Karl Marx, marido e pai

por Betho Flávio
 

(Engels, Marx e as filhas dele, Laura, Eleanor e Jenny)

É fascinante descobrir como viveram, dentro de suas casas e junto aos seus, os homens que fizeram a história do mundo. Eram carinhosos? Dedicados? Ausentes? Para mim, diz muito sobre um grande homem o modo como se porta com quem de fato importa. Reproduzo aqui o texto que Rosane Pavam, editora de Cultura de CartaCapital, publicou na revista sobre a vida íntima de Karl Marx, o autor de O Capital, a partir do recém-lançado Amor & Capital, de Mary Gabriel. Muito além do pensador, o marido e pai Marx.

***

A miséria familiar

Por Rosane Pavam

Sentado à única mesa de seu apartamento na Dean Street, em Londres, sobre a qual havia papéis, poeira e toda sorte de utensílios, Karl Marx pôs-se a escrever para mudar a consciência do mundo. Mas, enquanto trabalhava, ele nunca estava só. Um dia seus filhos criaram uma brincadeira na qual o cavalo seria Marx. Atrelado a uma fila de cadeiras de pés quebrados, o pai deveria obedecer a um chicote imaginário acionado pelas crianças atrás dele. A diligência ora aceleraria, ora interromperia o curso segundo o desejo de seus cocheiros nutridos a pães e batatas. Enquanto as ideias para o livro em torno do golpe de Luís Napoleão, O 18 de Brumário de -Luís Bonaparte, ferviam na cabeça de Marx, ele obedecia ao ruidoso comando infantil sem perder a ternura. Pelo contrário, convencera-se de que seria possível perdoar à cristandade muita coisa, porque ela nos ensinara a adoração da criança. Os filhos, ele dizia, é que deveriam ensinar os pais.

Talvez por isso, naquele mesmo ano, ele que tinha por hábito distribuir as poucas moedas do bolso aos meninos de rua no Natal, tenha se sentido uma irremediável vítima da orfandade. Franzisca, que estivera entre aqueles delicados cocheiros, sofrera um grave ataque de bronquite e morrera logo após o aniversário de 1 ano, como era de uso entre os 15% das crianças inglesas de então. Estatísticas, segundo Marx, contribuíam para situar a exploração capitalista e compreender o pensamento de uma sociedade a partir de sua estrutura econômica, mas não seriam capazes de lhe fazer aceitar a perda. A família não tinha dinheiro para comprar o caixão de Franzisca.

A esposa Jenny colocou o corpo da menina no quarto dos fundos do apartamento e deslocou todas as camas para a frente, onde a família dormiria até que conseguisse os recursos necessários. Esses não vieram do amigo de toda a vida Friedrich Engels, provedor de sua subsistência, outro pai e outra mãe para seus filhos, porque até o General, como eles o chamavam, não tinha um tostão em 1852. Um exilado francês deu 2 libras para que eles comprassem um caixão, então postado ao lado daquele do irmão de Franzisca, Fawksy, no cemitério a poucos quarteirões de casa. Contudo, por seus dois meninos, e até por um de seus bebês, morto com 1 mês de idade, eles não chorariam tanto como o fariam por Musch. Aos 8 anos, o rosto, a inteligência e o humor do pai, o menino evitara mostrar os braços finos a Jenny durante sua agonia final. Ele não suportaria vê-la sofrer, e foi Marx quem esteve à sua cabeceira até o fim.

Um dos maiores pensadores do século XIX nada seria sem sua família, diz-nos a pesquisadora dessas histórias, a norte-americana Mary Gabriel, em Amor & Capital – A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução (Zahar, 968 -págs., R$ 89,90 o livro impresso, R$ 49,90 o e-book). Escrito com clareza e acuidade informativa, munido da pena da humanista e do requinte da literatura realista, o livro também inova ao centrar a ação em uma intimidade feminina sem a qual, para Marx, a vida seria impossível. “Inicialmente considerei fazer uma biografia de Jenny”, conta Gabriel em entrevista a CartaCapital, “mas depois que li sobre suas filhas pensei que seria mais enriquecedor se eu me ocupasse de todas as mulheres de Marx. Essa história, porém, deveria ser centrada no homem da vida delas, o que ele de fato foi, para o bem ou para o mal”.

