADEIA! É aquilo que fica no açucareiro, será o Benedito que eu tenho que fazer tudo por aqui? Aquele pó doce, que é o contrário do “sal”. Ó lá, tá até escrito no recipiente… Não tá vendo que nesse tá escrito “sal”? O outro… isso, esse mesmo! Tá pegando o jeito!!! )
Modo de Fazer:
Colocar tudo ( “tudo”, não, ô imbecil: as colheres de sopa e o açucareiro você deixa fora! ) no liquidificador ( eu deixei ele pronto ali na pia, pois sabia que você o confundiria com o aspirador de pó e…ESCONDE ESSE PÓ, EU JÁ DISSE! ) e bater até ficar cremoso ( “bater” os ingredientes no liquidificador e não, bater na filha chorona ou na babá insubmissa )
Servir em potinhos de sobremesa ( estão ali, ó; é só pegar e despejar o conteúdo que se encontra no copo do liquidificador, no interior e… EU DISSE “INTERIOR”!… isso, dentro dos potinhos… isso, beleza, acertou um! Pelo menos já tem um pouquinho pra criança comer )
Quantidade: 4 porções
TÁ VENDO COMO FOI FÁCIL, PAPAI? VOCÊ É MOTIVO DE ORGULHO PARA NOSSA SOCIEDADE! PARABÉNS

18 horas atrás

Direitos Humanos e o Homo Sacer: “zizekiações”

por Daniel Dantas Lemos
 
 Por Thadeu Brandão No Blog do GEDEV

Slavoj Zizek em seu “Bem vindo ao deserto do real”, faz uma interessante e estimulante discussão acerca da questão dos direitos humanos na contemporaneidade. Para ele aqueles que defendem o “valor sagrado da vida”, defendem-na na perspectiva de que tudo aquilo que tem possibilidade destrutiva deve ser excluido e proibido. A vida deve ser controlada naquilo que Zizeck denominou de “café sem cafeína”, ou seja, prazer sem perigo. Esses defensores: “acabam num ‘mundo supervisionado em que vivemos sem dor, em segurança – e tediosamente’, um mundo em que, em nome de seu objetivo oficial – uma vida longa e prazerosa – , todos os prazeres reais são proibidos ou estritamente controlados (fumo, drogas, comida…)” (ZIZEK, 2003, p. 110).

Na mesma perspectiva de controle, o humanitarismo atual se fundamenta através de uma nova “biopolítica” de controle do indivíduo. Mesmo quando se voltam para os “excluídos”, o fazem através de práticas de controle onde o “campo de refugiados” nada mais é do que a versão humanitária do campo de concentração ou do Gulag.

“Os excluídos são não apenas os terroristas, mas também os que se colocam na ponta receptora da ajuda humanitária (ruandeses, bósnios, afegãos…): o Homo sacer de hoje é o objeto privilegiado da biopolítica humanitária: o que é privado da humanidade completa por seu sustentado com desprezo. Devemos assim reconhecer o paradoxo de serem os campos de concentração e os de refugiados que recebem ajuda humanitária as duas faces, ‘humana’ e ‘desumana’, da mesma matriz formal sociológica. (…) a população é reduzida a objeto da biopolítica. Portanto, não basta enumerar os exemplos atuais doHomo sacer: os sans papiers na França, os habitantes das favelas no Brasil e a população dos guetos afro-americanos nos EUA, etc. É absolutamente crítico contemplar essa lista com o lado humanitário: talvez os que são vistos como recipientes da ajuda humanitária sejam as figuras modernas do Homo sacer” (ZIZEK, 2003, p. 111-112).

Os axiomas dos direitos humanos, democracia, domínio do direito e outros se reduzem, assim, em última instância a uma representação falseada para os mecanismos disciplinadores do “biopoder”, cuja expressão última é o campo de concentração do século XX. O projeto da modernidade, inacabado como sempre, recai na perspectiva do “mundo administrado” esbolado por Adorno e Horkeimer na “Dialética do Esclarecimento”. Ou, para ser mais clássico, na “jaula de ferro” weberiana. Não há humanos direitos puramentes éticos ou “inocentes” nesta perspectiva. 
Vivemos num “Matrix”?

