Falsa ficção

por Renato Tardivo
 

Argo

Quando o prêmio de melhor filme na edição do Oscar deste ano foi anunciado de surpresa na Casa Branca pela primeira-dama Michelle Obama, todos pensaram que a estatueta iria para o favorito Lincoln, de Steven Spielberg. O vencedor, no entanto, foi Argo, filme dirigido e protagonizado por Ben Affleck e que, tendo levado o Globo de Ouro, corria por fora na disputa.

Mas o vencedor também guarda relações com a Casa Branca. Inspirado em fatos reais, Argo retrata a crise envolvendo Irã e EUA, na passagem de 1979 para 1980. O contexto histórico é apresentado ao espectador na sequência de abertura com a projeção de uma história em quadrinhos. Resumidamente: motivados por interesses econômicos, os EUA ofereceram suporte ao governo do xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto em 1979. A população do Irã exigia a “cabeça” do xá, então exilado nos EUA, e, enfurecida, tomou as ruas de Teerã, culminando com a invasão da embaixada estadunidense. A ocupação se estendeu por 444 dias, e 52 diplomatas foram mantidos reféns.

O filme de Affleck, contudo, se ocupa da operação de resgate – mantida em sigilo por muitos anos, vindo a ser revelada apenas no governo Clinton – de seis reféns que conseguiram deixar a embaixada e se refugiaram na residência do embaixador canadense.

Affleck filma influenciado pela estética dos anos 1980 e aproveita imagens da época para construir uma atmosfera documental. O personagem interpretado pelo próprio diretor (um oficial da CIA) lidera a “Operação Argo”, que se valeu de uma falsa produção de filme – chamado “Argo” –, cujas filmagens ocorreriam no Irã. Caso o resgate fosse bem sucedido, os seis diplomatas retornariam aos EUA passando-se por membros da equipe do filme.

E, nesse sentido, a narrativa com fortes traços documentais se aproveita, também, de elementos da ficção, ou melhor, de uma “falsa ficção”, o que potencializa o seu efeito. Sequências bem humoradas, aliadas à trilha sonora dos anos 1980, amenizam (positivamente) a tensão. Aqui, Argo cresce: se, na passagem de 1979 para 1980, a História se valeu da ficção (o filme falso chamado Argo) para seguir o seu curso, Affleck transforma tudo isso em cinema de verdade, uma trama que ficcionaliza o material do qual, paradoxalmente, depende para existir.

Mas não é só. Há, ainda – o que não causa surpresa em se tratando de uma produção hollywoodiana que visa o grande público –, o drama pessoal do protagonista, resumido ao clichê: o especialista em resgatar pessoas é o mesmo que deixa abandonados mulher e filho. Clichê que, no fim, se resolve com um paralelismo derramado.

Além disso, conquanto não se enquadre entre as produções hollywoodianas mais ufanistas, Argo, evidentemente, assume o ponto de vista dos EUA na questão contra o Islã, o que, em princípio, não comprometeria o filme. O problema é que, se funciona bem do ponto de vista da dramaturgia, o filme de Affleck deixa a desejar do ponto de vista histórico, porque se vale de questões importantes as quais não aprofunda.

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