Vai vendo: Pastor recebe mensalmente R$ 2,5 mil para dar consultas espirituais em hospital

por Rosangela Basso
 
Vai vendo: Pastor recebe mensalmente R$ 2,5 mil para dar consultas espirituais em hospital 

Jornal de Jundiaí

CAIO ESTEVESCom o pastor haverá mais humanização, defende Miranda
Com o pastor haverá mais humanização, defende Miranda Após manter silêncio sobre a contratação de um pastor remunerado no Hospital São Vicente de Paulo, o secretário de Saúde, Cláudio Miranda, afirmou ontem que o profissional segue em seu cargo e terá, inclusive, uma sala para fazer seus atendimentos espirituais – com mesa e computador. O local, disse o secretario, não será grande e não comprometerá a parte física do São Vicente – que no mês passado inaugurou um Pronto Atendimento para ter mais espaço e, assim, abrir novos leitos. “Será em uma área administrativa.”

Como revelou o Jornal de Jundiaí Regional com exclusividade ontem, o pastor José Adilson Telles recebe mensalmente R$ 2,5 mil para dar consultas espirituais no hospital, cargo que desempenha desde 13 março. Ele é registrado como auxiliar administrativo. 
Atualmente, o São Vicente possui sua capela, de viés católico e, por isso, o secretário acha justo que o pastor também tenha um espaço para suas funções. Miranda explicou a contratação como uma forma de dar mais humanização ao serviço do hospital e encara o cargo como administrativo. Não existe hoje a função de pastor dentro de determinada empresa ou instituição. Ainda assim, o secretário disse que a contratação – com um profissional desempenhando uma função diferente do que consta na folha de pagamento – não é ilegal. 

Procurado pela reportagem anteontem, o pastor afirmou que foi indicado por Miranda. Sobre a declaração, o secretário disse não ser verdade e que a indicação foi do Conpas (Conselho de Pastores). 

O novo profissional do São Vicente deverá, também, fazer um curso de especialização em capelania e passar seus ensinamentos para outras pessoas, para que isso seja levado a outros hospitais e instituições. Ainda segundo o secretário, o assunto não foi abordado com Pedro Bigardi (PCdoB) e ele não sabia se o prefeito tinha conhecimento do caso. O pastor, além de trabalhar de segunda a sexta-feira, poderá estar presente também aos finais de semana no hospital. 

Católicos – Segundo o secretário de Saúde, o padre que trabalha hoje dentro do São Vicente também recebe um salário – de R$ 700 – e a ideia é equipará-lo ao do pastor. De acordo com o padre Jorge Demarchi, coordenador do Setor de Comunicação da Diocese de Jundiaí, entretanto, nunca houve uma remuneração por parte do Hospital São Vicente de Paulo para o padre que ali atua.  

“Não tenho conhecimento de que ele receba um salário do hospital. O que existe é uma ajuda de custo, paga pela Cúria Diocesana, para que o padre possa se manter”, afirma padre Jorge. Ele também confirmou o trabalho voluntário feito pela Pastoral da Saúde. A presença de uma outra religião além da católica e da evangélica não se justifica para Miranda, porque o serviço de capelania é apenas desenvolvido por estas duas religiões.
Pedido 

O vereador Rafael Antonucci (PSDB) enviou um ofício a Miranda, ontem, pedindo a anulação da contratação do pastor. Cópia do documento foi postada em uma rede social e gerou discussões entre seus usuários. 

Procurado, o vereador disse que seu foco não é a religião, que ele respeita, mas a remuneração do pastor. No ofício, ele se refere à contratação como “verdadeira atrocidade financeira”. Antonucci ainda cita o Artigo 19 da Carta Maior, “com o impedimento específico de quaisquer verbas que possam ser definidas como contribuições ou pagamentos a integrantes desta ou daquela religião”. 

O conselheiro de Saúde Osvaldo Cosmo afirmou que o Comus (Conselho Municipal de Saúde) – do qual Miranda é o presidente – não foi avisado sobre a contratação do pastor e considera a situação constrangedora para o hospital. Osvaldo  sabia da presença do pastor, mas não da remuneração e que ainda não conversou com o superintendente do São Vicente, Fued Maluf, sobre o caso. 

Miranda, ao ser questionado sobre o motivo de não ter avisado os outros membros do Comus a respeito da contratação de José Adilson, disse tratar-se da entrada de um novo profissional, como qualquer outro. 

Agostinho Moretti, presidente do Conselho de Saúde do São Vicente, também se colocou contra a remuneração do pastor. “Os conselheiros, por exemplo, fazem trabalhos aqui, mas são todos voluntários.” Nós próximos dias, os conselheiros do São Vicente deverão se reunir e o caso do pastor entrará em discussão. 
RAFAEL AMARAL

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