“A noção ‘totalitária’ de um ‘mundo administrado’, em que a experiência mesma da liberdade subjetiva seja a forma como surge a sujeição a mecanismos disciplinadores, é na verdade o verso fantasmático obsceno da ideologia (e prática) pública ‘oficial’ da autonomia individual e da liberdade: a primeira tem de acompanhar a segunda, suplementando-a como sua cópia obscena e nebulosa, de uma forma que traz à memória a imagem central do filme Matrix” (ZIZEK, 2003, p. 116).

Isto posto, a característica fundamental da política, mesmo a de “direitos humanos” é a redução da mesma política a uma certa “biopolítica” no sentido exato de administrar e regular a vida. Neste sentido, torna-se pertinente a crítica de Zizek às lutas contemporâneas que tentam “deslocar gradualmente o limite da exclusão social, aumentando o poder dos agentes excluídos (minorias sexuais ou étnicas) pela criação de espaços marginais em que possam articular e questionar a própria identidade”. O problea é que se fecham em seu próprio ciclo de lutas, não permitindo uma emancipação mais ampla. Lutas egoístas por si só? 

Vale a pena pensar nas provocações.

Bibliografia

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de Setembro e datas relacionadas.. Tradução de Paulo Cezar Castanehira. São Paulo: Boitempo, 2003. 

18 horas atrás

Classes Sociais, trabalho e novos arranjos políticos: pequenas “zizeckiações”

por Daniel Dantas Lemos
 
 
Por Thadeu Brandão No Blog do GEDEV 
Slavoj Zizeck, filósofo mais influente no pensamento radical, não apenas pelas suas idéias, mas pelo seu ativismo político, nos convida a algumas reflexões acerca das classes sociais e de seu papel no capitalismo contemporâneo. Vale a pena, de forma rápida e modesta, realizar o que chamarei aqui de “zizeckiações”: reflexões rapidinhas à luz do pensador eslavo.
Longe de apenas pensar a velha dicotomia “burguesia versus proletariado”, Zizeck vai além dos próprios críticos da vulgata marxista, apresentando cinco categorias: (1) os trabalhadores, (2) o exército de reserva dos (temporariamente) desempregados, (3) os (permanentemente) inempregáveis e (4) os “anteriormente empregados” (mais apropriado como ilegalmente empregado – desde os que trabalham no mercado negro e nas favelas até as diferentes formas de escravidão). Para quem, necessariamente, precisa pensar categorias da violência, esses “excluídos” são também os incluídos no mercado mundial.
Em seu mais recente texto publicado no Brasil: “O ano em que sonhamos perigosamente” (2012), ele acrescenta ainda:

“Em terceiro lugar, a categoria dos ‘anteriormente empregados’ deveria ser complementada pelo seu oposto, aqueles que foram educados sem nenhuma chance de encontrar emprego: toda uma geração de estudantes quase não tem chance de conseguir um emprego em sua área, o que leva a um protesto em massa; e a pior maneira de resolver essa lacuna é subordinar a educação diretamente às demandas do mercado – se não por outra razão, isso ocorre porque a dinâmica do mercado torna ‘obsoleta’ a educação dada nas universidades” (2012, p. 15).

Esse novo desemprego estrutural age, segundo ele, como uma forma deexploração, ou seja, osexplorados não seriam apenas os trabalhadores que produziriam a mais-valia apropriada pelo capital, mas também aqueles que são estruturalmente impedidos de cair no vórtice capitalista do trabalho assalariado explorado, inclusive regiões e nações inteiras. Temos agora não apenas os que trabalham e criam, mas o que são impedidos de trabalhar e criar. O sistema não só precisa de trabalhadores, como também gera o “exército de reserva” daqueles que não conseguem e jamais conseguirão trabalho; estes excluídos do processo de trabalho são agora produtores de não trabalho.Dialeticamente, isso ocorreria porque, 

“(…) somente no capitalismo a exploração é ‘naturalizada’, está inscrita no funcionamento da economia – ela não é resultado de pressão e violência extraeconômicas, e é por isso que, no capitalismo, temos liberdade pessoal e igualdade: não há necessidade de uma dominação social direta, a dominação já está na estrutura do processo de produção” (ZIZECK, 2012, p. 17).

