As dores de Duran

por Gustavo Alonso
 
"Dolores Duran: A noite e as canções de uma mulher fascinante", de Rodrigo Faour

“Dolores Duran: A noite e as canções de uma mulher fascinante”, de Rodrigo Faour

O livro de Rodrigo Faour sobre a cantora Dolores Duran tem vários problemas e qualidades que saltam aos olhos. Comecemos pelos problemas.

Primeiramente algo banal, que nenhum malefício causa ao texto em si: a capa. Para um livro que busca um mercado amplo, a capa é sempre um atrativo. No entanto, o livro de Faour editado pela Record tem uma capa muito feia. Uma foto de má qualidade de Dolores Duran, escura, sem definição, letras feias, misturando fontes em azul e amarelo, fundo vermelho, foto preto e branco, tudo ao mesmo tempo, num samba do crioulo doido de incomodar qualquer possível comprador. É impressionante como tudo está errado nesta capa, a começar pela foto de Dolores, fumando uma piteira numa pose que dificulta o reconhecimento. Talvez fosse melhor uma foto mais manjada, que sintetizasse diretamente a cantora de “A noite de meu bem”. Não contentes com tal desleixo, os editores conseguiram até deixar a contracapa (chamada “quarta capa” no jargão editorial) igualmente horrorosa. Uma foto tirada de baixo pra cima de Dolores cantando, na penumbra, num sorriso feio. De tão mal escolhida, a foto da quarta capa transforma a cantora noturna em assombração. A editora deveria ter mais cuidado com um escritor como Rodrigo Faour, que há alguns anos publica na casa — são dele também História sexual da MPB e Bastidores, este último sobre a carreira de Cauby Peixoto.

Outro problema irritante do livro é seu tom extremamente coloquial. Faour usa termos e gírias atuais para classificar alguém que, por mais avançada que fosse, talvez não coubesse na imagem de “pegadora” na qual o autor a quer enquadrar. Termos como “bofe”, “pegar”, “passar o rodo”, “mancebo”, dentre outros, parecem mais denunciar os trejeitos do autor do que fazer compreender a biografada.

Outra questão problemática é o tamanho do livro. Será que uma compositora que compôs apenas 35 músicas, sendo que nem metade delas conhecidas, merece uma biografia de mais de 500 páginas? No decorrer da leitura fica a ideia de que Faour aumenta a importância da biografada em vários momentos, fazendo com que esta se pareça maior, e que sua repercussão tenha sido mais incensada do que de fato foi. Os termos usados pelo autor cooperam para essa impressão às vezes exagerada: heroína, estrela, enfeitiçadora, fascinante, destemida, abusada, cintilante etc. Usados insistentemente, acabam tendo o efeito contrário. O livro parece inflar uma personagem que obviamente teve sua importância na música brasileira da época, mas cuja “estrela” não era maior que outros artistas do mesmo período, como Jorge Goulart, Blecaute (bizarramente grafado Blackout em determinada parte do livro), Marlene, Emilinha, Cauby, Maysa e sobretudo Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Angela Maria, dentre tantos outros que fizeram sucesso entre os anos 40 e 50. Se suas canções perduraram no tempo mais do que as de outros cantores e compositores, isso se deve menos à sua importância na época e mais ao jogo da memória da música brasileira, algo a que voltaremos ao final desta resenha.

Aliás, a idolatria é um problema recorrente nas atuais biografias musicais. Grande parte dos biógrafos parece escolher o biografado por admiração, e gasta páginas elogiando o cantor/compositor. O autor transforma-se, na prática, em um advogado de defesa que só consegue ver qualidades no biografado. É o caso, por exemplo, das biografias de Maysa, de Hermínio Bello de Carvalho, de Clara Nunes, de Cartola, entre outras, que parecem inflar as personagens desproporcionalmente aos fatos. As biografias de Chico Buarque, idem, todas elas vão no caminho da idolatria ao compositor de “Apesar de você”, sem qualquer espírito mais crítico. As séries, especiais e minisséries globais, como “Por toda a minha vida”, também pecam neste sentido. De forma que este é um defeito de boa parte da memória musical brasileira, não apenas de Faour. Outro defeito comum é o perfilar de fatos da vida do biografado, quase sem nenhum critério estilístico que não o cronológico. Os autores se contentam em ser meros “contadores de causos”, sem nenhuma ambição maior que a diversão. Relembram causos que “confirmam” a “genialidade” do biografado. Faour nos enche de fatos e elogia tanto e tantas vezes sua “estrela” que incomoda mesmo o mais fanático leitor. Para o autor, Dolores era “à frente do seu tempo”, livre sexualmente, exímia cantora, enfeitiçadora, cativante, contestadora, intelectual, independente, linda, fluente em vários idiomas, extrovertida, tinha caligrafia bonita e arredondada, etc. etc. e muitos etc. A rasgação de seda é tanta que várias vezes Faour perde a oportunidade de compreender como Adiléia da Silva Rocha se tornou Dolores Duran por causa de elogios fortuitos. Um caso exemplar é o fato de Dolores cantar bem em várias línguas mesmo sem ter feito nenhum curso (ou só começado e logo em seguida parado) e tendo ido à escola apenas no primeiro grau, por ser de origem humilde. Como, mesmo apesar de tudo isso, ela cantava em outras línguas com tal perfeição? Segundo Faour, Dolores não apenas cantava, mas de fato se comunicava com os estrangeiros em suas línguas maternas nas viagens internacionais. Fica a impressão de que o autor não consegue explicar essa habilidade a não ser pela admiração à sua genialidade.