Como fontes para seu trabalho, entre as centenas de estudos e biografias envolvendo um pensador que parece ter tido a obra esquadrinhada linha a linha mesmo antes de sua morte, há 130 anos, haveria as bem escritas cartas de Jenny e suas memórias inconclusas. “Minha grande frustração foi não ter podido encontrar o manuscrito original de sua autobiografia”, conta a pesquisadora, por duas décadas editora da agência de notícias Reuters em Washington e Londres. “A versão publicada tem elipses em lugares-chave nos quais a informação parece ter sido omitida.” A supressão que ela mais lamenta envolve o nascimento do filho da babá Helene Demuth, batizado Freddy em homenagem a seu alegado pai, Engels. Mas o pai verdadeiro era Marx, revelou o próprio Engels a uma incrédula Eleanor. Emudecido em razão de doença, o General, inquirido por ela sobre quem seria o pai de Freddy, escreveu-lhe o nome do amigo sobre uma lousa, com giz. Mas, do rumoroso fato, o que Jenny teria sabido?

(Jenny e seu marido Karl Marx)

“Inesquecível parceira amada”, dizia Marx sobre a aristocrata, bela e aguerrida revolucionária cujo irmão, ministro do governo prussiano, Jenny tratava com carinhosa gratidão. Embora seguidamente Marx precisasse sair pela porta dos fundos de seu lar em dívidas, deslocado a Bruxelas, à Trier natal, a Paris ou à Holanda em busca de saldar dívidas, reunir-se com os companheiros ou fugir dos perseguidores políticos, viver sem Jenny lhe pesava a um ponto insuportável. “O meu amor por você, assim que você se afastou de mim, mostrou sua verdadeira face, um gigante, e nele todo o vigor da minha mente e todo o ardor do meu coração estão comprimidos”, escreveu-lhe Marx, a quem os íntimos chamavam Mohr.

Para Jenny, restavam a paciência e o envolvimento ao revisar pela noite as provas dos textos do marido. Ela recebia pobres como reis em sua casa sempre aberta, mas julgava impossível viver o cotidiano sem o modelo familiar conhecido. Embora seus ideais tinissem de novos, agia à moda antiga, submissa a um homem a quem reputava genialidade. E às três filhas que lhe restaram, Jennychen, Laura e Eleanor, insinuaria que idêntico fervor lhes seria inescapável.

Jennychen almejava uma vida como atriz, enquanto se dedicava aos múltiplos talentos como escritora, ensaísta e tradutora. Eleanor ardia pela militância e pelos palcos e Laura não parecia empolgada ao se casar com o revolucionário francês Paul Lafargue, ao lado do qual foi encontrada morta, ele também envenenado em aparente suicídio. Para elas Marx imaginara uma vida em que as finanças estariam estáveis por conta do casamento. Lafargue, em especial, fora aceito na família não pela militância marxista (“Se existe uma coisa certa é o fato de que eu não sou marxista”, assegurou Marx ao genro), antes por ser um médico de solidez familiar. Mas o autor de O Direito à Preguiça, reverenciado anos depois pelo líder russo Lenin, revelou-se errático como os maridos das outras irmãs, todos franceses, indiferentes à sorte de suas esposas.

“Marx era um homem tipicamente do século XIX, no sentido de que não reconhecia a situação das mulheres”, acredita Mary Gabriel. “Ele nem mesmo conseguia ver que condenava as filhas a vidas miseráveis ao não encorajá-las a dedicar seus maravilhosos talentos e mentes a uma existência distante do casamento. Eis um dos maiores enganos de Marx. Creio que ele foi diretamente responsável pelo fim trágico das filhas.” Antes de morrer, e logo depois de perder a esposa, ele viu Jennychen sucumbir a uma infecção generalizada, cercada por quatro filhos pequenos, vítima da solidão, encargos físicos e dívidas acumuladas pelo marido. Eleanor, enganada pelo insensível companheiro de jornada, suicidou-se após a morte de Marx.

Ao jornalista americano John Swinton, que lhe perguntou sobre o que ele imaginava constituir “a lei definitiva do ser”, o pensador respondera: “A luta!” No seu caso, ela fora também íntima e mental. Marx demorava para concluir seus livros, talvez porque julgasse constante a necessidade de atualizá-los e considerasse urgente lançar-se à ação. Mal conseguira concluir o Manifesto Comunista para a revolução de 1848. O Capital, “épico sobre conquistadores e conquistas”, como o define Mary Gabriel, levou quase duas décadas para ficar pronto, enquanto o General Engels precisou estar a postos para concluí-lo a partir das anotações hieroglíficas do companheiro morto. “Marx não conseguia parar de pesquisar”, diz Gabriel, cujo próprio trabalho durou dez anos para ser terminado. A autora estará na Bienal do Livro do Rio em agosto. Nesse momento, de sua residência italiana na costa adriática, ela escreve sobre cinco pintoras expressionistas abstratas americanas dos anos 1940 e 1950.

