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A MAGIA DA MÚSICA NUMA CONVERSA COM NICOLE EITNER

por  em 05 de abr de 2013 às 00:10

A magia é algo que na música adquire por vezes formas inesperadas. A voz e o piano de Nicole Eitner conseguem-no de uma maneira quase transcendente. Meio portuguesa meio alemã, falou connosco sobre música e muito mais.

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Repartes as tuas origens entre Portugal e a Alemanha. Sentes-te mais portuguesa ou germânica?
Nasci na Alemanha, mas cresci em Portugal. Vejo Portugal como o “meu” país, mas sempre vivi cá como uma alemã: Escola Alemã, os amigos dos pais alemães, em casa falava-se alemão e os meus amigos são todos bilingues. Sonho, leio, conto e ralho em alemão, tenho só a nacionalidade alemã. Tenho muitos amigos assim e cá em Portugal fazem-me sempre a pergunta se sou mais portuguesa ou alemã. Eu explico assim: falo as duas línguas, sinto em português, mas raciocino em alemão. Sou uma alemã de Portugal. E com muito gosto.

Nicole01.jpgO facto de teres vivido alguns anos na Alemanha influenciou a tua forma de trabalhar? Como?
Influenciou muito. Estudei pedagogia da música e marketing, comunicação e publicidade. Na Alemanha quem vive pelas “regras” tem uma vida fácil, prática e bem organizada. Porque todos são assim, não se espera muito, trabalha-se rápido.
Já a tocar piano aprende-se a estar durante muito tempo concentrada, a trabalhar em marketing com deadlines curtos, nem se comia ou dormia para apresentar um trabalho.
Aprendi a estar concentrada durante horas a fio. Como fui para Munique aos 18 anos, a maneira de trabalhar alemã influenciou muito o meu dia a dia. Sou muito organizada, gosto de fazer listas, de planear e cumpro o que digo. Há muitas diferenças entre estes dois países na maneira de estar e de trabalhar. Por isso tendo em fazer muita coisa sozinha para andar para a frente ao meu ritmo.
Lá em Munique, se uma reunião começa às 10 da manhã de segunda-feira, todas as segundas-feiras, todos estão na sala às 09h50 para a reunião começar “às 10”. E basta marcar uma vez. Se eu convido uns amigos para virem sábado daqui a duas semanas jantar a minha casa às 20h00 não preciso confirmar para aparecer alguém. Foi dito. Imaginas como foi o meu primeiro jantar cá em Portugal. Não veio ninguém porque “nunca mais disseste nada”… Em Roma sê romano, em Portugal não se “stressa” muito. É só seguir mais as regras da boa disposição. É que aqui há sempre algo para rir! Ando sempre a rir, ganhei a minha maneira de estar e trabalhar como uma alemã em Portugal e assim consigo ser bem feliz. Adoro viver e trabalhar em Portugal e acho que não vou voltar a sair daqui!

Durante esse tempo colaboraste com bandas de jazz alemãs, como foi essa experiência? 
Cantei em variadíssimos projetos de jazz, funk e rock. Ganhei a minha confiança como cantora em palco.

Ainda antes de ires para Munique, cantaste com os Delfins, com quem fizeste as tournées de 88 e 90. Gostaste dessa aventura?
Sobre os meus amigos Delfins posso escrever um ensaio que não caberia aqui. Nós eramos amigos da praia e de Cascais. Eu morava perto do Miguel Ângelo e numa “jam” à noite tive coragem de participar e fiquei como cantora. E assim gravei o álbum “O outro lado existe” com eles…

Nicole04.jpgComo era andar na estrada nessa altura com uma banda com tanta repercussão como os Delfins? Eu ainda andava na Escola Alemã de Lisboa e ouvia tudo menos música pop! Encarei isto tudo na altura como uma brincadeira musical fora do normal, aos fins de semana viajava pelo país e tornámo-nos todos muito amigos, até hoje. Acho que naquela altura nem realizei bem o que se passava. Sentia o público a vibrar com “Aquele Inverno” e divertia-me muito com eles! Quando voltei a tocar e a cantar com os Delfins em 1997 é que tudo já tinha outro nível. Aí sim, foi entrar de paraquedas numa multidão…

