A gargalhada do papa

por Hélio Consolaro
 
 
Hélio Consolaro* 
As atitudes que quebram paradigmas me são simpáticas. O ministro Joaquim Barbosa de camiseta polo, por exemplo, tomando uma cerveja num bar é muito interessante, para quem está acostumado a vê-lo de toga, vestido de morcego.

 

 

De toga, o ministro negro ganha solenidade, como dizia minha avó, fica parecendo gente. Brancos paramentados causam a mesma impressão, mas observe, caro leitor, a foto como o ministro à paisana fica com a cara de habituê de boteco, parecendo corintiano.

 

Com essa foto, o fotógrafo quis mostrar quão vulgar ou normal são as autoridades, astros, artistas ou ídolos fora dos pedestais. Não desejo destronar ninguém, mas ver estereótipos caindo aos pedaços é tudo que enlouquece um poeta, um publicitário, uma pessoa com o saco cheio das formalidades.

 

Outra foto que encantou por sua singularidade e singeleza foi a do papa Francisco. Foto de papa circunspecto, rezando, cara de quem está suportando as dores do mundo é comum. Que as santidades gargalham em momentos mais reservados de sua convivência é fato, mas se deixando fotografar assim, disseminando a imagem para o mundo é a grande novidade.

 

 

Para quem não sabe, sorrir era coisa do diabo durante a Idade Média, época em que a Igreja Católica metia bedelho em tudo. Convido o leitor a procurar alguma imagem de Jesus Cristo gargalhando ou mostrando os dentes. Nem as imagens de santos chegam a tanto. Todos são desenhados, imaginados na maior seriedade. Nos vitrais da época, só o diabo aparece gargalhando.

 

 
Interior das igrejas são verdadeiros ambientes fúnebres. Deus é apresentado como aquele que não quer ver seus filhos felizes, um distribuidor de desgraças: “Seja o que Deus quiser”. Daí as situações mais alegres serem chamadas de “do jeito que o diabo gosta”.

 

Papa Francisco está fazendo o mundo se esquecer do carrancudo Bento 16, com a cara de velhinho que considera o mundo perdido.  É a igreja mostrando uma cara leve, mais suave. Pode ser marketing? Pode. E é, mas longe do Francisco a artificialidade. Desde João Paulo 1. º não elogio um papa. Sinto-me mais confortável com o novo pontífice.

 

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP.

 

       Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras. 

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