NAS PEGADAS DA MARCHA DE ORGULHO LGBT.

em recortes por  em 04 de abr de 2013 às 23:34 | 1 comentário

Magnus Hirschfeld, Fascismo. The Society for Human Rights, Alfred Kinsey, Harry Hay. Stonewall. É assim, sinteticamente e em três fases distintas, que a História dos Movimentos LGBT’s pode ser dividida. Partindo da Alemanha do século XIX, passando pelos tumultos do século passado, e chegados agora ao novo milénio, a comunidade LGBT contínua ainda na demanda para conquistar aquilo que o próprio Homem instituiu (doce utopia!): todos nascemos iguais em direitos.

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Marcha de Orgulho LGBT Lisboa

Foi, principalmente, na segunda metade do século XX que subculturas nos Estados Unidos da América e na Europa começam a lutar por direitos plenos, apoiando-se no discurso médico, reivindicam uma homossexualidade não-patológica. Eram dias de mudança, em que as primeiras associações LGBT nasciam, ainda que o público-alvo se recusasse a encontrar ali fonte de informação ou abrigo. O estigma social remetia grande parte da comunidade para vidas na sombra, ocultando o melhor que se podia a verdadeira identidade, frequentando espaços e tempos fugidios. Sem intervenientes suficientes, rostos ou vozes, a luta por direitos iguais era pontual e tímida.

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A 28 de Junho de 1969 a realidade mudou drasticamente e o ativismo LGBT, tal como o conhecemos(?) hoje, começou a ser desenvolvido. Não se conhecem os pormenores com certeza, mas de forma genérica é aceite que naquela noite a polícia de Nova Iorque invade o bar Stonewall Inn, frequentado maioritariamente pela comunidade homossexual, e usando a força agride e apreende várias pessoas. Este evento, que não era raro, conduziu à revolta dos presentes, contrariando a passividade a que se submetiam habitualmente. Os confrontos com a polícia, que acabariam por se prolongar até 2 de Julho, ficaram conotados com o primeiro momento de luta e tomada de consiciência de grupo, conduzindo depois aos momentos cada vez mais politizados no embate ideológico. Nesses 4 dias de calor estiveram em Stonewall mais de 2000 pessoas, rompendo o silêncio.

A sensação de conquista de dignidade e a prova de que era possível a ação coletiva de gays e lésbicas para lutar contra a opressão transformam o Movimento LGBT, que começa a tomar proporções à escala regional, nacional, internacional.

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Naturalmente, Junho foi escolhido como o mês do orgulho LGBT. “Orgulho”, uma palavra que ainda hoje levanta muita confusão. Em primeiro lugar porque a palavra orgulho tem normalmente, em português, uma conotação negativa. Em segundo lugar, como ser orgulhoso/a de algo que não se adquire, pelo que não se lutou? Como ser orgulhoso/a de uma característica natural – neste caso a orientação sexual?

Como me foi dito por João Paulo – ativista português – responder a isto é simples: ninguém vai para a rua dizer “sou gay”… pelo contrário, vai para dizer “sou gay e estou vivo”. O Orgulho LGBT faz-se de todos os momentos em que alguém, correndo o risco de ser marginalizado, de sofrer represálias, fala abertamente, fazendo frente ao preconceito. O orgulho está em resistir e fazer face às dificuldades impostas por uma sociedade ainda receoso de tudo o que é diferente ou desconhecido. Conhecimento, ou falta dele, sempre foi, ao longo da História, o impulsionador das maiores convulsões sociais. Aqui não é diferente.

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O aspeto mais curioso, ou não, da Marcha de Orgulho LGBT é constatar que na própria comunidade o preconceito está presente. “Ninguém com três dedos de testa desfila para exibir a sua opção sexual: é privado, diz respeito a cada um e não a todos”, pode ler-se no portal online PortugalGay, em resposta à pergunta “Alguma vez viu uma Marcha do Orgulho LGBT ao vivo?”. Opção. “Ninguém escolhe ser descriminado. Niguém escolhe ser algo que a sociedade diminui” contrapõe João Paulo. A orientação sexual é isso mesmo, não se lhe pode fugir. Reprimir talvez. Opção é, por exemplo, a forma como se vive a sexualidade, e isso, atrevo-me a dizer, não é o objetivo principal das Marchas (ainda que também faça parte da celebração – ao fim e ao cabo é a sexualidade que está no cerne da questão, eterno tabu que deve ser contido dentro de quatro paredes, de preferência com luzes apagadas).

Outra ideia errada é que a orientação sexual é do foro privado. Na verdade não está errada, certo. Diz respeito a cada indivíduo. Mas como se alcança a desejada mudança de paradigma se não há a visibilidade das minorias? Como conseguir a mudança na situação sem o grito de Ipiranga, sem dizer “estamos aqui”, sem mostrar a diversidade de que é feita a sociedade? Não somos todos iguais. Tentar abafar isso é tentar abafar o melhor que a Humanidade tem. O que se pretende em momentos como a Marcha é precisamente isso. Mostrar que a diversidade não é algo a temer, que não é por não se falar que o desconhecido deixa de existir – pelo contrário. E acima de tudo, que todos somos iguais, mas nos direitos e deveres.

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Muitas vezes esta é a imagem vinculada quando se houve falar em Marcha. Vinculada não só em meios de comunicação social, mas também no imaginário de muitas pessoas. Festa, corpos semi-nus, promiscuidade até. Se é uma ideia correta? Difícil de dizer, já que a forma como cada Marcha é organizada depende das pessoas, do próprio país, da cultura. Certo é que, em qualquer parte do mundo, com mais ou menos plumas, é também uma celebração. Celebração das pequenas e grandes batalhas vencidas, celebração pelas vozes que atualmente se podem fazer ouvir (não em todo o mundo, é certo). Se estes momentos perdem força ou credibilidade devido a alguns – ou muitos – mamilos à mostra? É difícil de dizer. Talvez, principalmente para aqueles que olham de fora sem conhecer (sempre o conhecimento!) a história de tudo o que está por detrás de um batom. Ainda assim, independentemente de maior ou menor influência política, ela está lá. Foi assim que tudo começou à 44 anos – gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais reivindicando direitos e repudiando violações. E resultou. Hoje não são apenas LGBT que se juntam ao movimento. Há cada vez mais heterossexuais a juntarem-se à festa – com e sem t-shirts – mudando consciências e lutando por uma sociedade mais justa.

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A emancipação destas minorias, seja através da reivindicação ou da nudez – ela própria uma forma de protesto – procura cravar memórias e palavras numa sociedade que se deseja verdadeiramente multicultural.

As Marchas de Orgulho LGBT assumem-se como um momento em que a resistência e a luta politica sai do foro das associações e vai para a rua, fazendo-se ver, possibilitando que os temas proclamados sejam incorporados à agenda pública e passem a configurar no leque de políticas públicas que Estados e governos se veem obrigados a desenvolver e manter. Os próprios discursos, proferidos durante as Marchas por ativistas, forças políticas, culturais ou associativas são um forte componente. Mesmo que muitos desses discursos não cheguem aos media, ao grande público, têm impacto no público presente, o que acaba por ter um efeito multiplicador. Discursos que se resumem ao desejo de viver uma cidadania em pleno. 

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Artigo da autoria de Rui Caeiro.
Sonha (atenção ao clichê!) ser dono de um corpo escultural dando apenas ao dente. De resto, procura histórias/estórias. Quem as possuir pode entrar em contacto. Quem não possuir também pode, mas tem de enviar qualquer coisa que se trinque..
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