“Marx era um perfeccionista, e sua vida e de sua família foram duramente atingidas por isso”, afirma. “Ele jamais viveu de seus escritos, a não ser no período em que trabalhou como jornalista para um periódico nova-iorquino. Apesar de necessitar desesperadamente dele, o dinheiro seria a menor de suas preocupações.” Por seu lado, Jenny viveu com o que lhe coube. Mas, depois da morte do quarto filho, esmoreceu. “Não foi fácil perder a coragem”, escreveu em uma de suas belas cartas. “Tudo o que fazemos pelos outros é tirado de nossas crianças.” O marido, contudo, teve a oportunidade de lhe mostrar que não trabalhara em vão. Em 30 de novembro de 1881, uma década e meia depois de a primeira edição de O Capital ter sido publicada sem repercussão crítica, ele leu a Jenny o que escrevera Belfort Bax em um periódico: “O livro encarna o funcionamento de uma doutrina em economia comparável, por seu caráter revolucionário e importância abrangente, ao sistema de Copérnico em astronomia ou à lei da gravitação e da mecânica”. Marx viu os olhos dela nesse momento “maiores, mais adoráveis e mais luminosos do que nunca”. Jenny, que sofria de câncer, morreu dois dias depois, aos 67 anos.

O livro:

11 horas atrás

Como duas gotas de água – Paul Éluard

por Betho Flávio
 
 
Folha molhada-055694
paul éluard / como duas gotas de água

(fragmento)

 

De tudo o que disse de mim que resta

Conservei falsos tesouros em armários vazios

Um navio inútil liga a minha infância ao meu fastio

Os meus jogos ao cansaço

A tempestade ao arco das noites em que estou só

Uma ilha sem animais aos animais que amo

Uma mulher abandonada à mulher sempre nova

Em veia de beleza

A única mulher real

Aqui e em qualquer parte

A oferecer sonhos aos ausentes

Sua mão estendida para mim

Reflecte-se na minha

Digo bom-dia sorrindo

Não se pensa na ignorância

E a ignorância reina

Sim eu tudo esperei

E desesperei de tudo

Da vida do amor do esquecimento do sono

Das forças das fraquezas

Já não me conhecem

Lobos são meu nome e minha sombra.

Paul É luard

algumas palavras (antologia)

tradução antónio ramos rosa e luiza neto jorge

dom quixote

1977

12 horas atrás

VELHO SAFADO

por Betho Flávio
 

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A vida desregrada e os poemas desprovidos de pudor deram a Bukowski, além do status de “cult”, o título de “velho safado” – título que o fez conhecido pelo globo. Mas Bukowski não é só um velho safado, é um poeta de amplo espectro que vai dos poemas “podres” aos poemas filosóficos passando pela poesia intimista.

Bêbado e bem acompanhado… essa é a imagem automática de Charles Bukowski, poeta estadunidense – que nasceu na Alemanha. Sua poesia tem várias facetas, a mais divulgada – e até cultuada – é a sua produção de cunho… a poesia do Bukowski que, de tanta sinceridade e nudez, soa erótica.

Veja o trecho do poema “tão louco quanto sempre fui”:

“bêbado e escrevendo poemas às 3 da manhã.o que importa agora

é mais uma

boceta

apertada

antes que a luz

se apague bêbado e escrevendo poemas às 3h15 da manhã.”

Outro bom exemplo dessa lira é o trecho seguinte do poema “garotas voltando para casa”:

“as garotas voltam para casa em seus carrose eu me sento à janela e

assisto.[…]

mas sigo lembrando da garota no vestido azul

que desceu do carro azul

vi sua calcinha você não sabe o quão excitante a vida pode ser por volta

das 5h35 da tarde”

 

.”bukowski123.jpg

 

Mas nem só de confissões pouco castas vive o poeta, e nem só de prostitutas nem de “ver calcinhas” vive o velho safado. A lira romântica de Bukowski ganha espaço entre situações casuais e o desejo do duradouro (se não for do eterno). Pouco divulgada, mas igualmente genial. O desejo de um amor é bem expresso por ele no seguinte excerto do poema “garotas calmas e limpas em vestidos de algodão”:

 

“preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher

mais do que da máquina de escrever, mais do que do

meu automóvel, mais do que de

Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso

senti-la no ar, posso senti-la

na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas

para seus pés caminharem,

posso ver travesseiros para sua cabeça,

posso sentir a expectativa da minha risada,

posso vê-la acariciar um gato,

posso vê-la dormir,

posso ver seus chinelos no chão.

eu sei que ela existe

mas em que parte deste planeta ela está

enquanto as putas continuam me encontrando?”