Em termos de classe social, o que isso significaria? O capital funda-se em três bases: a tendência duradoura de retornar do lucro à renda; o papel estrutural muito mais forte do desemprego; a ascensão da nova classe social, a “burguesia assalariada”. Em termos de novo padrão do trabalho e de seu valor, Zizeck aponta que a mudança mais sutil é a que faz do trabalho, possuí-lo, um novo status, dado que nem todos o terão. Ao mesmo tempo, a “dona dos meios de produção” é substituída por uma nova classe social.
Isso porque, o trabalho imaterial, simbólico diria Bourdieu, faz surgir uma nova área de dominação pautada em conhecimentos, formas de cooperação e comunicação compartilhados etc., que já não podem mais ser contidos pela forma da propriedade privada. Tem-se uma verdadeira produção imaterial é diretamente biopolítica, “a produção da vida social”.
Essa vida social vê surgir um novo ator, o 

“empreendedor que não é mais dono de sua própria empresa, mas um gerente especializado (ou um conselho administrativo presidido por um CEO) que dirige uma empresa pertencente a bancos (também dirigidos por gerentes que não são seus donos) ou a investidores dispersos. Nesse novo tipo ideal de capitalismo sem burguesia, a antiga burguesia, tornada desfuncional, é refuncionalizada como gerentes assalariados – a nova burguesia é paga e, mesmo que possua parte da empresa, recebe ações como parte da remuneração de seu trabalho (‘bônus’ por seu gerenciamento ‘bem-sucedido’)” (p. 19-20).

Isto posto, a burguesia, em seu sentido clássico discutido por Marx, está em vias de desaparecimento. Agora, forma um subconjunto dos trabalhadores assalariados: “os gerentes qualificados para ganhar mais por sua competência”, que abrange todos os tipos de especialistas (administradores, servidores públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais, artistas…).
Dentro de uma lógica apontada já há décadas por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento, temos uma tendência de formação e consolidação de um “mundo administrado” em um capitalismo administrativo. 
Sobre a crise atual, Zizeck aponta que 

“A Grécia não é uma exceção, mas um dos principais campos de teste para impor um novo modelo sócio-econômico com pretensões universais: o modelo tecnocrático despolitizado, em que banqueiros e outros especialistas têm permissão para esmagar a democracia. Há sinais abundantes desse processo por toda a parte, até o crescimento do Walmart como uma nova forma de consumismo voltado para as classes mais baixas” (2012, p. 23).

Em termos de nova divisão social do trabalho, o mundo inteiro tenderia a funcionar como uma “Esparta” universalizada e suas três classes (Espartíatas, Periecos e Hilotas), hoje na forma de primeiro, segundo e terceiro mundos (a analogia é bem instrutiva): (1) os Estados Unidos como poder militar político e ideológico (Espartíatas, elite militar e política espartana, descendentes dos Dórios, monopolizavam o Estado e a força militar); (2) a Europa e partes da Ásia e da América Latina como zona industrial manufatureira (Periecos, livres, mas subordinados aos Espartíatas, ocupavam posições subalternas no exército e na economia) (3) o restante subdesenvolvido, os hilotas contemporâneos (Hilotas eram descendentes dos povos submetidos pelos Espartanos, servos do Estado, não possuíam direitos alguns). “Em outras palavras, o capitalismo global provocou uma nova tendência geral à oligarquia, fantasiada de celebração da ‘diversidade das culturas’: a igualdade e o universalismo estão desaparecendo como verdadeiros princípios políticos…” (ZIZECK, 2012, p. 25).
Hodiernamente, zizeckiar é preciso… 
Bibliografia Citada:

ZIZEK, Slavoj. O ano em que sonhamos perigosamente. Tradução de Rogério Bettoni. São Paulo: Boitempo, 2012. 