A quem vais buscar as tuas principais influências?
Eu adoro música que mexa comigo emocionalmente como a voz de Elizabeth Fraser ou Lisa Gerrard dos Dead Can Dance, David Sylvian, Sarah Blasko e outros artistas sem gaveta. Amo música clássica e bandas como Pink Floyd, Radiohead ou Nine Inch Nails. As minhas mãos são “clássicas”, a minha voz é mais pop, juntei-me com músicos não estereotípicos como o Miguel Menezes, o Alexandre Frazão e a Viviena Tupikova. Cada um acontece.

Em 2007 lançaste no mercado o teu primeiro trabalho em nome próprio, “Vampires” onde se descobria já uma profunda originalidade…
“Vampires” foi o meu passo de coragem de mostrar ao mundo a minha música sem saber se algum dia alguém iria realmente gostar. Tenho muitas músicas guardadas para um dia as deixar florir. “Vampires” foi uma seleção de músicas minhas desde que comecei a compor ao piano aos 10 anos.

Objeto de reconhecimento, com este trabalho chegaste a semifinalista do UK Songwriting Contest, que repercussão esse facto teve na divulgação do teu trabalho?
Em 2008 fiquei semifinalista com quatro temas do álbum Vampires. No fundo só fica o reconhecimento de bom trabalho e originalidade. Para mim, como se fosse um ok para continuar neste caminho.

Nicole05.jpgAsseguraste as primeiras parte de Suzanne Vega, em julho de 2009, e dos cinco concertos da tournée de Joan as Police Woman, em março do ano passado. Como aconteceram esses convites e como foi partilhar o palco com essas referências da música atual?
Tenho o maior orgulho de ter partilhado o palco com estas duas maravilhosas cantoras da minha vida. Ainda sabia as músicas todas de cor da Suzanne… foi um regresso à juventude muito bom. E a Joan, para ser sincera, foi a artista que me fez decidir começar a batalhar. Vi-a na primeira parte de Rufus Waynwright no Coliseu sozinha ao piano. Estava a dois metros dela e pensei: eu também sei fazer isto…. e foi assim que tive coragem de começar. Numa entrevista muito no início respondi à pergunta, de quem eu gostaria um dia de fazer a primeira parte: Joan as Police Woman! E assim foi. Há que dizer as coisas bem alto para elas acontecerem…

O ano de 2011 marcou o ter regresso aos discos, com “I am You”. De que forma caracterizarias este álbum?
Este álbum foi gravado cheio de convicção em termos de rumo. Como já disse, no primeiro não sabia o que me esperava. No segundo já tinha feito uma tour em Portugal, tocado em todas as FNAC e sentido um público. Percebi onde andava. Decidi regravar alguns temas do primeiro, mas desta vez com banda. É um álbum com consistência.

O que o distingue do anterior?
O primeiro CD gravei quase que como uma demo, com o Zeca Neves no contrabaixo, a Viviena Tupikova no violino, sem clique… O segundo já foi planeado com estúdio, técnico, entretanto tenho outros músicos a tocar comigo, o Miguel Menezes no contrabaixo e voz e o Alexandre Frazão na bateria. A Viviena “foi ficando”…

Onde vais buscar inspiração para compor?
Todos os dias e momentos me inspiram para escrever. Ando sempre com o meu livrinho na mala, capto momentos e ideias, tiro fotografias verbais do mundo. Geralmente escrevo uma letra e sento-me ao piano. E depois sai uma música que ainda tem que amadurecer, tocando-a milhares de vezes. Já tenho 18 músicas novas para um terceiro CD. O ano passado foi de plena inspiração!


Mais em http://lookmag.pt/blog/a-conversa-com-nicole-eitner/

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Artigo da autoria de Sandra Pinto.
Editora e jornalista nas áreas de lifestyle, cultura e turismo, amante de música (https://www.facebook.com/RadioLookMag)e apreciadora das coisas boas da vida. Gosta de desafios, o último deles, a coordenação do projecto Look Mag (http://lookmag.pt/). .
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