Miss Dollar

Criação de Machado de Assis, 1870. O conto “Miss Dollar” conta a história de uma viúva cética quanto ao amor de seus pretendentes por causa da convivência com o falecido marido, interessado apenas em seu dinheiro. Uma cadelinha chamada Miss Dollar foge de casa e é encontrada por Mendonça, um jovem médico colecionador de cachorros. Ao ver o anúncio dos donos da cachorra, decide devolvê-la. Conhece assim Margarida, uma viúva ainda moça por quem se apaixona. A moça parece não corresponder aos seus sentimentos. Mendonça, depois de algum tempo, resolve mandar-lhe uma carta a qual é respondida secamente. Fica muito triste e pensa em desistir da bela moça até que D. Antônia, tia de Margarida o procura para contar-lhe que a sobrinha o ama e que o evita por medo de que ele seja apenas mais um golpista, como foi seu finado marido e todos os outros pretendentes que surgiram depois. Ela pede que ele vá vê-la e o inevitável, segundo Margarida, acontece. Casam-se. No início ela desconfia de suas intenções reais mas percebe, com o tempo, que seu amor é sincero. E, para terminar a história, Miss Dollar, responsável pela união de Margarida e Mendonça, é atropelada e morre.

  • Capítulos

    Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade e do estilo, o que foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá a ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.

    Os dois horizontes.

    Dois horizontes fecham nossa vida:

    Um horizonte, — a saudade
    Do que não há de voltar;
    Outro horizonte, — a esperança
    Dos tempos que hão de chegar;
    No presente, — sempre escuro, —
    Vive a alma ambiciosa
    Na ilusão voluptuosa
    Do passado e do futuro.

    Os doces brincos da infância
    Sob as asas maternais,
    O vôo das andorinhas,
    A onda viva e os rosais.
    O gozo do amor, sonhado
    Num olhar profundo e ardente,
    Tal é na hora presente
    O horizonte do passado.

    Ou ambição de grandeza
    Que no espírito calou, 
    Desejo de amor sincero
    Que o coração não gozou;
    Ou um viver calmo e puro
    À alma convalescente, 
    Tal é na hora presente
    O horizonte do futuro.

    No breve correr dos dias
    Sob o azul do céu, — tais são
    Limites no mar da vida:
    Saudade ou aspiração;
    Ao nosso espírito ardente,
    Na avidez do bem sonhado,
    Nunca o presente é passado,
    Nunca o futuro é presente.

    Que cismas, homem? — Perdido
    No mar das recordações,
    Escuto um eco sentido
    Das passadas ilusões.
    Que buscas, homem? — Procuro,
    Através da imensidade,
    Ler a doce realidade
    Das ilusões do futuro.

    Dois horizontes fecham nossa vida.

    — Machado de Assis.

     
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