Em outro ponto problemático, Faour insiste em demarcar que Dolores era uma leitora assídua, tendo lido os filósofos existencialistas e vários outros clássicos. Em suas entrevistas dos anos 50, no entanto, isso não aparece. Em determinada entrevista, um jornalista pediu a Dolores que sugerisse um autor ao público da revista. Dolores disse que preferia não sugerir um autor, “porque gostava de todos”. É improvável que Dolores fosse essa intelectual que Faour tenta, sem provas concretas, construir. Sua vida foi intensa e atribulada, talvez não tivesse lido nem metade dos livros de sua estante. Talvez fosse, no máximo, uma diletante que lia alguns livros e colecionava frases (como demonstra Faour nas páginas 195-6), o que é bem diferente, embora louvável e incomum para uma artista popular.

Uma questão atravessa o livro de Faour sem resolução. Por que a geração de músicos e cantores dos anos 50 permaneceu tanto tempo no “esquecimento” da sociedade brasileira e hoje volta à tona com toda a força? Sobre Dolores, por exemplo, além da biografia de Faour, há outra sendo preparada pela jornalista Angela de Almeida, sem data prevista de lançamento, pela Casa da Palavra. No entanto, por muitos anos essa geração musical brasileira que reinou por pelo menos duas décadas (anos 40 e 50) padeceu do silêncio de jornalistas, historiadores, memorialistas, biógrafos. Trata-se de uma geração que não encontrou lugar nem na “tradição”, nem na “modernidade”, nas palavras de Paulo Cesar de Araújo. Situava-se entre a época de “ouro” do samba, nos anos 30 e 40, e os anos da Bossa Nova e da MPB a partir da década de 60. Coube a esta geração um silêncio combinado de críticos, fãs e memorialistas, que se abstiveram de escrever sobre este importante momento musical brasileiro.

A obra de Faour tenciona no resgate desta geração. Com Bastidores, biografia de Cauby Peixoto, e agora esta sobre Dolores Duran, Faour é um dos autores que começaram a analisar este tempo crucial da música brasileira menosprezado por quase 50 anos por formadores de opinião e público leitor. No entanto, em suas duas obras, Faour foge de explicar a questão, para o que ele teria gabarito, visto que é reconhecidamente um pesquisador competente. Parece-me que poderia ousar mais e explicar melhor o porquê de determinados pontos escuros da história e da memória musical brasileira. Neste aspecto, o último capítulo da obra é sintomático. Faour prefere explicar a permanência da obra autoral de Dolores por uma afirmação, novamente, idólatra. Segundo ele, a permanência de sua música no imaginário brasileiro “é simplesmente justa”. De forma que o autor não consegue explicar por que a obra autoral de Dolores é mais lembrada que sua voz (que ele tanto enfatiza ao longo do texto como afinada, sedutora, fascinante etc.). Talvez se ousasse mais em pensar para além da biografia muitas vezes centralizada nas qualidades da biografada, pudesse abrir os questionamentos em direção à música brasileira como um todo, de forma a melhor entender sua personagem.

Agora vamos às qualidades da obra.

Um dos ganhos do livro é o capítulo “Uma aventura na Cortina de Ferro”, sobre a turnê que vários artistas brasileiros fizeram pelo leste europeu comunista em 1958, sob o comando de Jorge Goulart. Dolores embarcou ao lado do Grupo Farroupilha, do clarinetista Paulo Moura e das cantoras Nora Ney, entre outros, no projeto cultural-econômico do Partidão e de JK de aproximar o bloco comunista do Brasil. Mas Dolores não se mostrou o exemplo de militante desejada por Prestes e Marighella. Sua relação ambígua com os russos (a cantora preferia passar o tempo livre em festas nas embaixadas francesa e americana nos lugares que visitou) e sua desilusão com o comunismo dão o que pensar. A passagem desta geração de artistas por Moscou, Leningrado e arredores complexifica a imagem frequentemente reproduzida de que a música dos anos 50 era “alienada” e/ou simplesmente fruto da “indústria cultural”, como apontavam críticos da época como Lucio Rangel e José Ramos Tinhorão. Aliás, Faour nada fala sobre estes críticos, que negaram legitimidade a cantores massivos da década de 50, entre eles Dolores Duran, em nome do resgate da música de “raiz” e do folclore nacional.