bukowski1.jpg

Bem além do vasto campo do amor e do sexo, Bukowski também entra numa área memorialista que tende ao saudosismo, à reflexão sobre o tempo. E isso ele explica no poema “oh sim”:

“há coisas piores que

estar só

mas nos custa décadas

até que percebamos

e geralmente

quando conseguimos

é tarde demais

e não há nada pior

que

ser tarde demais”

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E o próprio Bukowski tenta explicar essa sua insistência numa poesia depravada e descompromissada com o eterno e com o amor convencional num poema confessional. Em “Bluebird”, o velho safado insinua que, no fundo, não passa de um velho que decidiu prender seu “pássaro azul”. Para finalizar o artigo, “Bluebird”:

“há um pássaro azul em meu peito que

quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo, fique aí, não deixarei

que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que

quer sair

mas eu despejo uísque sobre ele e inalo

fumaça de cigarro

e as putas e os atendentes dos bares

e das mercearias

nunca saberão que

ele está

lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que

quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo,

fique aí, quer acabar

comigo?

quer foder com minha

escrita?

quer arruinar a venda dos meus livros na

Europa?

há um pássaro azul em meu peito que

quer sair

mas sou bastante esperto, deixo que ele saia

somente em algumas noites

quando todos estão dormindo.

eu digo, sei que você está aí,

então não fique

triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,

mas ele ainda canta um pouquinho

lá dentro, não deixo que morra

completamente

e nós dormimos juntos

assim

com nosso pacto secreto

e isto é bom o suficiente para

fazer um homem

chorar, mas eu não

choro, e

você?”

DO OBVIUOS

12 horas atrás

Carniceiros da OTAN matam onze crianças e uma mulher no Afeganistão

por Betho Flávio
 

Ataques dos Talibãs matam seis americanos e um médico local, em resposta os bandidos da Otan mataram 11 crianças e uma mulher.

<br />Soldados do exército afegão correm para o lugar onde momentos antes um carro-bomba explodiu matando seis americanos e um médico afegão<br />Foto: APTN / AP

Soldados do exército afegão correm para o lugar onde momentos antes um carro-bomba explodiu matando seis americanos e um médico afegãoAPTN / AP

CABUL E SHIGAL – Dois ataques este fim de semana fizeram mais 19 vítimas no Afeganistão. No sábado, um carro-bomba de rebeldes Talibãs em Qalat, província de Zabul, matou um grupo de seis americanos, civis e militares, além de um médico afegão. Entre as vítimas estava a diplomata de Illinois Anne Smedinghoff, de 25 anos. Em um ataque de vingança neste domingo, onze crianças e uma mulher foram mortas em um bombardeio aéreo durante uma operação da Otan, que tinha como alvo líderes talibãs no Leste do Afeganistão, disseram autoridades da região neste domingo.

Mortes de civis têm sido uma fonte de atrito entre o presidente afegão Hamid Karzai e seus apoiadores internacionais. Karzai proibiu tropas afegãs de organizar ataques aéreos e a Otan aconselhou suas forças a não atirar ou bombardear áreas povoadas.

Seis insurgentes — dois deles, altos dirigentes do Taliban — foram mortos durante a operação em uma vila do distrito de Shigal, na província de Kunar, região que faz fronteira com o Paquistão, disse o Ministério do Interior em um comunicado. O ministério não mencionou as vítimas civis, mas Wasefullah Wasefi, porta-voz do governador da província, afirmou que casas civis foram atingidas durante o ataque aéreo.

— Onze crianças e uma mulher foram mortas quando um ataque aéreo atingiu suas casas — disse Wasefi.

17 horas atrás

NÃO EXISTE MERCADO CULTURAL, EXISTE MERCADO

por Betho Flávio
 


Por Trezentos

O termo gestão pública, no Brasil, passou a ser sinônimo de choque para atemorizar a sociedade. Pior, tudo para atender aos sacramentos do setor privado que, hoje, mais parece inspiração pura e divina de meritocracia para os gestores públicos.


E não é diferente no Ministério da Cultura, Marta, aos poucos, vem “desembaraçando” os gargalos internos e mostrando um método eficiente internamente, mas cada vez mais distanciado da alma da cultura brasileira.