18 horas atrás

Nas bancas, reportagem que pretende desmontar a invenção do Mensalão

por Daniel Dantas Lemos
 

No Brasil 247 
Vem aí uma reportagem que promete desmontar a história construída no julgamento da Ação Penal 470 e rotulada como “mensalão”. Escrita por Raimundo Rodrigues Pereira, um dos maiores e mais minuciosos jornalistas brasileiros, ela estará na próxima capa da Retrato do Brasil. A novidade foi anunciada na coluna de Elio Gaspari:

NAS BANCAS 
Está chegando às bancas uma edição especial da revista “Retrato”. Sua capa diz tudo: 
“A construção do mensalão -Como o Supremo Tribunal Federal, sob o comando do ministro Joaquim Barbosa, deu vida à invenção de Roberto Jefferson”. Coisa do respeitado jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. 
Numa reportagem anterior, Raimundo já havia demonstrado que os recursos da Visanet, a suposta fonte de dinheiro público do mensalão, foram gastos exatamente de acordo com o fim a que se destinavam: publicidade e propaganda.

18 horas atrás

Testemunho de conversão: de como eu deixei de crer num evangelho que exclui os homossexuais

por Daniel Dantas Lemos
 
Eu e o Pr. Ricardo Gondim

Na última sexta-feira fui ouvir o pastor Ricardo Gondim na celebração dos 32 anos da Igreja Betesda, aqui em Fortaleza.
Sua mensagem me fez pensar.  Falando em cima de Filipenses 3. 13-14 (Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus), a reflexão do pastor tinha elementos psicanalíticos – como a ideia de que “esquecer” tem a ver com ressignificar os fatos do passado para que possamos deixar o que fica efetivamente para trás.
Uma coisa me fez pensar sobre minha própria vida. Instantes antes do pastor assumir a Palavra, o pastor Mardes, titular da igreja aqui em Fortaleza, me apresentou relembrando fatos de minha vida – de como eu planejava me tornar pastor e de como a vida mudou e me fez professor.
Sempre falo sobre isso focando os planos A, B ou C da vida que foram modificados.
Ricardo Gondim falou sobre isso: a vida não se torna uma desgraça somente porque um plano não tenha sido cumprido conforme planejamos.  São milhares de planos que Deus tem em nossa vida para que alcancemos a sua vocação. 
Isso me ajudou a aprofundar a ressignificação de vários momentos de mudanças e viradas em minha existência.  Como quando eu deixei o seminário teológico – coisa lembrada pelo pastor Mardes.
Outra frase de Ricardo Gondim me fez pensar.  Ao falar sobre sexualidade, o pastor lembrou que não existem pessoas hetero, homo ou bissexuais, mas sim existem pessoas que têm dificuldades em suas sexualidades.  “Quem não tem dificuldades na sua própria sexualidade que atire a primeira pedra”, disse.
Isso me fez refletir sobre uma coisa que já expressei no Facebook, mas que nunca havia trazido ao blog.
Vou fazê-lo agora.
***
Converti-me em uma igreja bem conservadora, na qual sequer podíamos acompanhar os cânticos com palmas e onde bateria era coisa do diabo.  Se era assim no campo musical, avalie no que se refere às minorias, especialmente os homossexuais.
Fui criado também em uma cultura homofóbica e isso, associado à minha experiência religiosa, reforçava minhas ideias relacionadas aos homossexuais no âmbito do cristianismo.
Minha conversão ao evangelho de Jesus se deu em um processo durante o qual eu, espírita, entendi que Jesus era Deus feito homem.  Desse modo, poderia morrer por mim e por quem cresse.  O espiritismo parte de uma premissa irrefutável: afirma que cada um é responsável por suas próprias ações.  Sendo assim, Jesus entendido como um simples homem nunca poderia expiar os pecados de outra pessoa.  Por isso a compreensão da pessoa de Cristo e o valor de Seu sacrifício foram fundamentais para que eu me entregasse a Ele.
E a homossexualidade?
Lembro de uma vez, em meados da década passada, que viajamos uma caravana de Natal para participar de um encontro teológico em Alagoas.  Tenho a impressão que do ônibus inteiro apenas um pastor se manifestava abertamente em favor da homossexualidade – e justificava tudo na perspectiva hermenêutica de entender manifestações culturais como essa como contingente.
Lembro que ouvia aquilo e discordava.  Pensava ser uma heresia imensa e, por isso mesmo, lembro de refletir sobre se a unidade entre aqueles de posicionamento tão diverso seria possível ainda diante de tudo.
Mas do mesmo modo que a compreensão do sacrifício de Cristo mudou minha vida e me fez compreender o evangelho de uma forma que nunca tinha feito – e me fez converter-me -, foi a reflexão sobre o sacrifício de Cristo que me fez mudar minha perspectiva sobre a homossexualidade.
Para mim a questão é clara: o centro da fé em Jesus é Cristo e este crucificado. Ele fez aquilo por amor. Amor não combina com o ódio disseminado por cristãos que dizem que O seguem. E o discurso de nossas igrejas está repleta de ódio. E quando não há ódio, há desvio. Jesus andaria com esses, os discriminados, e rejeitaria aqueles, os religiosos. Fez isso quando esteve por aqui antes da cruz. Faria (faz, na verdade), hoje.