O livro tem um capítulo fundamental, justamente o último, intitulado “Uma obra de fôlego”, sobre as regravações da obra autoral de Dolores Duran. Apesar de curta e com poucas composições, sua obra foi incessantemente regravada. Primeiro por contemporâneos: Trio Los Panchos, Maysa, Dick Farney, Lucio Alves, Marisa Gata Mansa, Silvia Telles. Depois por quase todos os artistas da MPB, de Caetano a João Gilberto, de Milton Nascimento a Elis Regina, além de roqueiros dos anos 80, como Marina e Kid Abelha. Sem esquecer dos artistas bregas, de Perla a Altemar Dutra, identificados com a veia bolerística de Duran. Não obstante, no intuito de mostrar a grande quantidade de regravações de suas composições, Faour comete alguns exageros. O autor se equivoca em enumerar com o mesmo peso versões de Frank Sinatra, João Gilberto, Ella Fitzgerald e Roberto Carlos com outras de ilustres desconhecidos sem importância como Waleska, Lenita Bruno, Dora Lopes, entre outros. Para estes, bastava o ótimo anexo no qual Faour enumera todas as regravações das canções de Dolores, sendo “A noite de meu bem” a campeã inconteste.

O caso de Roberto Carlos, um cantor romântico influenciado por Dolores Duran, é emblemático. Segundo o autor Paulo Cesar de Araújo, autor da censurada obra Roberto Carlos em detalhes, o cantor mais popular do Brasil compôs um de seus clássicos mais belos, “De tanto amor”, inspirado nas diversas composições de Dolores em que ela usa a exclamação sofrida e sentida “ah!”. A canção de Roberto, inspirada nos “ahs!” de “A noite de meu bem” e “Por causa de você”, vai direto ao ponto: “Ah!/ eu vim aqui amor/ Só pra me despedir…”. Roberto não se conteve com a inspiração. Em 1974 regravou “Ternura antiga”, de autoria de Dolores, exatamente quinze anos depois de sua morte. Embora cite a regravação de Roberto, Faour não conseguiu dimensionar a influência de Dolores na obra do rei. Talvez por ter sido vítima da censura do próprio, ou por não ter lido a obra de Paulo Cesar, disponível na internet desde que foi tirada de circulação em 2007, ou talvez simplesmente por não reconhecer em Roberto Carlos um artista muitíssimo influenciado por Dolores. Seja como for, a falha é sintomática.

Além das inúmeras regravações de artistas da MPB e outros gêneros, cabe lembrar o papel fundamental da Enciclopédia da Música Popular Brasileira, lançada pela Abril Cultural nos anos 70 (e republicada na década seguinte) em várias edições, as quais continham um exemplar celebrando a obra da compositora Dolores Duran, com encarte ilustrado, fartos textos e um LP. Esta coleção foi importante porque, vendida em bancas de jornal a preços módicos, ajudou a condensar, disseminar e relembrar carreiras do passado que na época da edição estavam meio esquecidas. Faour aponta a presença de Dolores nesta coleção, mas não a problematiza. Por que ela foi contemplada e outros de sua geração, não?

Apesar das críticas possíveis, o último capítulo da obra de Faour é realmente bastante intrigante. De quebra ele consegue dois méritos. O primeiro é mostrar a perenidade da obra autoral de Dolores. Segundo sua pesquisa, ela é a compositora mulher mais regravada do Brasil. Rita Lee, que vem em segundo lugar, tem uma carreira infinitamente mais longa. O trabalho de Faour de fato resgata o papel da compositora Dolores na música brasileira. Espantosamente, ela tem mais regravações que vários nomes de peso da música nacional, como Assis Valente, Nelson Cavaquinho, Gonzaguinha, Djavan, João Bosco, Cazuza, João Donato, Jacob do Bandolin.

O segundo mérito do último capítulo de Faour refere-se ao que vínhamos falando sobre a memória dos artistas dos anos 50. Faour complexifica a memória do período ao mostrar que, se a voz de Dolores caiu no esquecimento, sua obra autoral foi regravada várias vezes ao longo dos anos. Não houve ano em que ela não fosse regravada ao menos três vezes. Tendo por base sua obra diminuta, trata-se de um feito espetacular. De forma que Dolores é uma legítima representante da geração dos anos 50, mas, ao mesmo tempo, extrapola o esquecimento de que padeceu grande parte desta geração. Eis o principal ganho da biografia de Faour. Descontada a idolatria do autor e seu tom excessivamente coloquial, tem-se a noção de que é preciso complexificar os estudos acerca da geração dos anos 50. É provável que futuros livros encontrem questões paradoxais pouco explicadas, como a que envolve a própria Dolores Duran, uma cantora que é relembrada mais por suas composições do que por sua voz.

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