Como no dito popular, está tudo certo, porque está tudo errado. O MinC tem o direito de fazer um gestão morna, sem sobressaltos, sem ao menos ter a consciência do que é e como funciona o território cultural brasileiro, só não pode achar que aqui fora a vasta cultura está estática e identificada com essa forma de gestão. Seguem algumas questões:

NÃO EXISTE MERCADO CULTURAL, EXISTE MERCADO
Toda a pregação no Ministério da Cultura em que o mercado tem um grande mérito nas pseudo-ideologias de inclusão, cai por terra, porque é sabido que não existe uma composição específica para determinado mercado. O que está dogmatizado como mercado cultural é farinha do mesmo saco especulativo, por mais que se tente colorir o rótulo com a novidade universal da indústria criativa. A bula da SEC/MinC é constituída pelas velhas receitas do neoliberalismo. Enfim, negócios versos negócios, melhor dizendo, toma lá dá cá, assim como as técnicas de vender sabonete, caixa de fósforos, parafusos, alimentos, em que as palavras, cooperação e criação, desaparecem da forma mais primitiva, egocêntrica e individualista. Portanto, não há como separar todas as forças destrutivas originárias de um mercado selvagem como ele é na essência e unir o que “existe de bom” aos homens de bem da cultura, humanizando os negócios e transformando a esquizofrenia de mercado cultural em convento de freiras.

A LEI ROUANET, OS EDITAIS E SUAS CONSEQUÊNCIAS NEFASTAS
Na cultura, a esquerda perdeu o discurso. Abriu-se aí o espaço para o período mais longo do neoliberalismo cultural de Estado. Com 20 anos, a Lei Rouanet praticamente suprimiu a inteligência, o pensamento crítico, o que foi substituído por um critério tosco de “cultura e mercado”. A articulação neoliberal usou a lei para legitimar suas teses. Hoje a cultura brasileira está num gueto, incapaz de qualquer reação intelectual. Os Institutos e Fundações privadas têm mais visibilidade que, por exemplo, a Funarte que se transformou em mais um personagem do elenco de apoio da burlesca e caricata forma de se pensar cultura no Brasil. O esvaziamento foi inevitável, a inteligência de esquerda massacrada, e aí, praticamente a mediocridade triunfou. Ou o Estado para de bancar a máquina de fabricar editais e se nutre de um cardápio mais profundo, ou teremos a era mais longa da cultura calculada pelos neoliberais.

O UNIVERSALISMO ENVIESADO DA INDÚSTRIA CULTURAL
É ridículo o Estado aceitar o argumento de que cultura de massa é parte de nossa diversidade cultural, não é e nunca quis ser. Ao contrário, com a força da grana, quis ditar comportamentos e negar qualquer coisa que não fosse sua indústria de pastiche. Agora, com o sistema sendo derretido e o monopólio da produção e difusão esfarelando, a indústria cultural, para garantir sua posse, parte para tomar as cidades com grandes eventos tentando sufocar ou se apropriar da produção independente, além de usar os espaços e os recursos públicos como a nova e mais rentável forma de negócio. Por outro lado, o Estado se torna incapaz de garantir a produção integral da criação contemporânea de nossa cultura. O Rock in Rio talvez seja a forma mais visível desse capitalismo cultural nômade, mas infelizmente, pela total ausência de um pensamento minimamente intelectualizado, a cúpula do Estado ajuda a embalar a lógica que percorre o país como vendedora de felicidade, oportunidade e toda aquela retórica expedida pelos velhos proprietários da indústria cultural.

A RESPOSTA DA TROCA DE NOSSA IDENTIDADE POR UM MERCADO DE IDENTIDADES
Todas as deprimentes formas de intolerância, no Brasil, se realizam no vácuo da intolerância social, política e cultural. Esse monumento de estupidez salvador dos nossos brios culturais pelo mercado, trazido pelo grandioso vernáculo dos gestores empresariais, tem contribuído para uma fecunda ação política em prol do fascismo, da má fé e de uma constelação de intolerâncias. Na verdade o principal nutriente das linguagens do preconceito tem origem no livro sagrado do capitalismo.

A GESTÃO PÚBLICA PELA GESTÃO PRIVADA
A personalidade de nossa gestão pública de cultura equivale aos resultados de nossas políticas públicas. Quanto menos crítico ao consenso unânime do mercado cultural, mais flagrante é a miséria do seu pensamento. O Estado, de acordo com sua veneta, tem delegado cada vez mais aos gestores corporativos a tarefa de aleijar a alma da cultura brasileira. A politicagem estética, com seu pastiche cheio de dogmas de mercado, tem levado todos os aspectos que afirmam a nossa identidade cultural a um inédito vazio.
Infelizmente é desse filão de aspectos que vem sendo consagrada a gestão da ministra Marta Suplicy, algo entre o conforto e o quentinho, mais corporatocrático que orgânico, mais ouro que alma Assim, imagino eu que a ministra foge das intempéries de um debate nacional de cultura no Brasil.