O comportamento do cristinianismo homofóbico (que esquece que a mensagem do evangelho é o amor de Deus revelado em Jesus Cristo crucificado) não difere (talvez seja pior) daqueles religiosos contra quem Jesus se levantou. Os mestres da ortodoxia. Aqueles que diziam que Jesus era pecador porque andava com a escória social de seu tempo – os publicanos, as prostitutas.
Os religiosos de hoje não sabem acolher – sabem condenar. Em defesa da homofobia e contra a luta de gente como Jean Wyllys, agora os cristãos além de discriminadores são mentirosos, ardilosos, falsos. Se distanciam da mensagem da cruz. Aliás, a mensagem que deveríamos estar pregando é a cruz de Cristo.
Enquanto isso, um monte de gente perde tempo fiscalizando o fiofó dos outros. Além disso, cada dia mais a ciência comprova que homossexualidade não tem uma causa que deva ser curada – homossexualidade é uma condição natural do sujeito. Não deve ser negada. É geneticamente influenciada – está escrita nos gens, no cerébro. Negá-la é desumanizar o sujeito. E Deus se fez homem em Jesus para que ninguém mais fosse desumanizado.
Acho que as pessoas não lêem a Bíblia ou são incapazes de ler pelo menos a história de Jesus. Creio no Cristo que morreu pelos que não são sãos. Porque os sãos não precisam de remédio. Justificam-se a si mesmos – como aquele fariseu que não teve a mesma sorte de receber a justificação como o publicano que sabia não ser merecedor. O discurso religioso conservador e homofóbico reproduz o que pensam na letra dissociada do Espírito. Letra sem o Espírito somente pode provocar a morte – como o faz o discurso homofóbico do conservadorismo religioso.
Passei a refletir minha mudança, esquecendo o que para trás fica, quando conheci o sofrimento de muitos irmãos que, gays, passavam a crer que sua condição como sujeito era pecaminosa.  Um pecado impossível de ser restaurado.  Desse modo, abandonam a fé e a igreja porque não cabem nessa fé por serem o que são.  No entanto, crêem em Jesus como eu creio – mas sofrem sendo quem são.
Alguns já se libertaram.  Sabem-se pecadores, como eu sou. Dependem da graça para serem salvos como eu.
Desde quando, na Bíblia, existe outra coisa que salve ou condene alguém a não ser o sacrifício de Cristo na cruz. desde quando é o que eu faço ou deixo de fazer que me salva? Isso “não é dom de Deus, não vem de vós”? Por que é possível julgar que alguém não é salvo pelas roupas que usa ou por sua orientação sexual?  Nossos eventuais pecados são maiores que a graça de Deus, que a cruz de Cristo? Algum desses eventuais pecados é maior que os demais?
E o que fazer quando a ciência comprova a cada dia que ser gay ou hetero não é uma opção, mas uma orientação que é determinada, inclusive, geneticamente? Ou seja, é da essência do sujeito ser gay ou hetero – o que significa que negar o que se é é negar a própria humanidade. Como disse antes, a salvação em Cristo é fundamentalmente humanizadora: Deus, quando quis salvar, se fez um homem como nós na pessoa de Cristo.
O ponto de partida para ler a Bíblia é ou não é o sacrifício de Cristo na cruz? Vivemos sob a lei ou sob a graça?
Sinto que os cristãos andam precisando meditar mais sobre Cristo e sua cruz. Ler Paulo, ler o Antigo Testamento, sem que a base seja dada pelo significado de Jesus, sua vida e morte, é se afastar da vida na graça e continuar mergulhado na religiosidade das normas e das regras do isso pode isso não pode. É reduzir a eficácia da cruz para que se passe a determinar, humanos limitados, quem pode ou não amar a Deus, a Cristo e por Ele ser amado e perdoado. Encaixotamos Deus em nossa teologia, tiramos dEle a capacidade de amar, e criamos no seu lugar um ídolo assim – que costumo grafar deus. Desse deus eu quero ser e permanecer ateu.
Admito até que em Romanos 1. 24 – 27 Paulo esteja falando de homossexualidade – se bem que não acho que seja disso [apenas] que ele está falando. Tomando literalmente o que é dito ali, sexo somente poderia ser feito para reprodução e somente com intercurso vaginal. Nada de sexo oral ou de qualquer outra liberdade para a prática sexual de um casal heterossexual. Acontece que, com raras exceções, ninguém defende mais isso nas igrejas cristãs.
No entanto, os cristãos homofóbicos, que defendem que esse texto deve ser interpretado assim literalmente, não dizem o mesmo, por exemplo, de textos como 1 Coríntios 14. 34, no qual Paulo manda que as mulheres se calem na igreja.  Por que se desobedece essa ordem de Paulo e, ao mesmo tempo, defende que ele esteja falando sobre homossexualidade quando cita imoralidade sexual e acredita que o texto de Rm. 1. 24-27 deve ser tomado literalmente hoje em dia? Isso, para mim, é incoerente. Quem acha isso de Romanos, deveria impedir que as mulheres falem na igreja e se comprometer, entre outras coisas, a levar seus filhos para serem apedrejados na porta da cidade em caso de desobediência. Por que a questão sexual é diferente?

Os homofóbicos adoram citar o texto de 1 Coríntios 6. 9 – 10: “Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus.”  Não percebem que, nessa lista, não sobra ninguém.  Ninguém vai pro céu porque cada um de nós está abrangido em pelo menos uma dessas categorias. 

Por que alguns textos devem ser interpretados sob a perspectiva da cultura e não os que falam da questão homossexual? Qual a chave hermenêutica que lhe diz que há diferença entre as duas coisas? Eu respondo: nenhuma. Não existe nenhuma questão exegética ou hermenêutica que force que os dois tipos de texto podem ser interpretados de maneira diferente. Apenas a ideologia preconcebida de cada um. Ou seja: se eu acho que a mulher é inferior e deve ficar calada eu vou admitir como válido para os nossos dias o texto em que Paulo afirma que ela deve ficar calada. Se não, eu mudo. Do mesmo modo, com a questão da homossexualidade. Se eu acho que a fé cristã não deve ser espaço para os gays, eu afirmo que os textos devem ser interpretados como verdades absolutas para hj. Se eu admito que não é bem assim, eu os interpreto como histórica e socialmente condicionados. A gente faz isso com a Bíblia inteira. Por isso, o princípio básico da interpretação é Cristo e Seu sacrifício. A partir dele, lemos o resto. E para mim ler a Bíblia a partir disso mudou minha concepcão sobre homossexualidade e sobre a vida. Me tornei cristão quando entendi Jesus, Seu ministério e Seu sacrifício. Deixei de ser homofóbico quando refleti sobre isso do mesmo modo. Um último comentário sobre Romanos 1. 24 – 27.  O texto afirma a mulher como objeto e ninguém questiona isso: “o uso natural da mulher” é algo que me diz que a mulher nada mais é que um objeto para que eu a use.  Se eu usar o texto para dizer isso numa pregação serei devidamente expulso do ambiente.  Por que ninguém questiona assim o resto dos mesmos versículos? Graças ao bom Deus e à luta dos protestantes, não vivemos em um estado ou sociedade cristãos. O estado e a sociedade são laicos. Somos nós, os cristãos, que não temos o direito de impor aos que não comungam de nossa visão de mundo aquilo que cremos. Nosso mundo é plural, diverso e pretensamente democrático. Temos os nossos direitos. Os gays, heteros, brancos e negros. E aqueles que estão em situação mais precária em seus direitos (como índios, negros, ciganos, gays) precisam ser protegidos pelo estado. 

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